07 maio, 2010

HEARTACHE


Essas intermitências blogueiras me incomodam. Hiatos são bons, às vezes para crescimento. Mas realmente o mal desse mundo moderno é essa agitação frenética do vai e vem do cotidiano. E tornamos isso natural, o que na verdade é um construto. Contudo, essa falta de tempo que me impede de escrever e/ou postar frequentemente é algo de valia, frutos que colherei no futuro.
Depois de quase três meses, voilà le nouveau récit....
Au revoir et merci à tous!



HEARTACHE
(Ao som de Too Much Love Will Kill You do Queen)

Olhando por dentre o cristal, a falsa transparência da vida, sente o turbilhão de imagens e lembranças a contornar-lhe os sentidos. Sentada, alisando freneticamente a base da taça de onde sorve a bebida, procura apaziguar as guerrilhas eternas de seus espelhos interiores. Já à meia taça, um jovem casal passa à sua direita, esbanjando vivacidade nas arestas do tempo. O amor segue o rumo, contrariando por um breve momento a finitude das coisas. Ledo engano de todos que levam ainda a esperança do eterno. Constatação.
Após outro gole, foi ao tempo em que sentada à mesma mesa ainda segurava vários fios da vida presos entre seus dedos. Ele estava à sua frente, já com as rugas que tanto lhe desfiguravam a juventude interna, mas com o mesmo romantismo do primeiro olhar. Os cabelos já escassos e brancos, o olhar fatigado, os cortes vermelhos sobre o rosto. Tudo anunciava a finitude. Sabiam que era a última noite em que se veriam dessa forma, a morte já os esperava do lado de lá da porta. Ininganável.
Rápida e veloz esperou poucos dias para agir depois de instalada. O corpo dele já não respondia e as cirurgias cortavam suas esperanças. Juntos morreram rápido, ele fisicamente, ela em sua angústia. E a chuva, e a lama, e o fim. Mas o via nitidamente, à sua frente, suas piscadelas de cantadas, o emanar de sua eterna suavidade. Inclinou-se para beijá-lo, talvez o último toque, teria o mesmo sabor de outrora? E no momento do toque oscular, como a bruma, ele se desfez em fumaças de lembranças. Foi acordada pela triste canção que tocavam no bar. Timidamente deixou seu corpo voltar à cadeira, inércia da tristeza. O garçom já vinha enchendo outra taça de vinho, alucinógeno de quadros surreais. E as rodas, girando. Fantasia.
Algo lhe pedia que voltasse àquele lugar, tempos após. Só deixava a pequena proteção de seu lar pelas necessidades de sobrevivência. Quando podia, fechava-se em seu leito de saudades, segurando fortemente as imagens dele, para que não se apagassem, dividida entre o amante e o amor que ficou. Mas naquele dia cedeu aos impulsos e saiu. No caminho, andando com dificuldade para carregar todos os pedaços da mulher a qual já fora, via as paisagens todas transformadas, todas modificadas em relação à época que passava por aquelas veredas. Letreiros de fast-food, de automóveis e tantos outros. A morte nos cerca, pensou. Se não há guerras, há um carro que passa no momento que se pisa na rua. O industrializado facilitou a morte, a mais natural das coisas. Pensou no matadouro que vira quando criança, o boi com os olhos virados e a língua de fora. No fundo todos terminamos dessa forma, pagando sempre pelo que fazemos, e pelo que não fazemos. Clichezismo.
Quis comer, e deram o que pediu. E os talheres brilhantes, e os cristais de titânio. E o latejar do peito, e o latejar do peito. De que serve tudo? Para quê serve tudo? Se tudo se transforma em uma casa velha, cheia de folhas, varridas pelo vento do norte. Uma casa cheia de ecos e fantasmas que não reconhece a rua que passa defronte à velha porta. Deixou de lado, comer é morrer! Viver é morrer. Nunca ninguém diz essa verdade. Deixou o dinheiro e partiu, dando um toque de melancolia no garçom que a via sair pela porta afora. Abandono.
Dias depois, enquanto enchia as taças de um velho casal que se olhava como se se encontrasse pela primeira vez, o garçom se distraiu ao ouvir o pianista do local tocar uma sonata triste. Era Adágio, ele logo reconheceu, mas era a primeira vez que a via tocada dessa forma. Notas tristes, compasso alegre. A música cresceu e se transformou. E o garçom deixou-se levar por aquelas notas, dando-lhe sensações de verde e céu. Só voltou a si quando percebeu que derramara vinho na mesa, a taça transbordara, correndo como um rio para a borda, caindo ao chão feito cachoeira. Olhou para o casal que sorria, sem perceber o fato, que no momento levantava para dançar ao som do violino, que já acompanhava o piano. Rejuvenesceram irradiantes de canções belas, bailando a vida sobre pétalas de flores. Já eram totalmente jovens, despidos de dores. E dança seguiu, seguiu, anos a fio, a espalhar seus frutos aos passantes, trazendo luz do sol por entre a janela noturna. E ao som da arte, envelheceram novamente, divertindo-se crianças. A tudo o garçom olhava sem perder detalhes. Viu o casal se abraçando ao terminar da música, voltando para a mesa e desaparecendo sob fumaças de lembranças.

