11 outubro, 2017

Curso de escrita criativa




Você quer ser escritor? A escrita criativa pode facilitar o caminho.
A maioria dos escritores de renome passaram por cursos de escrita criativa.
A escrita criativa pode ajudar também a se expressar melhor, por isso também serve para aqueles que não querem necessariamente adentrar a carreira de escritor.
O curso contará com seis encontros.
Trabalharei exercícios de personagens, foco narrativo, narrador, tempo, criatividade, entre outros.
O custo é de 200 reais por pessoa que pode ser dividido em duas vezes.
Haverá produções dentro das aulas e também desafios propostos como exercícios para casa. Faremos também leitura de textos clássicos e contemporâneos.
Tire os rabiscos da gaveta e venha fazer as aulas!

10 outubro, 2017

DEGENERADO

Texto meu que saiu recentemente no O Diário de Maringá

/http://digital.odiario.com/colunas/noticia/2416363/degenerado/

ANDRÉA ZAMORANO EM LONDRINA

Conversei com a Luso-brasileira Andréa Zamorano sobre seu ótimo livro "A casa das Rosas".

VOU DAR UM CURSO DE ESCRITA CRIATIVA


ENCONTRO COM MIGUEL SANCHES NETO

No dia 04 de novembro de 2017, bati um papo bem bacana com o professor e escritor Miguel Sanches Neto, na abertura do III Encontro em torno da Escrita.

18 março, 2016

GOING DOWN





GOING DOWN
 Luigi Ricciardi
Você sabe que não posso beber cerveja
E ouvir Elvis Presley
Fico feliz e triste ao mesmo tempo
Entro nesse turbilhão que eu mesmo crio
Viro a lamparina quando não temos energia
Aquela neblina seca nos invernos sem aquecedor
E me sinto esculpido
Pelas entranhas da terra
Acabo acreditando que sou o futuro prêmio Nobel
Que suspendo a morte
Pelo menos por uns minutos
Creio ser um garoto de Liverpool
No auge do experimentalismo
Musical, literário, drogal
Fico doido pra beijar as dobrinhas
Da tua virilha, das tuas axilas
Oh, Love me tender, Love me sweet
Assim tiro o mundo de dentro de mim
Assim tenho um parto orgásmico
E fodo com os buracos negros
E o espaço sideral
E entro pro lado negro da força
De repente já quero uma benzedrina
Abandono o Elvis e os Beatles
Quero ouvir um jazz bebop
Aquela batida mágica
Tomando vodka barata
Vinho barato pra dar um barato
E já começo a falar de Nietzsche
E de todas as experiências possíveis
Que nossos cérebros podem registrar
E os conectomas que tenho
Me fazem imaginar a vida dando cambalhotas
Nas estradas com a linha puramente branca
Nas cervejas infinitas
No teu cu rosado
Vou sendo içado, erguido,
Excitado, de pau duro para o mundo
De coração aberto para a loucura
A demência é minha mãe agora
E de repente já estou na estratosfera
Da terceira, quarta, quinta dimensão
Com negras americanas
Fazendo coro a Hit the Road, Jack
Com solos de guitarra do Slash
Eu e meus pés descalços ali estão:
Retocando as divisões etéreas das coisas
Redefinindo as ordens e prioridades
Remetendo a tua bunda
Que é o segredo do universo
Entendo que a vida é muito mais vida assim
Do que na sobriedade massacrante
Do que nas merdas que a gente se enrola
Pra dizer que é alguém responsável e direito
O mundo é uma matrix sem volta
E a arte é que me leva pra vida de verdade
Que me livra dessa merda comezinha
E aí minha barba se alonga ao infinito
Aos confins da terra
E se enrola em você, coisa doida,
Pra dizer que gosto de ouvir teu gemido
Em si bemol menor
E a culpa de tudo isso é sua
Porque me engoliu quando não deveria
Porque me abriu os olhos
Chupando meus dedos
Me obrigando a te lamber os pelos
A fumar teus grandes lábios
A esquecer que sou mortal
E que virarei osso e depois pó do pó
Apenas Dust in the Wind
Tire daqui essa cerveja
Antes que eu comece a compor
Canções bregas com acordes fáceis
Dó, Fá e sol maiores
Com no máximo um mi menor
Você é o meu demônio das onze horas
Que possui minha esperança tola
E brinca de papéis
Venha deitar comigo e me dar uns tabefes
Sou um bêbado gordo incorrigível
Leia as minhas mãos
E diga que serei o gênio do século
Entre as tuas coxas brancas
Nas tuas estrias e celulites
Cale-me a boca com um beijo cuspido
E sente no meu cetro
Que quero jorrar pelas sarjetas
De Manhattan
Que quero virar aquela poça suja
Pra entender enfim o que vim fazer aqui
Ou pelo menos pra inventar uma razão
Tire a roupa e entre no lago
Como num clipe do Aerosmith
E me dê carona para Marte
Porque lá o ar é rarefeito
E se eu estiver parando
Você me dá um beijo louco
E pulo fora.
Venha logo
Que essa bebedeira precisa passar
Que logo eu quero dormir.

