18 março, 2016

GOING DOWN





GOING DOWN
 Luigi Ricciardi
Você sabe que não posso beber cerveja
E ouvir Elvis Presley
Fico feliz e triste ao mesmo tempo
Entro nesse turbilhão que eu mesmo crio
Viro a lamparina quando não temos energia
Aquela neblina seca nos invernos sem aquecedor
E me sinto esculpido
Pelas entranhas da terra
Acabo acreditando que sou o futuro prêmio Nobel
Que suspendo a morte
Pelo menos por uns minutos
Creio ser um garoto de Liverpool
No auge do experimentalismo
Musical, literário, drogal
Fico doido pra beijar as dobrinhas
Da tua virilha, das tuas axilas
Oh, Love me tender, Love me sweet
Assim tiro o mundo de dentro de mim
Assim tenho um parto orgásmico
E fodo com os buracos negros
E o espaço sideral
E entro pro lado negro da força
De repente já quero uma benzedrina
Abandono o Elvis e os Beatles
Quero ouvir um jazz bebop
Aquela batida mágica
Tomando vodka barata
Vinho barato pra dar um barato
E já começo a falar de Nietzsche
E de todas as experiências possíveis
Que nossos cérebros podem registrar
E os conectomas que tenho
Me fazem imaginar a vida dando cambalhotas
Nas estradas com a linha puramente branca
Nas cervejas infinitas
No teu cu rosado
Vou sendo içado, erguido,
Excitado, de pau duro para o mundo
De coração aberto para a loucura
A demência é minha mãe agora
E de repente já estou na estratosfera
Da terceira, quarta, quinta dimensão
Com negras americanas
Fazendo coro a Hit the Road, Jack
Com solos de guitarra do Slash
Eu e meus pés descalços ali estão:
Retocando as divisões etéreas das coisas
Redefinindo as ordens e prioridades
Remetendo a tua bunda
Que é o segredo do universo
Entendo que a vida é muito mais vida assim
Do que na sobriedade massacrante
Do que nas merdas que a gente se enrola
Pra dizer que é alguém responsável e direito
O mundo é uma matrix sem volta
E a arte é que me leva pra vida de verdade
Que me livra dessa merda comezinha
E aí minha barba se alonga ao infinito
Aos confins da terra
E se enrola em você, coisa doida,
Pra dizer que gosto de ouvir teu gemido
Em si bemol menor
E a culpa de tudo isso é sua
Porque me engoliu quando não deveria
Porque me abriu os olhos
Chupando meus dedos
Me obrigando a te lamber os pelos
A fumar teus grandes lábios
A esquecer que sou mortal
E que virarei osso e depois pó do pó
Apenas Dust in the Wind
Tire daqui essa cerveja
Antes que eu comece a compor
Canções bregas com acordes fáceis
Dó, Fá e sol maiores
Com no máximo um mi menor
Você é o meu demônio das onze horas
Que possui minha esperança tola
E brinca de papéis
Venha deitar comigo e me dar uns tabefes
Sou um bêbado gordo incorrigível
Leia as minhas mãos
E diga que serei o gênio do século
Entre as tuas coxas brancas
Nas tuas estrias e celulites
Cale-me a boca com um beijo cuspido
E sente no meu cetro
Que quero jorrar pelas sarjetas
De Manhattan
Que quero virar aquela poça suja
Pra entender enfim o que vim fazer aqui
Ou pelo menos pra inventar uma razão
Tire a roupa e entre no lago
Como num clipe do Aerosmith
E me dê carona para Marte
Porque lá o ar é rarefeito
E se eu estiver parando
Você me dá um beijo louco
E pulo fora.
Venha logo
Que essa bebedeira precisa passar
Que logo eu quero dormir.

