20 fevereiro, 2015

ELEFANTE BRANCO

Conto publicado no livro Anacronismo Moderno (2011)


ELEFANTE BRANCO
 Luigi Ricciardi
Da Ida

            O lume alto tocava levemente os olhos de Abel quando seu pai, Adão, o chamava para o despertar de mais um belo dia no jardim do Éden. Abel levantou com muito custo, afinal, no dia anterior, tinha permanecido até boas horas da noite em torno da fogueira, a ouvir Deus falar e contar algumas histórias futuras. Dizia ele que teria um filho, e que ele seria o maior orgulho de toda a humanidade. Tanto Abel, quanto Caim estavam encantados com a retórica divina e curiosos para saberem o que se passaria fora de seu habitat. Contudo, os dois jovens meninos, que nesta época não passavam dos quinze anos de idade, não suportaram o peso que vinha sobre seus olhos, e acabaram adormecendo, deixando a conversa para os adultos, a saber, Adão, Eva e Deus.
            Adão precisou chamar seu filho três vezes seguidas, só assim conseguiu tirá-lo do semi-despertar matinal. Foi lavar o rosto no lago, e notou que estava mais homem. Ficou contente e sorriu para si mesmo nas águas límpidas celestes. Enrubesceu sozinho quando se lembrou da noite em que teve um sonho com mulheres. Deitado e com uma sensação de formigamento em todo o seu corpo, Abel via uma mulher sentada em cima de suas pernas a mexer seu corpo freneticamente. Na manhã seguinte, Abel acordou com um líquido espesso entre as pernas e foi correndo se lavar no rio. Não contou a história a ninguém, mas se lembra muito bem do leve sorriso que Deus lhe dirigiu horas depois ao passar por ele no campo onde as ovelhas comiam.
            Depois de tomar o desjejum com sua família, Abel se dirigiu ao manuseio das ovelhas, enquanto seu irmão Caim foi cuidar da terra para o plantio de algumas sementes. Abel era um menino até certo ponto inteligente e obediente, mas naquele dia, trabalhando debaixo do sol escaldante que castigava os jardins celestes, ele sentiu uma incontrolável vontade de conhecer outros lugares. Não conseguia parar de se lembrar das histórias contadas por Deus na noite anterior. Não se sabe se pela noite mal dormida ou por outra razão, Abel se sentia cansado, e por várias vezes durante o dia perdeu o controle de suas ovelhas. Achou, de repente, todas as coisas difíceis. Notou que para comer, ele tinha que empunhar uma adaga e matar a ovelha. Viu que, para comer as frutas, era necessário que seu irmão Caim plantasse as sementes e as regasse durante muito tempo. Sentiu certa indignação quando as gotas sudoríficas escorreram por sua face e salgaram seus olhos. Não havia jeito de abrandar os raios desse sol? Não haveria jeito de facilitar as coisas? Morava-se ao lado do criador do mundo e eles precisavam ter que passar por certas privações? De repente, viu-se largando o trabalho e indo ter com Deus.
            Chegando à região mais celeste do jardim, onde Deus habitava, Abel avistou-o de longe, e o viu recostado ao seu trono, com os olhos fechados. Devagar, Abel se aproximou e tocou seu criador no ombro:
            - Deus, o senhor está dormindo?
            Assustado, Deus dá um salto, quase deixando cair seu cajado. Esfrega bem os olhos e avista o seu preferido.
            - Olá, Abel. A noite de ontem foi longa não? Como as coisas estão na ordem acabei adormecendo um pouco. Mas me diga, o que te traz até aqui?
            - Senhor, venho lhe dizer uma coisa. Estou um pouco descontente.
            - Com o quê, meu filho?
            - As coisas são todas difíceis. Eu tenho pena dos animais que morrem, temos que empunhar uma flecha ou uma faca para tirar-lhes a vida. Para poder comer outras coisas, temos que plantar as sementes e regá-las, sem falar no sol escaldante que nos abrasa as faces todos os dias
            - Assim é que as coisas são, meu filho. O que quererias que eu fizesse?
            - Estendesse a vossa destra e facilitasse tudo.
            - As coisas funcionam diferente, Abel. O homem deve comer do fruto do seu próprio trabalho. Deve enfrentar as intempéries com seu suor e força. As facilidades trazem comodidades que não são coisas boas para o homem. O futuro o dirá.
            - A mim? Creio que até lá, Senhor, já não terei olhos para ver.
            - A cada um, dou-lhe o tempo necessário de vida, confie em mim, Abel, não precisará de tais comodidades.
            Abel silenciou por alguns segundos e depois fez o seu pedido:
            - Senhor, vós que tendes o poder de criação, de ver o futuro e determinar o destino das coisas e das pessoas, a vós faço um pedido: eu gostaria de ver o futuro, este com todas as facilidades e comodidades, as quais a mim me foram privadas por eu ter nascido em tempos longínquos na história da humanidade. Só assim, Senhor, como vós dizeis, poderei eu dar valor a essas dificuldades que enfrentamos na lida diária, só conhecendo essa tal época em que as coisas não são como aqui.
            Deus admirou a inteligência do menino, fitou-o por alguns segundos, e, como tinha um bom coração, deu a sentença:
            - Está bem, meu filho. Irás e ficarás por seis dias. Assim como eu criei o meu nesse período, tu criarás o teu próprio mundo e tua própria opinião. Mas voltará mais velho, esses seis dias serão como anos, voltarás homem. E dou-te o poder de escolha. Queres ir à época em que meu filho viverá entre os homens, ou queres ir à época que precede o juízo final?
            - Não sei ao certo, Senhor. Os números me confundem, e não conheço da história vindoura. Creio que por volta de dois mil anos após vosso filho ter descido à terra.
            - Boa escolha, meu filho. Irás conhecer exatamente o que queres.
            Deus, com a sua destra, tocou as mãos do garoto, e com um sopro na face, mandou-o para o futuro desejado.
            Ali perto, podia-se ver um certo movimento, era Caim, que se escondia atrás das árvores e escutar a conversa entre Deus e seu irmão. Sentiu-se irado por não ter procurado Deus antes, porque desejava lhe fazer o mesmo pedido.