17 março, 2016

DINAMENE E O MUNDO TRANSVIADO





Hoje, mais de cinco milhões de pessoas vão acordar querendo mudar de emprego. Outras setenta e nove mil vão querer o divórcio. Três milhões quatrocentos e doze mil querem ficar famosas. Algumas centenas de milhares continuarão eternamente sonhando com a sua casa própria. E eu só querendo uma tarde de folga para ir ao piquenique. Olhar aquela calcinha de bolinhas pelo vão da saia colorida. Nós nos beijaríamos no parque e se ela não quisesse me acompanhar até em casa, eu me despediria tranquilo e seguiria meu caminho, voltando pra casa e batendo uma punheta calma, como quem se esquece do mundo.
Mas, Dinamene não deixa mais seus tênis vermelhos sobre os meus encardidos. Dinamene não reza mais um terço todos os dias pra eu chegar bem do trabalho. Dinamene se afogou em si mesma. Dinamene jogou-se na correnteza. Seus olhos não repuxam mais, descansam dessa luta que parecia eterna. Sua vagina invertida voltou ao lugar de origem. Seus dentes do juízo não gritam como antes.  Dinamene cozinhava muito bem. Nunca mais comerei seu bife a Camões.
        Quando Dinamene suspirou fugazmente pela última vez, Pedro Alquilar gozava freneticamente com travestis embaixo de um moitel no sul da Espanha. Alquilar é banqueiro e nunca revelou a ninguém seu desejo de vestir meias longas e cor-de-rosa e cantar “I Will Survive” com o vibrador, que tinha encomendado pela loja virtual e que chegou à sua casa com toda da discrição possível, fazendo as vezes de microfone.
        No dia em que eu conheci Dinamene, Yan Massum tirou folga do seu trabalho, algo raro de acontecer. Foi ao cinema comendo um tablete de chocolate. Yan Massum gostava de chocolate. Trabalhava doze horas por dia numa indústria de bicicletas no Japão. Morreu aos 29 anos, assassinado pelo marido da vizinha, com quem ele tinha um caso há cinco meses. Ela tinha sido sua única mulher. Antes dela, Massum era virgem.
Quando a mãe de Dinamene perdeu a virgindade, e, consequentemente, engravidou dela, um italiano se escondia por entre arvoredos no sul da bota. Nunca voltaria a ver a sua terra. Giuseppe Firenzio foi pra América do Sul. Nunca gostou de espaguetes apesar da origem. Fugiu da guerra por ajuda de um primo. Trabalhou três anos na Argentina para uma montadora francesa. Morreu atropelado na Avenida Nove de Julho em 1952.
Quando eu despi Dinamene pela primeira vez, José Oliveira era internado no Rio de Janeiro.  Brasileiro e filho de portugueses, sempre gostou de ler as histórias sobre Vasco da Gama. Adotou o time no Brasil. Morreu de infarto, quando o time caiu pra segunda divisão, aos oitenta e dois anos de idade.
Naquele tempo em que eu vagabundeava nas coxas de Dinamene, Anna Kolonovic tinha seu sexto aborto espontâneo. Casou com um viúvo que tinha seis filhos de outro casamento. Aceitou-os como se fossem seus. Anna Kolonovic trabalhou assiduamente para a União Soviética durante a segunda guerra mundial fabricando bombas. Passou o resto da vida cuidando dos filhos, netos e bisnetos. Morreu aos cento e um anos faz algumas horas.
        Essa gente tinha um céu interno, essa gente tinha o peito farto. Dinamene também tinha. Era mortal e eu não percebera. Pensei que ela fosse personagem minha e que eu pudesse lhe dar vida quando eu quisesse. Dinamene nunca foi criação minha, ela existiu. Escorreu entre os meus dedos em um dia chuvoso. É que eu sempre pensei em Dinamene, antes mesmo de a gente existir.
        Quando Napoleão assumiu o poder, eu já queria Dinamene. Quando Colombo descobriu a América, eu já conhecia Dinamene na minha mente. Quando Platão inventou o mito da caverna, eu já conseguia olhar pra fora da minha caverna e ver Dinamene no portão. Quando Pedro parou de pescar para seguir Jesus, eu já tinha ciência da futura existência de Dinamene.
        Hoje eu acordei com vontade de Dinamene, de lhe dedicar um poema pra apaziguar a culpa do meu peito. Faço mea culpa por deixar Dinamene se afogar em sua loucura. Não lhe prestei devida atenção, quis salvar sempre os textos que escrevia. O barco foi virando, e Dinamene foi embora muito cedo.
        Eu me lembro muito bem daquela pinta meio Marylin Monroe. Daquelas coxas envoltas num lençol branco. Eu pinto com os dedos da memória aquela tinta grossa, os excessos de contornos amarelos e tintas verdes, vermelhas, pretas à la Van Gogh da caricata existência de Dinamene.
        Quando eu falo dela, o tempo se desconecta, não tem cronologia que resista à memória de Dinamene. O mundo é meio às avessas sem a presença dela. Ela era a ordem e a desordem, a tranqüilidade e o caos. Dinamene era o equilíbrio do mundo. Agora o mundo é transviado. Se o mundo soubesse que uma Dinamene já passou por aqui talvez vivêssemos sem guerra. Dinamene é minha pieguice. É meu carma. Dinamene me sepulta todos os dias.
        E hoje as pessoas vão vivendo como se Dinamene nunca tivesse existido. Cinco milhões de homens vão entrar em casa sem olhar pra esposa. Três mil quinhentas e noventa mulheres vão trair seus maridos. Oito milhões novecentos e quinze mil aceitarão suborno. Setecentas e quatorze morrerão de infarto. Quatrocentos milhões perderão o sono por estarem preocupadas com o salário que já está acabando.
        No fundo eles todos sabem, mas não têm coragem de encarar o mundo com a imagem de Dinamene.  Mas Dinamene se afogou em meus lençóis, e eu nunca soube nadar.

