25 agosto, 2009

Manhã Dolosa



Salut à Tous!

Gostaria que opinassem sobre esse meu novo conto, um pouco diferente do que normalmente escrevo. Quem nunca passou por essa situação? A de ver uma quimera ruir-se? Abraços a todos!



Manhã Dolosa

No indesejado retiro a que fora submetido, de longe, avistava o vil correr sem definições das multidões aceleradas. A noite, irmã das fugas diárias, andava-lhe arredia. Da janela do edifício, ponto alto da dor, via o mundo girar e parar no mesmo lugar de onde saíra. A solidão era a gadanha da senhora morte a roçar-lhe o pescoço em busca de sangue. E a brandura ou tempestade das atrações era uma ventura que lhe fora tirada desde o abrir das páginas desta história. Mas nos devaneios da tortura, ele fantasiou sua mais bela quimera.

Da cama, viu-a entrar pela porta. Vinha cadenciando seu grassar. Passo a passo, como numa dança vagarosa ao tom do silêncio, veio caminhando em sua direção. O aroma que brotava no quarto tocava a primeira nota da orquestra onírica. Veio rodopiando seu corpo-valsa, tocando outras notas dissonantes. Nos calcanhares, passos então desconhecidos que vieram inflamar o ambiente agora auspicioso, outrora adverso.

Ela tinha um sorriso de lua nova, daqueles que se destacam mesmo com o céu negro. Olhar de maçã verde, tez do puro açúcar, poros lânguidos de cornucópia. Versava amores ao fitar-lhe nos olhos, e seu colo, já seminu, chamava-lhe à loucura. Nesse instante, viu para que fora chamado no nascimento, e assim tocou-lhe o colo, beijando-lhe os lábios. Em um instante, menor que um piscar de olhos, nua, de costas, ela lhe oferecia seus sentidos. Subindo ao proscénio, no dançar das cadeiras, como um beija flor, sugou o pólen da vida, da magnânima flor dos desejos.

Nos rostos ensalmados pelo deleite, via-se derramar lágrimas de seus olhos; ele a contemplava quase sem crer na oferenda recebida, enquanto que ela lhe sorria crepusculamente, a explodir com seguidas fruições. Chocando-se, rio e terra, tocaram o tecido celeste, indo bater à porta do criador. Deitados, extasiados, brandamente tocavam as faces alheias e dialogavam com o infinito tendo os olhos fechados.

O céu já está laranja, pede para o dia começar. Se Deus não existe, o mundo é um caos. Se existe, o caos continua, mas tem-se um alento. Criou-se um Deus divino para acalentar os espíritos. E no ensejo do amor, uma voz desconhecida, não se sabe se Deus ou a própria vontade, sussurra aos seus ouvidos, Tornarão a se ver onde não há treva. Encontrem-se onde a escuridão não lhes possua.

Ao levantar, já com o dia alto, uma ira tomará conta dos sentidos dele, e um urro sobre-humano será dado de suas profundezas humanas. Dolosamente, ele maldirá o sonho da noite, tendo novamente a solidão como companheira inseparável.

A uma distância desconhecida, uma mulher acordará com sua pele ainda eriçada a se lembrar dos suspiros da noite anterior. Lembrará dos passos que fez, dos frêmitos que sentiu, dos afagos que recebeu e retribuiu. Ela chorará baixinho ao recordar de seu sonho feliz, que partilhou conjuntamente, por uma noite, com seu amado. Retornará ao isolamento de outrora com os ecos da sublime fantasia frescos na memória.

13 comentários:

aliadine.lidi disse...

Lú, de coração...
amei o novo texto...bem descrito e interessante.Gostei mesmo..."pena que era um sonho"...rs

beijos querido

Mirian disse...

Fica até dificil comentar algo tão belo e de tanto talento.

Ao ler... é possíve fazer uma viagem, vivenciar o sentido de cada palavra, de cada ponto, de cada detalhe...


Só um grande escritor produz escritos perfeitos assim, explorando a realidade em meio a fantasia!!!!!

Parabéns!

*ana.amélia.rosa* disse...

Eu já disse isso pra vc, mas vou repetir aqui. Seu estilo, suas escolhas lexicais, a tecitura desse texto é surpreendente... Parabéns Luigi! =)

Beeijos,

Ana Amélia.

Adriana disse...

Belo texto, Lu!

O início é bem expressivo, nos faz sentir exatamente o que a personagem sente. Um tanto romântico e "caliente" também. E o final deixa um gosto de quero mais. Perfeito!

Kisses!

Lukaz! disse...

O que dizer do parceiro musical Luigi.... tem a sensibilidade da expressão escrita, como um escultor que talha sua obra, atentando-se aos detalhes.

Parabéns meu caro!

Anônimo disse...

luu..divino. me fez viajar em cada palavra. lindíssimo ! ;*

nati carol. (:

Ana Luiza Verzola disse...

Bem descrito, vocabulário impecável. Visita que valeu a pena, e será sempre retribuída!

Camila Peliçon disse...

Parabéns, sempre impecável na escrita literária...
Parabéns pela história, que nos faz refletir, identificar trechos de nossas vidas...
Duas pessoas que se amaram infinitamente por um instante, mas por algum motivo ao acordarem temeram a realidade.
Um amor saciado por um instante, e lembrado pelo resto da vida em seu infinito de solidão...
"Uma ira tomará conta dos sentidos dele..."
"Ela chorará baixinho ao recordar de seu sonho feliz..."
Acordaram em uma MANHÃ DOLOSA, pois a realidade não os permitem amar, apenas saciar seus anceios momentânios...

Sua descrição é incrível, Adoro seus contos...
Parabéns!!!

Stella Tavares disse...

Uma bela descrição do amor. De um sentir tão exato, quase palpável,mas sem se apartar da poesia. Lindíssima narrativa! Adorei!!!

Laís Carla disse...

Parabéns Luis ! Meu companheiro de música, de escrita e de bar !!! HAUAHUAHAUAHUAAUHAUAHAUAUH

Adoro sua forma de escrever e todos os seus contos, me emocionam ou me trazem algo com o qual me identifico e esse, não foi diferente !

Continue assim, meu amigo, encha o mundo com suas palavras !!

Beijosss

Xó disse...

Extraordinário. O cuidado com as palavras é realmente inquestionável. Cheiro do poder do Espirito Santo.

Filho do Truvão disse...

O sonho e o deleite. O gozo e a quimera. A relação através da aura mística do encanto. O sentimento inexplicável. A dor da utopia! O amor é assim: é doce mas é amargo!

Luigi Ricciardi disse...

Obrigado por todos os comentários e pelo carinho!