Da Vinda

            Seis dias mais tarde, enquanto Adão cuidava das ovelhas, Abel apareceu por trás das árvores limítrofes do jardim. Adão deixou cair o cajado, também o seu queixo, ao ver o filho, homem feito, regressando de sua viagem futurística. Foi em sua direção para dar-lhe um tenro abraço de retorno, mas Eva, mãe saudosa, foi mais rápida, correu à frente de Adão, saltou ao pescoço do filho enchendo-lhe de beijos. Deus, que por ali passava no momento, deixou escapar uma alta gargalhada, dessas que fazemos nos momentos mais felizes da vida, e foi ter com a família que recebia seu filho pródigo. Cansado, Abel não quis conversar sobre o que viu e viveu. Quis banhar-se no rio e repousar um pouco. Ficou acordado que, à noite, iriam se encontrar à volta da fogueira, para confraternizarem, e para que Abel pudesse contar os caminhos de sua jornada. Caim não apareceu na recepção de seu irmão, e nem apareceria para ter com os outros na ceia.
            Quando soube da partida do filho, Eva, furiosa, foi ter com Deus, para saber se, ao menos de passagem, tenha passado por sua cabeça que seria irracional uma mãe ser apartada do filho como ela fora. Olhando bem nos olhos do criador, Eva lançou-lhe a questão na qual vinha pensando no caminho. Deus que já não lhe tinha muito bem desde o episódio das maçãs, fitando-a bem, disse-lhe:
            - Mesmo sendo Deus, aprendi uma coisa com Abel: os filhos precisam conhecer o mundo para assim crescerem, precisam conhecer o mal para aceitarem fielmente o bem. E para isso precisam viver. Eis a cobra a morder-te o calcanhar, Eva. O teu e o de todas as mães.
            Quanta dor Eva sentiu ao ouvir tais palavras, mas achou-as sábias, e calou sozinha sua dor. Agora, sentada ao lado de Abel em volta da fogueira, mal pode acreditar que ele estava de volta, claro está que foram apenas seis dias, mas a dor da primeira mãe da história a ver longe seu filho era grande, ainda mais por não ter tido exemplos anteriores para comparação. Mal sabe ela que será, em breve, a primeira mãe a ter de ver o filho morrer antes de si.
            Abel tem o semblante pensativo. Está visivelmente mais maduro, mas conserva um olhar triste e distante, mesmo na companhia dos pais. Comiam alguns grãos e frutas colhidos por Adão no fim da tarde. Ele estava sorridente, assim como a mãe, mas por dentro se questionava porque Caim não estava com eles, e porque Abel estava tão compenetrado em seus pensamentos.
            Então Deus resolveu quebrar o silêncio de Abel:
            - E então, meu filho, conte-nos como foi sua visita ao futuro. O que nos traz de bom, ou o que viste que deve ser partilhado entre nós?
            - Senhor, se sabeis por que me perguntais?
            - Em verdade, conheço todos os fatos da história. Desde antes da criação do mundo até o fim dos tempos, e o que virá após isso. Todavia, há coisas que devem ser contadas por experiências humanas, por esses que vivem efetivamente a história, que sentiram as felicidades e as dores na própria pele. Sou apenas Deus, meu querido Abel, não prives teu criador dos fatos que viveste, agradaria a todos que nos contasse.
            Abel pensou fugazmente, e vagarosamente suspirou antes de começar a contar sua epopéia.