14 janeiro, 2016

ROADHOUSE

Conto originalmente publicado no livro Notícias do Submundo (2014)



Eu conheci esse maluco e mais uma trupe de vagabundos e per-didos na vida nesse bar na beira da estrada, um bar com um velho falido que afirma, mesmo com sua carcaça já deteriorada, que vive caçando veados por aí no meio da mata. Acho isso meio estranho, às vezes ele some por dias e quem fica cuidando do bar é sua es-posa, uma coroa ainda enxuta que se não fosse tão fiel ofereceria muita coisa boa aos seus clientes. A filha dela é uma ninfeta de causar inveja, e levava, segundo os meus cálculos, uma média de cento e vinte cinco cantadas por dia de trabalho, recusando todas elas com uma pose de se admirar, calava a boca dos bêbados per-didos e rebolando sensualmente para retomar seu lugar atrás do balcão, de onde ficaria lavando os copos e preparando as bebidas, fingindo que não escuta os comentários sexuais selvagens sobre ela que os bêbados faziam entre si.
Mas esse maluco do qual eu vinha falando tinha passado a juventude em uma casa de detenção para menores infratores, e ele vinha ali, quase todos os dias, morava ali perto, assim como eu, éramos dois errantes que só conseguiam aceitar a sociedade sain-do do furacão de desespero que se tornaram as grandes cidades, e viemos nos instalar nas cabaninhas pau a pique isoladas perto das montanhas desertas, onde eu escolhi bem o local pra ficar, afastado, mas com boa visão para a estrada, para eu ver essa gente que corre o mundo dentro de veículos sem saber por que, e eu ficava ali admirando por horas, vivendo de alguns rendimentos, de alguns livros vendidos, e eu saía às vezes pra dar uns tiros pro ar e cagar no meio da mata; foi assim que conheci esse rapaz, sujeito simpático, é o único que escuta de verdade os meus poemas quan-do estamos bêbados no canto daquele bar sujo. Os assuntos eram literatura, sexo e existência, as únicas coisas das quais eu sabia fa-lar, e o cara me escutava, embora não concordasse com a maioria das minhas opiniões, e sempre acabava falando de quando ele foi pedófilo, mas agora estava recuperado e só gostava de coroas, seu maior desejo era comer a dona do bar; aí eu falei que sexo é entre-ga, aí ele me contou uma história.
Chupando caralhos da natureza, chupando paus de desconhe-cidos, abrindo e lambendo bucetas desconhecidas, rapadas, com desenhos, matagais ao estilo francês, comendo cus rosados, pretos, virgens ou bem largos, lambendo e chupando peitos redondos, ovais, pequenos e gigantes, trepando em todos os lugares ao mesmo tempo, nas ruas, nas quitandas, nos fios de alta tensão, dentro do mar, em cima de estantes, dentro do elevador panorâmico, na Torre Eiffel, dentro da geladeira, chupando, batendo, gozando em quem viesse à frente, atrás, em qualquer latitude, com qualquer formato, com qualquer ideia, pondo inclusive no buraco das árvores, de to-cos, em buracos no chão, no buraco da telha, isso pra mim, levando gozadas na cara, gozando em olhos alheios, é vida sexual ativa, o res-to é conversa fiada, o que me faz entender que não existe ninguém no mundo sexualmente ativo, isso me disse uma vez um ex-traveco que agora é pastor numa comunidade, e que joga cartas todas as sex-tas-feiras bebericando uísque cowboy com os cafetões das putas da Avenida Brasil, e que publica poemas numa editora pequena. Foi aí que meu amigo me disse: ninguém sabe o que é sexo de verdade, no fundo as relações são qualquer coisa meio masturbatória e patética.
Aí fui pra casa dormir de tristeza.
