17 maio, 2009

BAILE DE MÁSCARAS



Aproveitando o ensejo do tema do meu último poema postado aqui no blog, lanço quase que simultaneamente à sua escrita, ainda com cheiro de tinta fresca, esse belíssimo conto de meu amigo Fábio Fernandes, que retrata, assim como meu poema, as máscaras pegadas às caras do ser humano. Tive o prazer de acompanhar o processo de criação, e fico extremamente feliz de partilhar das idéias de Fernandes. Meus parabéns! E viva à nossa nova corrente literária!



BAILE DE MÁSCARAS

Fábio Fernandes


Inicio meu relato, que nada tem de original, buscando nos arquivos de minha memória os fatos que ocorreram no dia do tradicional Baile de Máscaras da cidade de Novo Camaleão. Adianto ao leitor, que escrevo tais memórias já finado, porém que não se engane, minha situação não é mais nem menos confortável que a de qualquer outro que de fato vive, e vive não só biologicamente.
Desde muito cedo não me encontrei acolhido nos braços da sociedade, e nunca tive talento suficiente que pudesse me deixar a altura dos meus conterrâneos no que diz respeito às artes cênicas, de modo que sempre optei pelos modos reclusos e solitários. Entretanto nos dias anteriores ao Baile, cujo irão melhor conhecer posteriormente, tive uma súbita vontade de me juntar ao rebanho e conhecer o tradicional festejo, não soube antes e não sei agora o porque de tal vontade, o certo é que não posso mentir, e confesso que me rendeu prazeres, porém incompletos e momentâneos.
Pois bem, sobre a cidade de Novo Camaleão, se o leitor ainda não conhece é porque não olhou com muita atenção os mapas da própria vida, se o caso for, descrevo-a sucinto e direto. Era uma cidade pequena, com ares de vila, porém que acomodava considerável número de pessoas. Era pacata, porém dispunha de muitas pessoas que a faziam fervilhar se uma peça qualquer de seu tabuleiro movesse casa não comum. Em suma a cidade tinha não poucas alcoviteiras, maus caráter, gatunos, aproveitadores e toda mais gente de bem que se possa imaginar, e assim trilhava seu caminho rumo ao progresso.
O Baile não trazia clima diferente à cidade, mas os habitantes esperavam ansiosos. Era uma festa em que até o pior afortunado marcava presença, não faltava figura alguma, salvo uma meia dúzia que preferia o aconchego do próprio lar. Eu, no fundo, nunca entendi o porque de tamanha empolgação para um evento onde não se faziam coisas diferentes dos hábitos corriqueiros. O ritual de usar máscaras não era incomum, mas talvez a diversidade de modelos e tamanhos fosse o maior atrativo.
Já era chegada a data, e todos partiram para o salão da igreja, onde eram ocorridas as festas e eventos da cidade. Todos bem trajados, com suas máscaras finas e impecáveis iam lotando o salão que era pouquíssimo iluminado e estava já agitado ao som de músicas dançantes e milhares de vozes animadas. Não cheguei cedo ao evento, pois perdi algum tempo escolhendo minha fantasia, não julgo que fiz boa escolha, peguei a máscara que me pareceu mais conveniente, pois não me preocupei com tais detalhes e não preparei meu traje previamente.
Adentrei o salão com minha máscara de carrasco, fi-lo receoso, não porque a fantasia incomodava, mas porque não tinha lá muito contato com toda a gente. Senti-me estranho, minha timidez impedia com que eu fosse ter com os outros, então fiquei só a observar.
Corria tudo como planejado, a festa se desenrolava a plenos pulmões, quando um sujeito exaltado começou a tumultuar o centro do salão. Demoraram alguns minutos para que lhe dessem a devida atenção. Quando baixaram o volume da música e lhe deram a vez da palavra, o salão emudeceu, e todos permaneceram paralisados, perplexos, na tentativa de assimilar a notícia que acabaram de receber. O homem exaltado estava adoecido e decidira não ir ao Baile, ficara em casa e vira pela televisão que um asteróide estava a caminho do nosso planeta, e que o passeio do asteróide teria desfecho trágico, o apocalipse era iminente, e o tempo que tínhamos era menos de duas horas.
O que aconteceu nessas últimas duas horas de existência do mundo e da cidade de Novo Camaleão pode chocar algum leitor mais desinformado, mas aquele já acostumado com o baile de máscaras nada verá de surpreendente. Desesperados com o fim do mundo muitos foram ter com o padre, para obter a absolvição e gozar do reino dos céus, porém só depois de muita procura encontraram o santo homem, que estava no confessionário da igreja a deleitar-se com os últimos prazeres de sua vida, trocava ele carícias com um de seus coroinhas. Perplexa ao presenciar tal cena, uma beata, que dedicou a vida às rezas e a ação nenhuma, teve a alma arrancada do corpo e caiu aos pés de todos, que se desesperaram e foram chamar o médico para que fosse acudir a religiosa. Surpresa também tiveram todos, ao encontrar o médico, que cavava frenético a sua própria cova e a recheava com todas as suas riquezas, as quais queria ele levar para a eternidade. Quando questionado sobre o estado de saúde da já finada beata, ele só respondeu de forma seca que a partir daquele momento era cada um por si e deus por todos; logo, a beata que sempre tivera fortes laços com deus, estava bem arranjada. Todos, entendendo a situação, dispersaram, só restando um dos vereadores da cidade, que recebendo o parecer do médico irritou-se e levou o doutor até a mulher pela força bruta, e quando o óbito fora constatado pelo médico, desesperou-se e chorou sobre o corpo da mulher muito mais lágrimas que o próprio marido, este que já não passava mais ereto por portas baixas.
E assim sucederam várias dessas, e com todos ia acontecendo o mesmo, as máscaras já não se sustentavam nos rostos e era sofrível mostrar a verdadeira face. Chegada a hora prevista para a colisão já sobravam poucas máscaras, quase todas já estavam ao chão, assim como os rostos de seus donos. Porém algo aconteceu, e a cidade de Novo Camaleão teve a notícia que o asteróide mudara seu percurso; entretanto, engana-se aquele que pensa que o clima foi de total euforia. O asteróide não caiu, porém caíram as máscaras, e agora todos já sabiam a verdadeira identidade que tinham, o que no fundo não era de orgulho, nem mesmo para as pessoas teoricamente mais bem sucedidas na sociedade.
Depois do ocorrido, muitos aderiram aos meus hábitos, e poucos saíam às ruas. Eu que observei todo aquele pandemônio, continuei minha vida normalmente, sem modificar minhas ações, e assim foi até o fim dos meus dias, quando finalmente entendi que todos utilizavam máscaras, dentro ou fora dos Bailes. Entretanto não foi prazeroso me deparar com tal realidade, pois percebi então que o termo todos incluía a minha pessoa, e que a máscara que eu carregara no baile, me servia muito bem à face.

2 comentários:

Luigi Ricciardi disse...

Já elogiei no post, mas queria ser o primeiro a deixar um comentário sobre o texto. Reitero que a minha visão é a mesma do escritor deste texto, que foi tão bem escrito com uma dose cavalar de ironia, minha figura de linguagem preferida!

Anônimo disse...

Parabéns, Fábio!

Gostei do estilo e, especialmente, do desfecho...

Abração,
Ana Cristina