17 março, 2016

DINAMENE E O MUNDO TRANSVIADO





Hoje, mais de cinco milhões de pessoas vão acordar querendo mudar de emprego. Outras setenta e nove mil vão querer o divórcio. Três milhões quatrocentos e doze mil querem ficar famosas. Algumas centenas de milhares continuarão eternamente sonhando com a sua casa própria. E eu só querendo uma tarde de folga para ir ao piquenique. Olhar aquela calcinha de bolinhas pelo vão da saia colorida. Nós nos beijaríamos no parque e se ela não quisesse me acompanhar até em casa, eu me despediria tranquilo e seguiria meu caminho, voltando pra casa e batendo uma punheta calma, como quem se esquece do mundo.
Mas, Dinamene não deixa mais seus tênis vermelhos sobre os meus encardidos. Dinamene não reza mais um terço todos os dias pra eu chegar bem do trabalho. Dinamene se afogou em si mesma. Dinamene jogou-se na correnteza. Seus olhos não repuxam mais, descansam dessa luta que parecia eterna. Sua vagina invertida voltou ao lugar de origem. Seus dentes do juízo não gritam como antes.  Dinamene cozinhava muito bem. Nunca mais comerei seu bife a Camões.
        Quando Dinamene suspirou fugazmente pela última vez, Pedro Alquilar gozava freneticamente com travestis embaixo de um moitel no sul da Espanha. Alquilar é banqueiro e nunca revelou a ninguém seu desejo de vestir meias longas e cor-de-rosa e cantar “I Will Survive” com o vibrador, que tinha encomendado pela loja virtual e que chegou à sua casa com toda da discrição possível, fazendo as vezes de microfone.
        No dia em que eu conheci Dinamene, Yan Massum tirou folga do seu trabalho, algo raro de acontecer. Foi ao cinema comendo um tablete de chocolate. Yan Massum gostava de chocolate. Trabalhava doze horas por dia numa indústria de bicicletas no Japão. Morreu aos 29 anos, assassinado pelo marido da vizinha, com quem ele tinha um caso há cinco meses. Ela tinha sido sua única mulher. Antes dela, Massum era virgem.
Quando a mãe de Dinamene perdeu a virgindade, e, consequentemente, engravidou dela, um italiano se escondia por entre arvoredos no sul da bota. Nunca voltaria a ver a sua terra. Giuseppe Firenzio foi pra América do Sul. Nunca gostou de espaguetes apesar da origem. Fugiu da guerra por ajuda de um primo. Trabalhou três anos na Argentina para uma montadora francesa. Morreu atropelado na Avenida Nove de Julho em 1952.
Quando eu despi Dinamene pela primeira vez, José Oliveira era internado no Rio de Janeiro.  Brasileiro e filho de portugueses, sempre gostou de ler as histórias sobre Vasco da Gama. Adotou o time no Brasil. Morreu de infarto, quando o time caiu pra segunda divisão, aos oitenta e dois anos de idade.
Naquele tempo em que eu vagabundeava nas coxas de Dinamene, Anna Kolonovic tinha seu sexto aborto espontâneo. Casou com um viúvo que tinha seis filhos de outro casamento. Aceitou-os como se fossem seus. Anna Kolonovic trabalhou assiduamente para a União Soviética durante a segunda guerra mundial fabricando bombas. Passou o resto da vida cuidando dos filhos, netos e bisnetos. Morreu aos cento e um anos faz algumas horas.
        Essa gente tinha um céu interno, essa gente tinha o peito farto. Dinamene também tinha. Era mortal e eu não percebera. Pensei que ela fosse personagem minha e que eu pudesse lhe dar vida quando eu quisesse. Dinamene nunca foi criação minha, ela existiu. Escorreu entre os meus dedos em um dia chuvoso. É que eu sempre pensei em Dinamene, antes mesmo de a gente existir.
        Quando Napoleão assumiu o poder, eu já queria Dinamene. Quando Colombo descobriu a América, eu já conhecia Dinamene na minha mente. Quando Platão inventou o mito da caverna, eu já conseguia olhar pra fora da minha caverna e ver Dinamene no portão. Quando Pedro parou de pescar para seguir Jesus, eu já tinha ciência da futura existência de Dinamene.
        Hoje eu acordei com vontade de Dinamene, de lhe dedicar um poema pra apaziguar a culpa do meu peito. Faço mea culpa por deixar Dinamene se afogar em sua loucura. Não lhe prestei devida atenção, quis salvar sempre os textos que escrevia. O barco foi virando, e Dinamene foi embora muito cedo.
        Eu me lembro muito bem daquela pinta meio Marylin Monroe. Daquelas coxas envoltas num lençol branco. Eu pinto com os dedos da memória aquela tinta grossa, os excessos de contornos amarelos e tintas verdes, vermelhas, pretas à la Van Gogh da caricata existência de Dinamene.
        Quando eu falo dela, o tempo se desconecta, não tem cronologia que resista à memória de Dinamene. O mundo é meio às avessas sem a presença dela. Ela era a ordem e a desordem, a tranqüilidade e o caos. Dinamene era o equilíbrio do mundo. Agora o mundo é transviado. Se o mundo soubesse que uma Dinamene já passou por aqui talvez vivêssemos sem guerra. Dinamene é minha pieguice. É meu carma. Dinamene me sepulta todos os dias.
        E hoje as pessoas vão vivendo como se Dinamene nunca tivesse existido. Cinco milhões de homens vão entrar em casa sem olhar pra esposa. Três mil quinhentas e noventa mulheres vão trair seus maridos. Oito milhões novecentos e quinze mil aceitarão suborno. Setecentas e quatorze morrerão de infarto. Quatrocentos milhões perderão o sono por estarem preocupadas com o salário que já está acabando.
        No fundo eles todos sabem, mas não têm coragem de encarar o mundo com a imagem de Dinamene.  Mas Dinamene se afogou em meus lençóis, e eu nunca soube nadar.