Correndo pelo parque, árvores balançando, vento cada vez mais forte, fim de tarde típica de outono. As luzes apagando, já noi-te, em três segundos já estava no meio do matagal e vi seis barri-gudos correndo atrás da Mel Lisboa que chupava pirulitos cheios de humanidade, vi Jesus brincando de pega-pega com Maria Ma-dalena, vi o Batman brigando com o Chapolin para tirarem a capa do Superman, vi Raul Seixas negando Cristo por três vezes, digo, a ditadura, vi Jack Kerouac cagando na limusine de George W. Bush, vi Fernando Pessoa discutindo a ordem mundial sentado em um café palestino com dois padres e com José Saramago a intermediar o debate, vi Hitler dando uma palestra a políticos israelenses, vi Ma-chado de Assis tentando convencer Bentinho a ir pra Suíça atrás da Capitu, pois ela não tinha morrido, ele mesmo, Machado, tinha in-ventado sua morte, e aí eu acordei, a bebedeira ainda não tinha pas-sado, mas eu já conseguia identificar onde estava, estava no velho bar da estrada deserta. Mas como eu havia ido parar ali? Eu devia ter enchido a cara em casa e atravessado a estrada e entrado pela porta do bar sem mesmo perceber. Voltei pra casa.
Eu estava um pouco entediado ali, queria ir embora, mas aí lembrei de quando tive o surto na cidade, olhando para todas aque-las pessoas, todo aquele ritmo. Gente interessante sendo perdida, as pessoas boas morrendo de tanto serem ricas. Ah, Ginsberg, eu também vi a minha geração morrendo de fome, mas não estavam histéricos nem nus, estavam passíveis e cobertos de penduricalhos, cheios de felicidade gratuita, todos cheios de euforia da tranquili-dade de shoppings e com seus aparelhos de ar condicionado, es-tacionamento e segurança. Eu vi aquelas conquistas irem esgoto abaixo, e vi a revolução se transformar em egoísmos de direita, e os expoentes estão escondidos, com muita vergonha de serem o que são. Foi ali que não aguentei mais e vim embora.
Todas as vezes que penso nisso acabo me acalmando e aprovei-tando mais a vida nessa cabaninha, olhando aquela estrada bonita,e aquele bar onde passa tanta gente, que troca algumas palavras com a gente, fala um pouco da vida, depois vai embora e nunca mais veremos. Sei que isso soa meio romântico, mas é bonito tam-bém. E o lugar que eu escolhera era realmente muito bacana. Às vezes eu vou me embrenhar nas matas que se escondem por detrás da cabana, um lugar semiaberto e semi-explorado, o que me faz sentir um dos primeiros homens a pisar a li. Eu levo um livro, mas na maioria das vezes eu me distraio vendo os pássaros cantarem. Antes de voltar eu sempre dou uma cagada entre as plantas, con-tribuindo com meu esterco àquela restauração natural. Aquilo me dá uma sensação de desprendimento e de liberdade, e ao mesmo tempo me sentindo útil. Aí eu sempre volto à cabana pra tomar um vinho barato e ver se consigo escrever algo. Na maioria das vezes sai algo que preste. E aí vou catalogando, juntando as folhas em um baú, pra daqui alguns anos alguém encontre o que ali ficar e publicar postumamente.
No fundo a gente escrever porque tem que escrever, é maior que nós. Ser lido é pra poucos, infelizmente, não porque falta capacidade nos seres humanos, o que falta é vontade de ser um pouco diferente do que somos. Construímos uma casa interior com ar condicionado, aquecedor, água quente, banheira, hidro-massagem, um belo bar com vinhos franceses, italianos, chilenos, californianos, portugueses, sul africanos e australianos, chamamos os amigos para jantar e vivemos com um grande conforto. Qual-quer ameaça em quebrar essa bela imagem de domicílio e con-trole é assustadora. Não dá pra criticar todo mundo na mesma medida, somos seres humanos, e o que fazemos de melhor é ter medo. Medo da morte, medo de Deus, medo do mundo, medo das mudanças, medo de escolhas, medo do desconhecido, medo de nós mesmos. Alguns não são maus, são só medrosos. As coisas que faço, normalmente são feitas por pessoas que são classificadas como corajosas. Bom, na minha concepção, eu faço tudo porque tenho medo. A coragem não passa de hiatos entre um vento e uma brisa de medo. Escrever pode ser meu único ponto de coragem, mas também pode ser medo de sair do minicastelo que construí para viver, em uma realidade elaborada. Mas o conhecimento tal-vez liberte, porém ele é ameaça às nossas construções.
