15 fevereiro, 2010

Conto de Última Hora


Conto de Última Hora

- Nossa que água fria, esse negócio não esquenta não?

- O chuveiro não ta bom, tem que comprar outro. Só vai esquentar isso aí mesmo.

Uma droga, pensou ele, lá vai o resto do salário. Lembrou da Ritinha, não soube a razão. Mas lembrou dela. Com ela teria casado, até se arrependera um pouco de acabar com tudo. Foi necessário, mas com ela casaria.

- Porque diabos to lembrando de tanta coisa hoje?

- Falou com a gente filho?

- Não, mãe, to pensando alto.

Sentiu vontade de descer a ladeira nos carrinhos de rolemã. Era dedo furado ou unha quebrada a cada descida. O peito deu uma cutucada e ele sentiu uma tontura.

- Deve ser a cerveja.

- Oi, filho?

- Nada não, pai.

- Ficamos felizes que você tenha voltado, viu, ficamos mesmo.

Voltara por obrigação. Tinha de visitá-los às vezes. Amava-os, mas queria viver longe.

- Nossa... faz tempo que não vou pro cinema. Será que ta passando aquele filme de morte misteriosa? Tipo aquele que eu via escondido na casa do Celso. Ah, não. Aqueles eram pornôs.

- Você disse alguma coisa, Cainã?

- Que encheção.... afff

- Hã?

Ele detestava ir aos enterros. Lembrou do tio morto, fora no seu velório quando criança. Lá, beijou a prima atrás da capela. Primeira experiência.

Outra tontura, quase que perdeu os sentidos. Segurou na cortina e bateu a mão no chão. O peito doeu forte, suou de alívio por não ter caído.

- Você ouviu esse barulho, Joaquim?

- Ouvi. Filho, você ta bem?

- To, pai. Foi só um escorregão.

- Cainã, ta tudo bem?

- Ta surdo, pai? Abaixa essa televisão que você escuta bem.

Detesta conversar com os pais quando vêem vídeos engraçados na TV. Sentiu a água cada vez mais gelada, parecia entrar nas costelas.

- Mãe, o treco aqui ta cada vez pior. Pede pro Osvaldo pendurar a conta lá e pega um chuveiro novo.

- Filho, ta tudo bem?

- Ah, que se dane. Povo surdo do caramba!

E o telefone tocando...

- Alguém ai vai atender ou não?

- Cainã, você não vai sair?

- Já vou, atende esse telefone aí. A propósito, ta ventando aí? Ta muito frio aqui dentro. Pelo jeito vou ter que tomar o banho todo nessa merda aqui mesmo.

Voou o tijolo e a multidão desviou. Bem na sua testa. Pego desprevenido. E o sangue a escorrer. Pensou que seria aquele dia. Que fosse desfalecer. Que teria chegado o momento. Lembrou de quando tirou a virgindade da Amélia. Como ela chorou, e sangue.

- Como foi bom aquele dia.

- Cainã?

Olhou pela janela e viu o céu de um vermelho esmaecido.

- Mãe, o que tá acontecendo lá fora? É frio ou chuva?

- Filho?

O frio foi aumentando. A tontura também, continuou culpando a cerveja. Não queria mais voltar ao hospital. Lá era mais frio que a casa.

- Cainã, eu vou arrombar.

- Ta louco, pai, pra quê?

Ouviu-se um estrondo e seus pais entraram.

- Mas o que isso? Por qual razão vocês quebraram essa porta?

Mas seus pais não olhavam em direção ao chuveiro. Olhavam fixamente o chão no centro do banheiro, pasmos com o que viam. Correram e agacharam aos prantos. Cainã então olhou em volta e viu muito sangue, e viu seus pais debruçados sobre seu próprio corpo, que jazia no chão frio.

3 comentários:

ludmille disse...

Muito bom, você é realmente brilhante meu caro!

Daiane disse...

Excelente! Final surpreendente. Parabéns.

Guilherme Ferreira disse...

Uau! Me surpreendi com o final mesmo. Gostei mt desse.