14 janeiro, 2016

ROADHOUSE

Conto originalmente publicado no livro Notícias do Submundo (2014)



Eu conheci esse maluco e mais uma trupe de vagabundos e per-didos na vida nesse bar na beira da estrada, um bar com um velho falido que afirma, mesmo com sua carcaça já deteriorada, que vive caçando veados por aí no meio da mata. Acho isso meio estranho, às vezes ele some por dias e quem fica cuidando do bar é sua es-posa, uma coroa ainda enxuta que se não fosse tão fiel ofereceria muita coisa boa aos seus clientes. A filha dela é uma ninfeta de causar inveja, e levava, segundo os meus cálculos, uma média de cento e vinte cinco cantadas por dia de trabalho, recusando todas elas com uma pose de se admirar, calava a boca dos bêbados per-didos e rebolando sensualmente para retomar seu lugar atrás do balcão, de onde ficaria lavando os copos e preparando as bebidas, fingindo que não escuta os comentários sexuais selvagens sobre ela que os bêbados faziam entre si.
Mas esse maluco do qual eu vinha falando tinha passado a juventude em uma casa de detenção para menores infratores, e ele vinha ali, quase todos os dias, morava ali perto, assim como eu, éramos dois errantes que só conseguiam aceitar a sociedade sain-do do furacão de desespero que se tornaram as grandes cidades, e viemos nos instalar nas cabaninhas pau a pique isoladas perto das montanhas desertas, onde eu escolhi bem o local pra ficar, afastado, mas com boa visão para a estrada, para eu ver essa gente que corre o mundo dentro de veículos sem saber por que, e eu ficava ali admirando por horas, vivendo de alguns rendimentos, de alguns livros vendidos, e eu saía às vezes pra dar uns tiros pro ar e cagar no meio da mata; foi assim que conheci esse rapaz, sujeito simpático, é o único que escuta de verdade os meus poemas quan-do estamos bêbados no canto daquele bar sujo. Os assuntos eram literatura, sexo e existência, as únicas coisas das quais eu sabia fa-lar, e o cara me escutava, embora não concordasse com a maioria das minhas opiniões, e sempre acabava falando de quando ele foi pedófilo, mas agora estava recuperado e só gostava de coroas, seu maior desejo era comer a dona do bar; aí eu falei que sexo é entre-ga, aí ele me contou uma história.
Chupando caralhos da natureza, chupando paus de desconhe-cidos, abrindo e lambendo bucetas desconhecidas, rapadas, com desenhos, matagais ao estilo francês, comendo cus rosados, pretos, virgens ou bem largos, lambendo e chupando peitos redondos, ovais, pequenos e gigantes, trepando em todos os lugares ao mesmo tempo, nas ruas, nas quitandas, nos fios de alta tensão, dentro do mar, em cima de estantes, dentro do elevador panorâmico, na Torre Eiffel, dentro da geladeira, chupando, batendo, gozando em quem viesse à frente, atrás, em qualquer latitude, com qualquer formato, com qualquer ideia, pondo inclusive no buraco das árvores, de to-cos, em buracos no chão, no buraco da telha, isso pra mim, levando gozadas na cara, gozando em olhos alheios, é vida sexual ativa, o res-to é conversa fiada, o que me faz entender que não existe ninguém no mundo sexualmente ativo, isso me disse uma vez um ex-traveco que agora é pastor numa comunidade, e que joga cartas todas as sex-tas-feiras bebericando uísque cowboy com os cafetões das putas da Avenida Brasil, e que publica poemas numa editora pequena. Foi aí que meu amigo me disse: ninguém sabe o que é sexo de verdade, no fundo as relações são qualquer coisa meio masturbatória e patética.
Aí fui pra casa dormir de tristeza.