Depois de escrever um conto, voltei ao bar da estrada. Eu gostava de beber o estoque de vinhos que eu tinha na cabana, que, diga-se de passagem, por essa hora já está quase acabando, o que tornará daqui há alguns dias minha permanência por aqui um tan-to questionável. Mas eu gostava também de ir beber umas cervejas com aquela trupe de desconhecidos que aparecia vez ou outra por lá. Eu ficava, da cadeirinha confortável debaixo de umas árvores, observando o movimento lá do bar. Se aparecesse alguns carros ou motos diferentes eu corria pra lá pra tomar umas e ver se conhecia alguma gente interessante. Nesse dia vi um pessoal que foi che-gando de carona. Primeiro foi um com cara e jeito de estrangeiro, minutos depois foi outro, vestido da mesma maneira. Depois outro e mais um outro, e minutos depois duas garotas. Todos entraram no bar. Resolvi descer para conferir.
Pedi uma cerveja e fiquei ali mesmo no balcão. A trupe que tinha chegado de carona se conhecia, e estavam sentados ao meu lado. Os caras eram todos barbudos e traziam uma mochila média. As mulheres, lindas por sinal, estavam com mochilas um pouco maiores. Falavam dois, três, quatro idiomas entre si. Pareciam ter vindo cada um de um lugar diferente do mundo. Resolvi puxar papo e descobri que estavam atravessando as Américas de ponta a ponta, do glacial norte do Canadá às geleiras no sul da Argentina. Os caras eram bacanas, e me contaram todos os porres que toma-ram e as pessoas que conheceram. Era a segunda vez que faziam essa viagem. Eles gostavam de todos os povos, em todos os luga-res existem pessoas boas e más, mas me disseram que preferiam os mexicanos e colombianos, muito mais simpáticos e abertos a conversas e a curtições. Os caras eram bacanas, logo descobri que eram gays, eles me perguntaram o mesmo, e respondi que não. A conversa foi super amigável. Uma das gurias tinha namorada, e a outra era a única que não era gay e estava sozinha, mas meio triste, achei que não rolaria nada, embora tenha me interessado muito por ela. Disseram que era artista plástica e pianista.
Duas horas depois as paredes da cabana balançavam e aquela artista linda estava deitada comigo. Estávamos bêbados e carentes, então transamos loucamente durante algumas horas. Eu não con-seguia me desgrudar daquele corpo, com uma leve barriguinha, com estrias na parte de trás. Mas como ela era bela. É dessa imper-feição que eu gosto, dessa coisa esculpida e não acabada, sujeita ao tempo e às deformidades. Eu amo mulher assim. Gosto desse toque no corpo todo, sem tabus. Essa coisa de filme pornô, onde o contato é só no órgão sexual é pura construção boba para o mer-cado cinematográfico pornográfico. Mais que penetração, o sexo é toque, é abraço, é beijo em todas as regiões do corpo. Eu gosto de beber o vinho do corpo dela, licoroso, com taninos marcantes, o semi-odor do suor, do transpirar nos lençóis.
Ela me chamou para seguir adiante com ela, viajar junto, abandonar a cabana. Eu a convidei para ficar ali, para plantarmos alguma coisa, produzir alguma obra genial e tentar salvar a huma-nidade, pois nossa geração estava quase perdida. Ela riu porque eu ainda acreditava nas utopias. Mas vamos decidir isso quando ela acordar. Agora ela dorme, tentando se recuperar do sexo e da bebedeira que o antecedeu. Há meses eu não tinha isso. Fiquei só fitando o teto, sentindo a baforada de ar quente que vinha pela janela aberta. Com certeza seus amigos já estavam bêbados e jo-gados pela mata, eu mesmo fui o responsável de apresentá-los. A última memória que tenho é que eles estavam fumando uma erva maravilhosa e discutindo sobre a medicina no país. Dentro de alguns minutos eu dormirei, abraçado a essa pequena, provando que sexo é muito maior do que essas coisas que a indústria nos coloca. Talvez eu a acompanhe, para tentar descobrir exatamente o que vim fazer no mundo, para tentar executar o que alguém me delegou, mas esqueceu de me informar. Mas só vou decidir depois de acordar, e ver se tudo aquilo que eu venho vivendo e bebendo não passa de um sonho, de uma realidade inventada para suportar tudo o que o mundo nos impõe.

