09 novembro, 2008

PORTAS, DIAS E RESPINGOS

 Texto da coletânea "Contos & Desencantos". Espero que gostem, abraços!

 

PORTAS, DIAS E RESPINGOS

            Rosas, cheiros, laços pretos, gosto, toque, contato, planos, canções e uma noite toda rolando na cama tentando pensar em coisas que não me fizessem lembrar dela. Engraçado como a gente condiciona, muda, vira a esquina de uma vida instantaneamente quando encontra alguém, vida que a gente tinha certeza de que sempre seguiria retilínea.

            Palavras me convenceram, palavras conquistaram minha confiança, palavras, palavras, palavras. Engraçado como hoje as pessoas as usam com tanta futilidade, não dão às palavras um verdadeiro respeito. Fico imaginando, por exemplo, um cavaleiro medieval, que pagava a palavra dita, com sua vida, sua honra. Hoje, pessoas a tratam como se ela não tivesse mais valor, logo ela, a palavra, o bem que eu mais admiro, que eu mais aprecio.

            As palavras que ouvi, todas elas que saíram da boca que eu beijava também ficaram em minha mente enquanto eu rolava pela cama tentando dormir ao menos um pouco. Mas não a culpo por dizer tudo aquilo, talvez tenha sentido mesmo, ou talvez tentado me fazer feliz. Sinto-me aliviado apenas por uma coisa: dessa vez, não fiz pouco caso, não debochei, mas também não me rebelei, não saltei na garganta. Deixei a porta aberta, ninguém sabe o que pode acontecer no futuro. Pela primeira vez deixei uma porta aberta. Fico me perguntando: será que entraria alguém através das portas que eu fechei se eu as tivesse deixado abertas?

            Mesmo assim o dia tinha tudo para ser ruim. Já não agüentava mais o emprego, o baixo salário, a solidão precoce, a dor de cabeça, o sono mal dormido. Fui trabalhar a contra gosto. Seria o tipo do dia que eu não teria saco nem pra escrever. Por mim ficaria em casa e ouviria todos os meus discos e leria pelo menos uns dez livros pra ver se conseguiria fugir da realidade. Mas acabei indo. Chegando, logo de cara encontrei meu chefe. Cheguei na hora e mesmo assim levei bronca por nada, uma tarefa não tão urgente que deixara de ser feita no dia anterior. Nada contra chefes, mas às vezes eles têm um senso de perfeccionismo que me irrita. Só que ao mesmo tempo são cegos e não olham para o espelho e para o próprio umbigo. Sem contar que alguns são desprovidos de qualquer sentimento bom. Fingi que não era comigo e pus-me a trabalhar, e assim o tempo foi passando.

            Depois de algumas horas trabalhando, liguei o rádio e ouvi a música que mais gostava na infância. Lembrei-me de como era feliz, sem problemas, sem preocupações. A vida adulta nos traz liberdade, mas ao mesmo tempo, compromissos. Logo depois ouvi outras músicas que fizeram parte da minha vida. E um filme foi passando em minha mente. Lembrei dos primeiros namoricos nos bailes que eu freqüentava, de como era gostoso flertar, e como doía levar um fora, mas como era bom beijar. Os outros meninos sempre ficavam com inveja, e as meninas admiravam meu sucesso. Bons tempos.

            Ao meio dia fui almoçar e no caminho encontrei uma ex-namorada que me disse estar muito bem e feliz. Não senti inveja, mas fiquei feliz por ela não guardar resquícios nem traumas de nossa antiga relação. Nosso papo foi tão bom que me chamou para almoçar com ela e ainda por cima me convidou para seu casamento.

            Voltei ao trabalho uma hora depois e já não tinha dor de cabeça. Realizei todas as tarefas com empenho de um recém-contratado. Executei com maestria o serviço que me cabia.

            As seis saí do trabalho e parei na primeira lanchonete que vi. Peguei alguns trocados e comprei um café com leite acompanhado de um pão com presunto e queijo. Essa refeição equivalia a um jantar, pois meu salário era cada vez mais escasso.

Dirigi-me à faculdade, onde adentrei a sala e encontrei os amigos. Durante a aula tomou-nos conta uma crise incontida de risos, algo que sempre fazíamos, mas há tempos não ocorria. Senti-me de alma lavada, sem peso, aliviado. Percebi que meus amigos continuavam os mesmos, eu é que havia me afastado. Rimos do início ao fim da aula aos olhares mortíferos do professor e do resto da sala. Inveja?

            Saindo da sala, percebi que estava chuviscando. Mesmo assim decidi ir pra casa naquele momento, não iria esperar a chuva passar. Fui caminhando devagar e as copas das árvores me ajudavam a ficar menos molhado. Coloquei a mão no bolso e peguei uma última bala. Os cigarros haviam acabado, conferi os outros bolsos e não havia tostão. Foi aí que de repente me dei conta que durante quase o dia todo não havia pensado nela. Senti-me bem por ter deixado a porta aberta. Só que me senti melhor ainda em saber que pode haver uma vida além da que eu vivia.

            Deixando a porta do meu relacionamento aberta, percebi que, ao mesmo tempo, abri uma porta que há tempos estava fechada, uma porta que me privava de aproveitar os bons momentos, de me sentir livre e vivo. Essa porta é a porta da minha vida, que me liga à esperança, e que estava inacessível por que a fechadura estava envolvida de decepções adquiridas durante os anos. Senti-me feliz, como há muito não me sentia.

Chegando perto de casa, cruzei com uma vizinha de prédio que eu sempre achei bonita, e que nunca olhava pra mim. Mas nesse momento, passou por mim sorrindo e deu uma piscadela. Nada como um dia após o outro.

3 comentários:

fernanda disse...

luuuu adoreiiiiiiiii esse textooo adoreii msm lindooo
nossaaa suas palavras me fizeraum imaginar toda a historia como se eu estivesse vendoo em tmpo realll foi muitoo bomm pode tr certezaa q voltareii sempre akii
bjuss
adoro vc.....
bjones

Toni Teles disse...

Man, parabéns pelo texto! Se me permite entrar na história, sou o amigo que ria contigo a aula toda com a veia do pescoço quase estourando! hahaha

Abraços!

SHE WOLF disse...

Como há de perceber, após a leitura do meu, me senti dentro deste texto.
Fico imaginando... onde estãrão minhas portas, e se ainda poderei abri-as.

=**