            - Tudo o que vi é diferente. À época na qual fui mandado, quase nada corresponde ao que se vive aqui, e tudo isso que vemos aqui não existirá no futuro. Acontecerão desgraças em quase todas as épocas. Vi muitas delas onde fui, e de outras tantas soube por terem me contado. É fato que, em meio às balburdias vistas nos séculos que precedem essa era a qual descrevo, pôde-se desfrutar de uma bela sombra debaixo de uma árvore centenária, que se pôde ver a singeleza de um amor espreitado pelos buracos dos muros. Mas os impiedosos atentados contra o ser humano eram constantes. Ó, Deus, matarão muitos em vosso nome, por pessoas que dirão conhecê-lo, em guerras contra outros deuses que aqui desconhecemos. Muitos foram mortos somente por não conhecê-lo, ou crerem em outro Deus que não fosse o Senhor. Outros morrerão somente porque terão uma cor de pele diferente, ou porque falarão alguma coisa incompreensível, resultado da confusão das línguas. Ou seja, ser diferente no futuro é motivo para derramamento de sangue.
            “Mas vi outras coisas que de fato me assustaram. Criarão uma ordem religiosa, que se dirá enviada por vosso filho, que levará vosso conhecimento às pessoas do mundo. Pois bem, dessa dita instituição se desmembrará uma ou duas, e delas outras tantas, infindas que já não se poderá contar. Elas recolherão doações dos fiéis com o propósito de ajudar os necessitados. Eles imporão suas insígnias com poder e construirão castelos, palácios e igrejas de ouro. Tudo em vosso nome, ó Pai.
            “Vi pessoas morrerem magras, quase descarnadas, sem alimento. Viam-se-lhe os ossos, não era muito difícil logo ver lhes as próprias entranhas. A humanidade criará uma coisa chamada dinheiro. Com ele adquirirão coisas para si, e quanto mais dinheiro, mais posse e poderes. Roubos, mortes, assassinatos, chacinas, enganos, traições, mentiras, seqüestros, todas essas são palavras que serão intensificadas ou criadas a partir da criação do dinheiro. Ele passará a dividir a atenção convosco, Senhor. A maioria não o chamará assim, mas muitos o considerarão um deus, assim como vós.
            “Conheci rios torpes, negros de sujidade, podres de consciência humana. As pessoas farão suas necessidades neles, depois beberão a água, sem contar naqueles que jogarão qualquer tipo de coisa que já não lhe sirva mais dentro das águas. Haverá epidemias, doenças inúmeras, que dizimará populações inteiras, algumas delas criadas pelo próprio homem. Terras serão disputadas e o número de guerras também será incontável. Mas o deus do futuro, o dinheiro, protegerá aqueles que o tem. Quem não o tiver irá morrer primeiro, nas guerras inventadas por aqueles que o possuem.
            “O homem se modernizará. Trocará a flecha pela bola, e as paisagens vistas da montanha por pinturas na parede. Mas o princípio será o mesmo. Ao invés de caçar para satisfazer sua fome, pagará que o façam por ele, porque ser civilizado diz ser contra a morte e o sangue. Sua própria vida lhe interessará pouco, preferirá ver através das telas psicodélicas uma casa com câmeras e pessoas que conversam sobre as relações interpessoais.
            “Os passeios pelos jardins serão démodés. Matarão os animais, as árvores, as florestas e tudo o mais que a natureza lhes deu. Criarão um trem de cores e vidros que traz a felicidade em calçados, mantas e utilidades. Inventar-se-á um aparelho que pode unir pessoas de países diferentes e que poderá trazer a comida até seu próprio lar com uma simples ligação. O homem elegerá outros homens para cuidarem de seus interesses. E esses em incontáveis vezes darão aumento a si próprio, claro está por serem os responsáveis da ordem da nação. A população aprovará tudo sorrindo para os écrans.