24 novembro, 2015

CRIADOR E CRIATURA


CRIADOR E CRIATURA

Havia quinze minutos que estávamos em silêncio. Eu nunca imaginara que ela soubesse. Por isso a explosão em minha mente e a impossibilidade de organizar qualquer frase. Ela estava do jeito que eu sempre quis que estivesse, soprando aquele ar blasé que eu havia roubado de uma antiga namorada e impresso nos músculos faciais daquela que estava agora na minha frente com luvas de veludo, um cigarro preso naquela cigarrilha démodé, sentada em um café de uma cidade que nem vale a pena ser identificada. Ela tinha uma pinta minúscula no canto inferior esquerdo dos lábios. Eu a quisera assim porque eu sempre a amei, antes mesmo de resgatá-la do limbo. Meu amor foi o que a resgatou da não-existência.
Ela fez assim, jogou toda a informação entre o café e o croissant, entre a água com gás e a tartelete de limão, como se falasse do tempo, das nuvens carregadas e da chuva próxima. Falou como se comentasse as coisas do trabalho, a inveja das colegas pela recente promoção. Havíamos acabado de planejar uma viagem para as férias, viagem tranquila pelo interior do país, vendo os vilarejos antigos, provando da boa gastronomia, tudo para comemorar os trinta anos de união. Mas, eu não tinha o direito de me sentir enganado, eu havia ocultado tudo durante todos esses anos. Porém, o que me deixou mais perturbado foi a maneira como ela disse.
“Descobri há cinco anos, desconfiava há mais de dez.
E então o tempo foi suspenso, era como se eu houvesse interrompido temporariamente a narrativa. Eu estava impossibilitado. O mundo que eu havia criado acabara de se romper. Meu tempo foi suspenso. Os figurantes sem nome continuavam andando pelas ruas, conversando na rua ao lado, transando em algum apartamento apertado. Ela assumiu as rédeas da história. Eu acabara de ser despromovido. Depois de muito lutar contra o mal que se alojava dentro de mim, consegui perguntar.
Como?
“Foi quando eu consegui o novo emprego e você estava ainda de férias. Era o meu primeiro dia. Estava nervosa e acabei dormindo mal. Você roncou a noite toda, mais do que o normal, o que me impediu ainda mais de dormir. Mas me deixei deitada, na expectativa daquele novo mundo que me aguardava. Você sabe como sou ansiosa, de modo que levantei mais cedo e fui fazer um café. Tentei trocar umas palavras com você, sem êxito. Deixei você semi-acordado, meio que sonhando, murmurando palavras estranhas.
“Decidi não pegar o metrô, e fui caminhando até o trabalho. A manhã não estava tão fria, e eu queria me sentir viva, por isso fui a pé. Vi muita gente indo ao trabalho, saindo com suas próprias preocupações em suas cabeças baixas a fitar o chão. Notei como as pessoas eram tristes, elas que se deixaram entrar em uma rotina, da qual não poderiam sair e sem as quais já não poderiam viver. Isso era justamente o oposto pra mim naquele momento, talvez o futuro me reservasse, e provavelmente o faria, uma rotina massacrante, mas naquele momento eu me sentia uma aventureira, pronta para encarar o desconhecido. Mal sabia eu que uma reviravolta me aguardava além da esquina.
“Pude jurar que vi teu vulto em cima de um prédio, perto da avenida principal. Duas quadras à frente, vi tua silhueta atrás da cortina de um café. Chegando ao prédio onde trabalho, vi você comprando um cachorro-quente. Com vinte anos ao seu lado, acabei por me surpreender apaixonada assim, vendo você em todos os lugares. É claro, acreditei ser coisa da minha cabeça, fruto da paixão boba. Porém, isso se repetiu pela semana seguinte, e pela outra, e sem mais cessar. Todos os dias eu te deixava na cama do mesmo jeito. E eu sentia que você me seguia. Não podia ser só amor. Alguma coisa estava muito errada.
“Eu sempre fora cética, nunca acreditei de verdade em outras vidas, reencarnações, simpatias, rezas, deuses, olimpos e paraísos, você bem sabe. Sempre discutíamos muito sobre isso. Reparou que há algum tempo não discutimos mais a respeito? Eu me dei conta de que havia algo acima. E eu entendi tudo. Não antes de muito refletir e procurar a respeito.
“Eu sou tua personagem, sempre fui. Entendi porque eu não tinha lembranças da infância, que o laudo médico sobre amnésia irreversível após meu acidente de carro quando jovem era falso, que sua mulher que, segundo sua versão, tinha acabado de morrer no mesmo hospital onde eu estava de recuperação era mentira, e que aquele papo de querer ajudar alguém daquele mesmo hospital a se recuperar, pois deixaria tua alma mais tranquila enquanto ocupava a mente, era também tudo balela. Tudo era pra me fazer crer que esse mundo todo aqui é real. Você escreveu todas as linhas desse mundo, inventou esses personagens figurantes, os nossos amigos, as situações todas, tudo foi planejado, inclusive a cura do meu câncer no pâncreas, quando todos os médicos já tinham me desenganado. Era tudo artificial, mas impressionantemente sólido pra que você pudesse entrar e fazer as coisas normalmente, como uma vida comum.