Correndo pelo parque, árvores balançando, vento cada vez mais forte, fim de tarde típica de outono. As luzes apagando, já noi-te, em três segundos já estava no meio do matagal e vi seis barri-gudos correndo atrás da Mel Lisboa que chupava pirulitos cheios de humanidade, vi Jesus brincando de pega-pega com Maria Ma-dalena, vi o Batman brigando com o Chapolin para tirarem a capa do Superman, vi Raul Seixas negando Cristo por três vezes, digo, a ditadura, vi Jack Kerouac cagando na limusine de George W. Bush, vi Fernando Pessoa discutindo a ordem mundial sentado em um café palestino com dois padres e com José Saramago a intermediar o debate, vi Hitler dando uma palestra a políticos israelenses, vi Ma-chado de Assis tentando convencer Bentinho a ir pra Suíça atrás da Capitu, pois ela não tinha morrido, ele mesmo, Machado, tinha in-ventado sua morte, e aí eu acordei, a bebedeira ainda não tinha pas-sado, mas eu já conseguia identificar onde estava, estava no velho bar da estrada deserta. Mas como eu havia ido parar ali? Eu devia ter enchido a cara em casa e atravessado a estrada e entrado pela porta do bar sem mesmo perceber. Voltei pra casa.
Eu estava um pouco entediado ali, queria ir embora, mas aí lembrei de quando tive o surto na cidade, olhando para todas aque-las pessoas, todo aquele ritmo. Gente interessante sendo perdida, as pessoas boas morrendo de tanto serem ricas. Ah, Ginsberg, eu também vi a minha geração morrendo de fome, mas não estavam histéricos nem nus, estavam passíveis e cobertos de penduricalhos, cheios de felicidade gratuita, todos cheios de euforia da tranquili-dade de shoppings e com seus aparelhos de ar condicionado, es-tacionamento e segurança. Eu vi aquelas conquistas irem esgoto abaixo, e vi a revolução se transformar em egoísmos de direita, e os expoentes estão escondidos, com muita vergonha de serem o que são. Foi ali que não aguentei mais e vim embora.
Todas as vezes que penso nisso acabo me acalmando e aprovei-tando mais a vida nessa cabaninha, olhando aquela estrada bonita,e aquele bar onde passa tanta gente, que troca algumas palavras com a gente, fala um pouco da vida, depois vai embora e nunca mais veremos. Sei que isso soa meio romântico, mas é bonito tam-bém. E o lugar que eu escolhera era realmente muito bacana. Às vezes eu vou me embrenhar nas matas que se escondem por detrás da cabana, um lugar semiaberto e semi-explorado, o que me faz sentir um dos primeiros homens a pisar a li. Eu levo um livro, mas na maioria das vezes eu me distraio vendo os pássaros cantarem. Antes de voltar eu sempre dou uma cagada entre as plantas, con-tribuindo com meu esterco àquela restauração natural. Aquilo me dá uma sensação de desprendimento e de liberdade, e ao mesmo tempo me sentindo útil. Aí eu sempre volto à cabana pra tomar um vinho barato e ver se consigo escrever algo. Na maioria das vezes sai algo que preste. E aí vou catalogando, juntando as folhas em um baú, pra daqui alguns anos alguém encontre o que ali ficar e publicar postumamente.
