05 fevereiro, 2009

DELÍRIOS E CHAMINÉS


Bonjour...

Hoje publico um conto meu chamado "Delírios e Chaminés" que será lançado em março pela Câmara Brasileira no livro "Contos Selecionados de Autores Premiados. Gosto muito desse conto por conta da confusão interior da personagem entre delírios, desejos e recordações. Muitos de nós, hoje, abrem as janelas, e só vêem chaminés que choram, e, muitas vezes, a fumaça que exala delas não é nada mais do que o espelho a refletir nosso próprio interior.
Espero que gostem. Comentem, s'il vous plaît!
Abraços!



Delírios e Chaminés

Ela sorveu as últimas gotas da taça de vinho. Tentou contar quantas garrafas já tinha bebido, lhe pareceu três ou quatro.  Procurou em vão por sobre a mesa seu maço de cigarros. Deu uma olhada rápida nos quatro cantos da sala e não o encontrou, as pernas já não lhe obedeciam e decidiu não procurar mais. Olhou para a janela, sua opinião sobre a vista do décimo andar continuava a mesma de quando entrara no apartamento pela primeira vez: horrenda, um mundaréu de chaminés soltando suas fumaças, carros com as suas fumaças igualmente gris, e o mundo correndo a procura de algo que ninguém sabe o quê. Nunca quis viver sua vida ali, mas a proximidade da faculdade a obrigara a aceitar as cuspidas industriais todos os dias, contudo ela nunca se acostumara.

            Decidiu sentar-se. Jogou-se no sofá com o braço esquerdo reto, enquanto que a mão direita estava dividida entre acariciar-lhe os cabelos e tirar pingos de suor da testa. O sangue saltitava em seu corpo, e o efeito das drogas acalmou-lhe as frustrações. Só então notou que o aparelho de som ainda estava ligado e uma cantora que ela não sabia quem era cantava qualquer coisa incompreensível. Pegando caminho naquela melodia, tentou embalar outra, criando palavras conforme sua mente permitia.

            Quando cansou de cantar seu braço começou a formigar, e ela olhou para o teto fixando-se no ventilador, que girava sempre e sempre, sem parar. É como as pessoas, pensou, por mais que se faça, o mundo se torna mais ou menos um círculo para todos.

            O telefone começou a tocar, mas ela não sentiu vontade de atender. Porém a curiosidade lhe bateu. Quem seria? Paulo? Não, há essa hora Paulo não ligaria. Mamãe então? Também não, não se esqueça que ela acabou de viajar, pensou. Ah! Pode ser a Claudinha. Ah que droga, não quero falar com a Claudinha. Não quero atender ninguém, nem se for o Lúcio. Isso mesmo, nem o Paulo nem o Lúcio. E logo o misterioso insistente desistiu.

            Sua cabeça começou a girar. Deve ser o vinho, pensou. Não há problema, agora em voz alta, prometo a mim mesma que este será meu último porre. E gargalhou bem alto, sem se importar com quem pudesse ouvir. E perdeu o controle, riu muito, como se estivesse no circo; então viu palhaços a sua volta, rindo todos juntos, enquanto um deles se aproximava dela para colocar-lhe um nariz vermelho. Logo depois sumiram.

            Olhou para fora, o sol já estava se pondo, e os músculos de seu rosto enrijeceram. Agora os dois braços formigavam e já não sentia as pernas. Em um estalar de dedos veio a sua mente seu álbum de fotos, organizado cronologicamente. Sentiu saudade de vê-lo, mas não era necessário buscá-lo, pois a ordem das fotografias estava registrada em sua mente. Lembrou-se da primeira foto, a que seu pai tirara quando ela ainda estava no colo de sua mãe, envolta em sangue e com o cordão umbilical. A segunda foto era de quando ela já tinha cinco anos e foi tirada enquanto ela corria pela grama a balançar seus cachinhos, correndo do pai que estava com a mangueira na mão querendo dar-lhe um banho.