            “Ver-se-á a repetição maquinaria dos dias que se passam e se copiam. Haverá em todos os cantos, usinas, indústrias, empresas, fábricas, construções, sociedades que criarão, aperfeiçoarão e venderão a felicidade. Cada qual terá suas preferências, e as compras vão cada vez mais crescendo, chegando a um estágio super mecanizado de robôs inconscientes.
            “Todos os dias, beberão o cálice da amargura e farão suas ceias fartas diante dos écrans hipnotizadores das salas. O ser humano desenvolverá uma capacidade para a não comunicação. Durante a exibição dos movimentos nas telas, o ser humano será tele-apático, e mudo.
            “Por vezes ou outra, a raça humana será tomada pelo pânico. Guerras, epidemias desconhecidas e ondas gigantes ameaçarão sua existência. Desordenadamente eles correrão às igrejas pedindo perdão a vós, e prometendo serem mais caridosos se o perigo não os atingir. No fim, agradecerão por terem sua vida poupada vendo os problemas humanos pelas telas das salas mudas.
            “Mas isto que parece existir, o que se chama existência, nada mais é do que seu oposto. Esta coisa, que é uma inexistência, e que mora no mais recôndito dos seres deste tempo é sonolenta. Talvez deixar de fazer parte deste mundo tenha suas vantagens, talvez seja mais confortável encarar a eternidade nula”.
            O rapaz terminou seu relato e abaixou o olhar em direção à fogueira, olhando para qualquer lugar além dela. Os pais de Abel estavam boquiabertos com os relatos do filho, e não sabiam se ficavam orgulhosos pela sua sabedoria, ou desorientados com os relatos futurísticos. Mesmo sem entender boa parte dos termos utilizados pelo filho, sentiram certo pavor pelas experiências de Abel.
            Deus, que deixou seu pupilo contar-lhe tudo sem interromper em nenhum momento, um tanto quanto tenso, mesmo sabendo de antemão todos os fatos relatados, resolveu perguntar a Abel:
            - E você, Abel, o que acha de tudo isso?
            “No início, quando vós vistes o mundo sem forma, no tempo em que o espírito pairava sobre as águas inabitadas, creio que vós não imagináveis a que ponto tudo o que criaste pudesse se transformar no mundo que se enfrentará amanhã. Quando o Senhor criou e viu que o criastes era bom, mal sabíeis do erro que cometereis pondo a mão sobre o barro para criar a isso que se chama homem, e que no futuro não terá nem o direito de assim se chamar. Tudo isso não passa de uma fantasia. Porque o que foi prometido está tatuado de elefante branco, mas é elefante morto. No futuro, descobri que Tomé era o mais santo dos apóstolos.
            Dizendo isso, saiu da companhia deles e foi deitar-se. Sem saber o que fazer, seus pais fitaram Deus que se levantou bem devagar, e foi saindo sem se despedir. Antes de desaparecer por completo, ainda puderam ouvi-lo suspirar e dizer:
            - Ainda bem que ele não escolheu o ano 3000.
            Ali bem perto, por trás das árvores, bem escondido, estava Caim, que ouviu todo o relato de seu irmão. Seu ódio por ele aumentou ainda mais após ouvir seu discurso, queria ter sido ele a ver todas as artimanhas do futuro. Sendo ele o primogênito, quereria ter tal privilégio que lhe foi negado. Portando uma adaga, só esperava que seus pais fossem deitar e que Deus fosse dormir em seu trono adornado para que pudesse visitar Abel e fazer o que há algum tempo lhe passava pela cabeça.


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