Eu caíra na minha própria armadilha. No início, é claro, eu era muito atento, planejava cada passo para não dar espaço para que ela desconfiasse de algo. Tinha que ser algo perfeito, completamente arquitetado, uma realidade completamente bem construída. Anos depois, com tudo correndo perfeitamente, fui aos poucos relaxando. Eu controlei bem, no início, minha curiosidade sobre a vida dela, mas depois desenvolvi esse lado voyeur, de ficar seguindo, vendo-a agindo normalmente, interagindo, vivendo. Sim, eu sei, eu sou o escritor aqui, eu a criei, criei o mundo no qual vivemos, criei todas as outras personagens, mas meus braços não são tão longos, então, não posso controlar exatamente tudo o que se passa na vida de cada pessoa, nem mesmo na dela, mas posso mexer meus pauzinhos, como sempre fiz. Não velei mais corretamente, e dei espaço para que ela me descobrisse.
“Seria melhor que você tivesse me traído com outra mulher. Ao menos eu seria dona da minha vida. Lembra da minha depressão, que você não conseguia entender o porquê? Era justamente porque eu tinha descoberto tudo e esperava que um dia você me contasse. Aí, de repente, decidi tomar rédea das coisas, decidi me recriar, nem só você pode ser deus aqui, querido, voltei a agir normalmente, deixei de tomar os remédios, simplesmente obtive cura, e tenho certeza que você acreditou que era por você ter conversado com o psicanalista. Ledo engano o seu. Fui vivendo essa falsidade até onde dava. Descobri nesse meio tempo, que eu poderia ser sim, dona de mim mesma, mesmo sendo você o criador. Não é tão engraçado isso tudo? Eu devo a você minha existência, mas não devo a você minha vida. Foi aí que decidi te deixar. E estou fazendo isso agora.
Eu sempre temi a descoberta, sempre soube que isso pudesse acontecer. O narrador nem sempre dá conta de tudo o que acontece. Eu deveria tê-la libertado antes, seria mais nobre. Tropecei no próprio medo da solidão, essa solidão de divindade, sozinho no seu céu, olimpo, paraíso ou qualquer outro nome que lhe dê. Esse tédio eterno. Agora é ela que descobre tudo e decide sair do Éden.
“Fiz minhas pesquisas. Descobri tudo sobre você. Sua infância pobre em outro país. A imigração ilegal pra cá. O sonho de ser escritor, de ser publicado, os amores fracassados, a descoberta de poder ser um semideus. Mas muitos podem ter esse papel. Eu também posso escrever o destino, não percebeu que nesse conto, eu já assumi há muito tempo as rédeas da narrativa? Sou eu que falo, você escuta, eu estou agindo, roubei a tua história. Você me criou, mas sou eu que vivo.
“Há algo também que talvez você não saiba, você também é um personagem. Conheci o escritor que te criou lá no trabalho, ele não cai na preguiça em monitorá-los, faz uma narrativa perfeita. Ele inclusive também é criação de outro escritor, mas aceitou sua sina. Também aceito a minha. Há algum tempo resolvi brincar disso também, criei vários personagens e os fui libertando aos poucos. Lembra das horas extras no trabalho? Você não conseguia, é claro, ler o que eu estava anotando, achou que fossem planilhas, não podia vir conferir para não afetar a realidade. Criei vários leitores, todos aqueles que lerão essa narrativa também são minhas personagens. Você perdeu inclusive seu próprio conto, meu querido. Essa foi minha traição, minha vingança, meu amor, ser maior, mais nobre e mais esperta do que você.
“E você achando que era o único. Esse é o problema dos deuses e dos falsos deuses, acham que criam alguma coisa. E quando conseguem criar algo se creem gênios. Mal sabem eles que fazemos parte de um círculo vicioso de criação e destruição. E que todos nós fomos criados por alguém e criamos outros. Nada é superior ou absoluto. Estamos em uma linha, e tudo é relativo. Termine aí agora sua narrativa, digo, minha narrativa, que vou me embora.
Dito isso, deixou o dinheiro sobre a mesa, virou as costas e saiu andando. Eu perdera minha personagem, a minha preferida, a razão da minha arquitetura. Saiu rebolando e me dizendo com as ancas que esse era o fim. Olhando daqui, enquanto ela percorre a imensa quadra sem fim da capital, é como se flutuasse no universo, e desfizesse as histórias do mundo.



