05 novembro, 2008

Olá para todos

Inauguro o blog com um de meus textos: "Pingos Refletidos" pertencente à coletânea "Sensações", ainda não publicada.

Se possível comentem o texto ok? Um Grande Abraço


Pingos Refletidos

  Luigi Ricciardi

De lá saiu com a alcunha de derrotado, vínculo não mais tinha. O peito cheio de ardores pedia algo que ele mesmo já não sabia. A tal alcunha posta pelos outros já se incorporava à sua alma, a mente revoava a mil pés. Estava atrasado, compromissos mil, olhou para o céu, nuvens  de desencanto já encobriam a cidade, e o vento sacolejava as árvores em seu redor.

            Começou a andar rumo ao seu destino, antes que água lavasse o que havia lhe restado de seco: as roupas, o resto já estava imerso em um lago imundo, sem correnteza para lavar a esperança.

            Pensou no que deixara para trás, nas dúvidas futuras. Com o ódio a rondar-lhe os punhos, começou a caminhar apressadamente, sem desviar dos transeuntes, companheiros na corrida contra a chuva. Quinze ou vinte quadras o separavam de seu destino, e a cada esquina esbarrava em uma dúzia de pessoas, e deixava carros parados esperando que ele atravessasse a faixa, nem fitava o lado.

            A certa altura, viu muitas pessoas paradas, neste meio avistou a menina do carrinho de cachorros quentes sorrindo e entregando o pedido de outra moça, que lhe sorria de volta. Mais a frente um hip vendia brincos, enquanto seu companheiro cantava tocando seu velho violão. Do outro lado da rua, uma mulher era assaltada e o ladrão era espancado. Garotinhas colegiais passavam por ele a lamber deliciosos sorvetes já no começo do chuvisco. Mulheres saíam do shopping com sacolas e falando ao telefone, com o dia cada vez mais noite.

            Então uma lágrima pendeu dos olhos e beijou-lhe a boca, ao passo que a água divina já lhe tocava a cabeça, a chuva caía abundante. Aos frangalhos, não conseguia decidir se corria ou se ficava à mercê da água. Indeciso, permaneceu em meio ao temporal, chorando tanto que as águas se misturavam e já não era possível distinguir as chuvas.

            Já não andava rapidamente, seu passo diminuira. Viu um homem de terno correndo até seu carro com sua maleta na cabeça. Duas mulheres com seus guarda-chuvas em diagonal, com as calças molhadas. Um carro enguiçado, com um homem ensopado a trocar pneus. O semáforo desligado, e o buzinasso dos veículos já desordenados e desorientados.

            Lembrou de sua mãe, abandonada no campo verde. De seu pai com defeito nas pernas. Do amigo de escola, com os dentes tortos e com cara de bobo. Da namorada, ocupada com seus afazeres. Viu um casal se beijando encostado no muro da estação feito filme americano. Sentiu frio. Parou em frente a uma loja com camas, colchões, cozinhas e sofás, e notou um casal que ria pulando na cama enquanto um senhor entregava um cheque para o vendedor.

            Andou quadras e quadras, indo para onde suas pernas o levavam, não sabia para onde ia. Já era quase noite e a chuva descia como antes. Passou por sobre a ponte, os postes iluminavam turvamente o toque das gotas no chão.

            Passou por algumas pessoas que estavam sob um toldo, esperando a chuva passar. Provavelmente o chamariam de louco, bêbado, ou ladrão por andar na chuva. O peito doía cada vez mais forte.

            E no auge de sua desventura viu a poesia triste daquela chuva. Sentiu frio na chuva de verão, e sentiu o outono nos seus gélidos fins de tarde. Sentiu saudade de seu chuveiro.

            Viu uma mulher sair correndo da proteção para atravessar a rua. Os faróis a cegaram, e ela se despediu da chuva, dando adeus também ao sol. O acidente aconteceu à sua frente, e aqueles que se protegiam da chuva se lançaram para ajudar a coitadinha. A ambulância chegou rápido, mas em vão. Agora, mais choros se misturavam com a chuva. Ele ficou lá, parado, imóvel a tudo o que acontecia, a chorar sua própria chuva.

            Caminhou e sentou no banco da praça logo à frente. Sorriu ao lembrar-se de sua namorada, sorriu para sua mãe, piscou para si. Dançou sozinho suas valsas alegres e começou a saltitar e correr em direção a algum lugar desconhecido. A chuva limpa a alma e alegra o dia com um lindo arco-íris, lava o peito e o colore de novas vidas.

            Mas se lembrou dos vínculos desfeitos, da fama de derrotado. Estava sem dinheiro, perspectivas se esvaindo, e o balbucio novamente rondava seus lábios, e suas mãos formigavam. A chuva não parava, mas ele resolveu parar. Estava muito molhado, mas o vento é que congelava a alma, e então se escondeu sob uma marquise.

Questionando-se sobre que caminho tomar, ruminou por estradas desconhecidas e outras sem saída, e nem reparou que ao seu lado havia duas velhinhas que conversam sobre o passado e sorriam para ele. Estacionou quando ouviu uma delas dizer: enxugue-se filho, estendendo uma toalha para que ele se enxugasse um pouco. Ele aceitou. E ficou conversando com as velhinhas. Em minutos suas mãos já não formigavam e seu peito se reaqueceu com a palestra enquanto a chuva passava. Já não se lembrava da alcunha recebida.

Olhou para o horizonte e decidiu rumar. Agradeceu as senhoras e retomou seu caminho. Olhou ainda para trás e acenou para elas. Foi embora, pensando na namorada, e no seu chuveiro.

 

 

 

 

 

 

 

Um comentário:

lilissa disse...

Parabéns mais uma vez
Gostei muito
principalmente que colocas o ia-a-dia de uma forma linda
Vou continuar a olhar teu blog
vais me avisando
um beijo e um baita findi pra ti
Elo