07 agosto, 2015

Apenas um Conto Besta



            Ele ainda não entendia o que estava fazendo ali. Ela o tinha chamado, provavelmente por educação, e ele aceitara. E agora estavam ali, frente a frente, depois de tanto tempo, depois de tudo, muito além da história. Que estranho impulso nos leva à imbecilidade? É o que ele se perguntava ininterruptamente, ali diante daquele emaranhado de intrigas construídas com sabe-se lá que caneta, em roto papel. Esse medo que o impedia, essa trava que lhe segurava no fundo era uma corrente necessária, pois a transgressão levou àquela cena que de hilária tinha pouco. Ele em um canto do sofá, ela no sofá do outro lado, protegida pela mesa de centro. E o café esfriando, única coisa que não havia sido congelada.
            Ela tentou esconder o desconforto quando abriu a porta e topou com a figura esburacada, embora intacta aparentemente. Ela tentou recrutar qualquer mentira que a sua mente produzia incessantemente todos os dias, mas não conseguiu apanhar nenhuma, e fez um gesto para que ele entrasse.  Com os olhos disse, entre, fique à vontade, não repare a bagunça, vamos para a sala, você conhece o caminho, vou só desligar o forno pro assado não queimar. E enquanto sentavam no sofá da modesta sala com mobília barata, ele entendeu o pérfido convite, conversa vã para quem às vezes não tem o que dizer. Era o som surdo a existência que arranhava a pele.
            Cruzaram o olhar poucas vezes, na timidez de serem quem são. Ela resolveu quebrar o gelo buscando mais café. Mas no caminho lembrou-se do conhaque, e eles então acrescentaram um pouco de álcool à bebida quente, mesmo com o calor senegalês a lhes castigar. Aos poucos o álcool foi entrando no sangue. E começamos a rir, sim, começamos, em primeira pessoa, pois aquele cara amuado no canto era eu, tentando falar com a única leitora da minha obra, tentando entender o que ela vira em mim durante tanto tempo. Mas ainda era o silêncio, o riso era o silêncio, e as palavras não vinham. No fundo, as palavras nunca vêm, e o silêncio é sempre o mundo mais barulhento possível. Ríamos em silêncio.
             Ele era eu, protagonista de terceira para primeira pessoa. Ou seria esse silêncio o protagonista? A mudez talvez fosse a que mais agisse. A mulher à minha frente era a única leitora do que eu escrevia, que lia sobre meu ombro a tinta ainda meio molhada no papel quando morávamos juntos há alguns anos. Ela sempre elogiava, acabava por me dar um beijo e me distrair. Daí me chamava para jantar. No início achei mesmo que gostasse, depois entendi a comiseração. Aos poucos a obesidade foi me dando um tom róseo bebê nas bochechas. Fiquei pastelão caricaturado, e quando ela me olhava era somente para se certificar de que era a mesma pessoa, embora não reconhecesse aquele rótulo novo e mal elaborado. A comiseração aumentara após tudo.
            O riso foi o único ato intruso naquele silencio inquieto e resmungão. Ela resolveu ir ao banheiro. Lembrei que, para ela, assear era uma das coisas mais importantes do mundo, levava horas e eu ficava brochando na cama. Quando ela voltava, eu já estava enrolado nos lençóis. E lá ela foi, nem sabia se ela voltaria. E eu percorri-me nas paredes daquela sala que tanto um dia me fora familiar. Não havia nada mais de mim ali para percorrer com os olhos. Eu já me fora dali a muito tempo. As coisas nesta casa já não precisam mais de mim.
            Não reconheço esses quadros, nem os bibelôs da raque. Logo à frente, percebo Chaplin que me observa pelo cartaz, inequívoco na sua contemplação, no canto da parede menor. Está quase de perfil, finge que não me vê, mas é analista e me enxerga por completo. Mas finge me ignorar, na sua desfalecência, na sua descorporificação, como se o tempo não houvesse. Ele critica minha existência não dizendo nada. É vaidoso, e sua fogueira é alimentada pelo silêncio. E é assim que ele me grita à alma, pedra caída sobre a tampa, oco de caixão, o corpo não existe, já nasceu se decompondo. Retribuo fingindo a sua não existência. Folheio-me, e a página virada me açucena. Sorvo o café.
            Transporte para esferas detrás das paredes mal feitas. As janelas é que são pessoas, elas estão ali, fotografam o que deve ser fotografado. O ser humano não vê. Enxerga mas não vê. No fundo não precisaria de olhos. Meu ideal é ser sopro. Entendo que o ser humano é mero detalhe, e como as relações pessoais são tão pequenas ao tamanho do universo. Assim vejo nossa desimportância no todo. Mesmo o maior sucesso um dia beijará a terra, e eu, que disso não provei, estarei ao lado. No fim iguais. Ser humano é pouco. É ser egoísta. O homem só deixará de ser apenas um fato na história do mundo o dia que parar de inventar coisas para si próprio, no dia que suas invenções transcenderem sua raça. Aí sim, nesse dia, é que o homem será qualquer coisa de insubstituível. Por enquanto juntou algumas informações para a sobrevivência e transmissão do conhecimento, nada mais. E se ajudou a outrem, foi pelo próprio ego.
            Mas para algum lugar hemos de ir. O que seremos no além corpo, deus meu, qualquer coisa meu? Fosse como fosse, gostaria que nos tornássemos instâncias descarnalizadas, transeuntes no tempo, catalogando imagens, interpenetrando as estantes das coisas, folheando as páginas dos fatos, sobrevoando pessoas e conceitos, vendo a história, assim, bem grande e amiúde, sendo o voyeur de Gaia. O álcool já me distrai dela. Tento ler, o seu asseio parece eterno, como que se quisesse tirar a si mesmo do de dentro. Ouço barulho, talvez ela esteja voltando. Tento me refazer, mas a poesia já me enraizou. E me desexteriorizo. Quando ela voltar, já não serei mais eu, quando ela voltar, serei mais silencioso que o silêncio.
            Já me deu vontade largar essa caneta, e jogar na lixeira toda essa papelada. Quem sabe eu posso lhe passar por debaixo da porta do banheiro pra que ela leia. Ela virá e eu direi que isso tudo aqui é um conto, umas reflexões de pós-vinho barato que tomei antes de vir pra cá, onde o existencialismo não é nada mais do que mau humor incontido. Vou gritar para ela sair dali, vir aqui pra gente se entorpecer de alguma coisa ou dar umas risadas. Dizer para ela que ela é uma personagem, para ela parar de representar e ser gente, e vir aqui me colar à boca o gosto do corpo dela recém lavado. Mas se ela não for minha personagem o que ela será? Ela está lá? Ela é inventada ou vive por si própria agora que eu a abandonei no limbo da narrativa? Se eu bater na porta ela responderá?

            A porta se abre e me desconfunde. Ela vem seminua. E me sorri. Já vive e não precisa da minha literatura. Quando a criei, o conto parecia bom, mas no fim foi só um conto besta, com uma personagem que abandona seu criador. A criatura é viva, não precisa de deuses. E ela já vive sem mim, mas me quer. E lá vem ela ser meu clichê, ser minha pieguice, furar o silêncio com gemidos, cruzar a terra sem sair do quarto. E me fazer gente, que essa coisa de escritor depressivo só dura fora do sexo. 

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