13 fevereiro, 2011

CINEMA - IRREVERSÍVEL

           A sétima arte é talvez hoje uma das artes de maior alcance. Chega às pessoas com facilidade por meio da mídia televisiva e internet. Contudo, muitos filmes que exploram os limites do pensamento e da própria arte não chegam até a maior parte das pessoas. Gostaria de compartilhar, aqui no blog a partir de hoje, uma série de comentários de filmes que julgo interessantes. Fiquem à vontade para quaisquer comentários. Abraços!


IRREVERSÍVEL 
de Gaspar Noé


            O melhor filme francês que já vi, ao menos é o mais forte e intenso. Irreversível é uma história contada de trás para frente, com algumas cenas violentas e angustiantes, que nos coloca uma questão: o que na verdade é irreversível?
           Os créditos aparecem no início (apesar de não ser novidade por já ter sido utilizado dois anos antes em Amnésia), mostrando que o filme pode ter alguma coisa de diferente. E realmente, começa pelo fim. O seu início-fim é uma cena com dois senhores conversando sobre a vida. Um deles diz “O tempo destrói tudo”, e então começam a filosofar sobre o comportamento dos seres humanos. Logo ouvimos sirenes e gritos, vem de um reduto gay que fica próximo ao lugar onde os dois homens conversam.
            Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel) estão no tal reduto gay, procurando um homem conhecido como TNA. Agem com certa violência com os freqüentadores do local, parecem estar descontrolados e desesperados para encontrar o tal homem. As cenas nesse reduto são agressivas. Primeiro pelas cenas de sexo sadomasoquistas, que, se não são explícitas, são quase isso, com pessoas transando e se masturbando. Marcus e Pierre se desentendem com outros dois homens, causando uma das cenas mais violentas do filme: o espancamento até à morte de um dos homens por um outro que batia nele com um extintor de incêndio. Outra cena que surpreende pela sua crueza é o estupro e o espancamento de uma mulher em um túnel da cidade.
A fotografia prima pelo escuro, com cenas à meia-luz, em sua maioria. Mas um dos pontos mais interessantes do filme é o movimento da câmera, que nunca é estanque. Vai e vem, balança o tempo todo, praticamente gira 180 graus, como se, ironicamente, quisesse reverter alguma coisa. Na cena da briga no reduto gay, ela chega a ser nauseante, ajudada pelo psicodelismo da trilha sonora, que dá uma sensação de um efeito provocado por uma droga ou álcool. Afinal, a vida em si não seria uma droga consumida diariamente e que nos leva ao fim, irremediavelmente, irreversivelmente? É o que chegamos a pensar quando vemos a sucessão de cenas e de acontecimentos. Há coisas que nos são irreversíveis, principalmente nossos atos. 
          O filme só não é perfeito porque à medida que vai se descobrindo sua trama, principalmente depois de sua metade, a narrativa passa a se tornar um tanto quanto previsível e entediante (principalmente no diálogo dentro do metrô). Apesar de violento e forte, Irreversível não é um filme exagerado. É um filme que mostra a crueza da violência nos grandes centros, a fúria que há dentro dos seres humanos e a irreversibilidade das coisas e da vida. E a última frase do filme no seu fim-início, é justamente a primeira do seu início-fim: “O tempo destrói tudo”.


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