07 agosto, 2015

Apenas um Conto Besta



            Ele ainda não entendia o que estava fazendo ali. Ela o tinha chamado, provavelmente por educação, e ele aceitara. E agora estavam ali, frente a frente, depois de tanto tempo, depois de tudo, muito além da história. Que estranho impulso nos leva à imbecilidade? É o que ele se perguntava ininterruptamente, ali diante daquele emaranhado de intrigas construídas com sabe-se lá que caneta, em roto papel. Esse medo que o impedia, essa trava que lhe segurava no fundo era uma corrente necessária, pois a transgressão levou àquela cena que de hilária tinha pouco. Ele em um canto do sofá, ela no sofá do outro lado, protegida pela mesa de centro. E o café esfriando, única coisa que não havia sido congelada.
            Ela tentou esconder o desconforto quando abriu a porta e topou com a figura esburacada, embora intacta aparentemente. Ela tentou recrutar qualquer mentira que a sua mente produzia incessantemente todos os dias, mas não conseguiu apanhar nenhuma, e fez um gesto para que ele entrasse.  Com os olhos disse, entre, fique à vontade, não repare a bagunça, vamos para a sala, você conhece o caminho, vou só desligar o forno pro assado não queimar. E enquanto sentavam no sofá da modesta sala com mobília barata, ele entendeu o pérfido convite, conversa vã para quem às vezes não tem o que dizer. Era o som surdo a existência que arranhava a pele.
            Cruzaram o olhar poucas vezes, na timidez de serem quem são. Ela resolveu quebrar o gelo buscando mais café. Mas no caminho lembrou-se do conhaque, e eles então acrescentaram um pouco de álcool à bebida quente, mesmo com o calor senegalês a lhes castigar. Aos poucos o álcool foi entrando no sangue. E começamos a rir, sim, começamos, em primeira pessoa, pois aquele cara amuado no canto era eu, tentando falar com a única leitora da minha obra, tentando entender o que ela vira em mim durante tanto tempo. Mas ainda era o silêncio, o riso era o silêncio, e as palavras não vinham. No fundo, as palavras nunca vêm, e o silêncio é sempre o mundo mais barulhento possível. Ríamos em silêncio.
             Ele era eu, protagonista de terceira para primeira pessoa. Ou seria esse silêncio o protagonista? A mudez talvez fosse a que mais agisse. A mulher à minha frente era a única leitora do que eu escrevia, que lia sobre meu ombro a tinta ainda meio molhada no papel quando morávamos juntos há alguns anos. Ela sempre elogiava, acabava por me dar um beijo e me distrair. Daí me chamava para jantar. No início achei mesmo que gostasse, depois entendi a comiseração. Aos poucos a obesidade foi me dando um tom róseo bebê nas bochechas. Fiquei pastelão caricaturado, e quando ela me olhava era somente para se certificar de que era a mesma pessoa, embora não reconhecesse aquele rótulo novo e mal elaborado. A comiseração aumentara após tudo.
            O riso foi o único ato intruso naquele silencio inquieto e resmungão. Ela resolveu ir ao banheiro. Lembrei que, para ela, assear era uma das coisas mais importantes do mundo, levava horas e eu ficava brochando na cama. Quando ela voltava, eu já estava enrolado nos lençóis. E lá ela foi, nem sabia se ela voltaria. E eu percorri-me nas paredes daquela sala que tanto um dia me fora familiar. Não havia nada mais de mim ali para percorrer com os olhos. Eu já me fora dali a muito tempo. As coisas nesta casa já não precisam mais de mim.
            Não reconheço esses quadros, nem os bibelôs da raque. Logo à frente, percebo Chaplin que me observa pelo cartaz, inequívoco na sua contemplação, no canto da parede menor. Está quase de perfil, finge que não me vê, mas é analista e me enxerga por completo. Mas finge me ignorar, na sua desfalecência, na sua descorporificação, como se o tempo não houvesse. Ele critica minha existência não dizendo nada. É vaidoso, e sua fogueira é alimentada pelo silêncio. E é assim que ele me grita à alma, pedra caída sobre a tampa, oco de caixão, o corpo não existe, já nasceu se decompondo. Retribuo fingindo a sua não existência. Folheio-me, e a página virada me açucena. Sorvo o café.
            Transporte para esferas detrás das paredes mal feitas. As janelas é que são pessoas, elas estão ali, fotografam o que deve ser fotografado. O ser humano não vê. Enxerga mas não vê. No fundo não precisaria de olhos. Meu ideal é ser sopro. Entendo que o ser humano é mero detalhe, e como as relações pessoais são tão pequenas ao tamanho do universo. Assim vejo nossa desimportância no todo. Mesmo o maior sucesso um dia beijará a terra, e eu, que disso não provei, estarei ao lado. No fim iguais. Ser humano é pouco. É ser egoísta. O homem só deixará de ser apenas um fato na história do mundo o dia que parar de inventar coisas para si próprio, no dia que suas invenções transcenderem sua raça. Aí sim, nesse dia, é que o homem será qualquer coisa de insubstituível. Por enquanto juntou algumas informações para a sobrevivência e transmissão do conhecimento, nada mais. E se ajudou a outrem, foi pelo próprio ego.
            Mas para algum lugar hemos de ir. O que seremos no além corpo, deus meu, qualquer coisa meu? Fosse como fosse, gostaria que nos tornássemos instâncias descarnalizadas, transeuntes no tempo, catalogando imagens, interpenetrando as estantes das coisas, folheando as páginas dos fatos, sobrevoando pessoas e conceitos, vendo a história, assim, bem grande e amiúde, sendo o voyeur de Gaia. O álcool já me distrai dela. Tento ler, o seu asseio parece eterno, como que se quisesse tirar a si mesmo do de dentro. Ouço barulho, talvez ela esteja voltando. Tento me refazer, mas a poesia já me enraizou. E me desexteriorizo. Quando ela voltar, já não serei mais eu, quando ela voltar, serei mais silencioso que o silêncio.
            Já me deu vontade largar essa caneta, e jogar na lixeira toda essa papelada. Quem sabe eu posso lhe passar por debaixo da porta do banheiro pra que ela leia. Ela virá e eu direi que isso tudo aqui é um conto, umas reflexões de pós-vinho barato que tomei antes de vir pra cá, onde o existencialismo não é nada mais do que mau humor incontido. Vou gritar para ela sair dali, vir aqui pra gente se entorpecer de alguma coisa ou dar umas risadas. Dizer para ela que ela é uma personagem, para ela parar de representar e ser gente, e vir aqui me colar à boca o gosto do corpo dela recém lavado. Mas se ela não for minha personagem o que ela será? Ela está lá? Ela é inventada ou vive por si própria agora que eu a abandonei no limbo da narrativa? Se eu bater na porta ela responderá?

            A porta se abre e me desconfunde. Ela vem seminua. E me sorri. Já vive e não precisa da minha literatura. Quando a criei, o conto parecia bom, mas no fim foi só um conto besta, com uma personagem que abandona seu criador. A criatura é viva, não precisa de deuses. E ela já vive sem mim, mas me quer. E lá vem ela ser meu clichê, ser minha pieguice, furar o silêncio com gemidos, cruzar a terra sem sair do quarto. E me fazer gente, que essa coisa de escritor depressivo só dura fora do sexo.