            Sentiu-se um pouco sufocada, o ar era lhe insuficiente, mesmo com a janela escancarada e o ventilador ligado. Com o início da noite a penumbra confundiu sua mente e ela já não se lembrava mais da ordem das fotos.  Várias, sem seqüência lógica ou temporal vinham à tona na sua mente. Foto do seu primeiro dia no primeiro emprego, foto da praia, das amigas, das tias, do namorado, dos coquetéis de bebidas, da festa de aniversário.

            Então ela já não sabia se se lembrava de fotos ou de acontecimentos. Seu chefe gritando com ela, a prova mal sucedida, o namorado beijando a amiga, o bandido segurando sua boca no beco escuro enquanto levantava sua saia, o beijo proibido no professor de matemática, o tapa de seu pai, o êxtase das bebidas, o aniversário caliente, as aulas de alemão, passeios de bicicleta, seu joelho doendo quando jogava vôlei, o semáforo vermelho, os livros que nunca lera, as chaminés se esvaindo em dores.

            O telefone tocava novamente e ela já nem o ouvia. Sua mente corria quilômetros trazendo à tona coisas indefiníveis e ela já não sabia se eram acontecimentos ou vontades não realizadas: cuspia em seu chefe, tomava banho nua na chuva, rasgava a prova da faculdade, corria a noite no cemitério, fazia sexo com a amiga.

            Na confusão de cenas inexplicáveis e indecifráveis sentiu o peito apertar e como em um passe de magia sua mente parou.  Sentiu o corpo todo formigando, uma falta de ar ainda mais sufocante e um forte sono tomou conta de seus olhos. Antes de fechá-los, ainda olhou pela janela e viu a noite já adulta com uma chuva fria a tocar-lhe. Ainda teve tempo de ouvir o telefone tocar pela última vez e ver a seringa em cima da mesa ao lado das garrafas de vinho.  Virou-se e encostou a cabeça no braço do sofá.

            Deu um ultimo suspiro e fechou os olhos. Dali não se levantou mais, adormeceu pouco tempo depois de ter tomado a última garrafa de vinho e de ter injetado veneno em suas veias.

7 comentários:

Marco Hruschka disse...

Quantas personagens como essa não existem nas grandes metrópoles da vida?! Parabéns pelo texto, como em sua maioria, temas atuais, tensos, pesados como a própria existência. Pra mim o vinho, dependendo da situação, tbm é "O álcool fantástico possuidor de loucuras". Mais uma publicação, que sejam eternas!

Luciana disse...

o texto é tao real que pra mim soa como rotina, - bem, a palavra nao é rotina, pensei antes em usar "clichê", mas ai seria pejorativo é nao é essa a ideia... enfim, percebe? é um elogio.

Aline disse...

como já disse pessoalmente ao meu querido amigo Luigi: =D apesar da melancolia presente nos seus escritos.....dos quais me trazem lembranças dos infinitos contos lidos para o meu vestibular.... eu adoro...admiro...idolatro....tudo o que você escreve...sou sua fannnnn ...beijinhs

Laís Carla disse...

Bom, meu querido. Em primeiro lugar, quero agradecer-lhe pelas muito bem-vindas dicas que você me passou...
Em segundo, como já disse muitas vezes... Sou apaixonada por seus escritos e esse, não poderia ser diferente... É exatamente o tipo de conto, sobre o qual eu gosto de ler e escrever... Essa melancolia, essa eterna busca por algo que não seja simplesmente esse existtir mecânico, essa eterna luta entre razão e emoção... Às vezes, uma medida drástica, é a unica forma de aliviar as dores, angústias que insistem em nos assombrar. Perfeito!!

Parabéns!!!!

Luigi Ricciardi disse...

Ah Obrigado pelos comentários, Laís. Fico muito lisonjeado em saber que alguém se identifica com meus textos. Temos um grupo bom de pessoas escrevendo muito bem. Vc é uma delas. Continuemos escrevendo, que a arte nos chama ao tête-à-tête!
bisous!

vanessa disse...

Delirante. ótimo conto Luis!
Meus Parabéns! o primeiro de muitos que te darei ainda. Muito bom mesmo. Adorei.
bises querido.

SHE WOLF disse...

Realmente maravilhoso,
senti-me, como sempre, dentro da situação.
Mas o que a teria levado a isso ???

=**