5 comentários:

ludmille disse...

como sempre.. inspirador..meus parabéns, muito bom!!!

M. F. Delos disse...

Como já disse a minha amiga Lud, meus parabéns. Bastante inspirador mesmo. De uma subjetividade intensa e muitíssimo bem construída. Curti cada jogo de palavras, a sinestesia, as metáforas todas... Parágrafo por parágrafo. Escrita bem articulada, eloquente, cativante.

Excelentes, tanto o texto quanto o próprio blog de modo geral.

Mais uma vez, parabéns. Abraço.

Ana Amélia disse...

Ok, eu li ao som de "Too much love will kill you"... dá um toque a mais.. especial. =) Vou começar pelo meu trecho preferido: "o fundo todos terminamos dessa forma, pagando sempre pelo que fazemos, e pelo que não fazemos. Clichezismo." No começo, o tom é pessimista, é triste, me incomodou (o q não significa q não foi prazeroso), aí eu pensei assim: "OMG! (hehe) mas é isso mesmo... o fim existe, é triste, é doloroso" Isso acabou comigo por alguns segundos!! Mas daí, o encerramento do texto é majestoso... "E dança seguiu, seguiu, anos a fio, a espalhar seus frutos aos passantes, trazendo luz do sol por entre a janela noturna. E ao som da arte, envelheceram novamente, divertindo-se crianças." Aqui a luz verde da esperança adormecida acendeu! :) Agora, fzndo uma metarreflexão (se é q isso é possível! hehe) Eu sempre me surpreendo com os comentários q faço sobre seus textos... pq são leituras q mexem mto comigo e daí eu falo o q vem na cabeça... é mto legal, pq é mto espontâneo e sincero (e às vezes puro besteirol!). Obrigada por partilhar comigo seu talento! E obrigada por esse comentários não ter número máximo de caracteres! kkkk =) Bjoo!

Daiane disse...

Hehehe o comentário da Ana já disse tudo possível de ser dito. O texto é maravilhoso, envolvente. Ao ler degustamos cada palavra, incrível!!! É como se sentíssemos o sentimento da personagem, o qual nos afeta mt tbm, pq nos faz pensar sobre a própria vida: vale a pena? Penso sobre isso a cada dia, vc sabe hehe Já conversamos muito sobre isso. Enfim, parabéns Luigi, continue arrumando tempo para escrever e nos surpreender. Mas ainda não deixo de ser fã de BRIGADEIRO. ;)

Rodrigo Sampaio disse...

E o que é a morte senão a ausência do amor? E o que é a vida com a morte da esperança? Triste mas revelador. Muito bom o conto.