No fundo a gente escrever porque tem que escrever, é maior que nós. Ser lido é pra poucos, infelizmente, não porque falta capacidade nos seres humanos, o que falta é vontade de ser um pouco diferente do que somos. Construímos uma casa interior com ar condicionado, aquecedor, água quente, banheira, hidro-massagem, um belo bar com vinhos franceses, italianos, chilenos, californianos, portugueses, sul africanos e australianos, chamamos os amigos para jantar e vivemos com um grande conforto. Qual-quer ameaça em quebrar essa bela imagem de domicílio e con-trole é assustadora. Não dá pra criticar todo mundo na mesma medida, somos seres humanos, e o que fazemos de melhor é ter medo. Medo da morte, medo de Deus, medo do mundo, medo das mudanças, medo de escolhas, medo do desconhecido, medo de nós mesmos. Alguns não são maus, são só medrosos. As coisas que faço, normalmente são feitas por pessoas que são classificadas como corajosas. Bom, na minha concepção, eu faço tudo porque tenho medo. A coragem não passa de hiatos entre um vento e uma brisa de medo. Escrever pode ser meu único ponto de coragem, mas também pode ser medo de sair do minicastelo que construí para viver, em uma realidade elaborada. Mas o conhecimento tal-vez liberte, porém ele é ameaça às nossas construções.
Depois de escrever um conto, voltei ao bar da estrada. Eu gostava de beber o estoque de vinhos que eu tinha na cabana, que, diga-se de passagem, por essa hora já está quase acabando, o que tornará daqui há alguns dias minha permanência por aqui um tan-to questionável. Mas eu gostava também de ir beber umas cervejas com aquela trupe de desconhecidos que aparecia vez ou outra por lá. Eu ficava, da cadeirinha confortável debaixo de umas árvores, observando o movimento lá do bar. Se aparecesse alguns carros ou motos diferentes eu corria pra lá pra tomar umas e ver se conhecia alguma gente interessante. Nesse dia vi um pessoal que foi che-gando de carona. Primeiro foi um com cara e jeito de estrangeiro, minutos depois foi outro, vestido da mesma maneira. Depois outro e mais um outro, e minutos depois duas garotas. Todos entraram no bar. Resolvi descer para conferir.
Pedi uma cerveja e fiquei ali mesmo no balcão. A trupe que tinha chegado de carona se conhecia, e estavam sentados ao meu lado. Os caras eram todos barbudos e traziam uma mochila média. As mulheres, lindas por sinal, estavam com mochilas um pouco maiores. Falavam dois, três, quatro idiomas entre si. Pareciam ter vindo cada um de um lugar diferente do mundo. Resolvi puxar papo e descobri que estavam atravessando as Américas de ponta a ponta, do glacial norte do Canadá às geleiras no sul da Argentina. Os caras eram bacanas, e me contaram todos os porres que toma-ram e as pessoas que conheceram. Era a segunda vez que faziam essa viagem. Eles gostavam de todos os povos, em todos os luga-res existem pessoas boas e más, mas me disseram que preferiam os mexicanos e colombianos, muito mais simpáticos e abertos a conversas e a curtições. Os caras eram bacanas, logo descobri que eram gays, eles me perguntaram o mesmo, e respondi que não. A conversa foi super amigável. Uma das gurias tinha namorada, e a outra era a única que não era gay e estava sozinha, mas meio triste, achei que não rolaria nada, embora tenha me interessado muito por ela. Disseram que era artista plástica e pianista.
Duas horas depois as paredes da cabana balançavam e aquela artista linda estava deitada comigo. Estávamos bêbados e carentes, então transamos loucamente durante algumas horas. Eu não con-seguia me desgrudar daquele corpo, com uma leve barriguinha, com estrias na parte de trás. Mas como ela era bela. É dessa imper-feição que eu gosto, dessa coisa esculpida e não acabada, sujeita ao tempo e às deformidades. Eu amo mulher assim. Gosto desse toque no corpo todo, sem tabus. Essa coisa de filme pornô, onde o contato é só no órgão sexual é pura construção boba para o mer-cado cinematográfico pornográfico. Mais que penetração, o sexo é toque, é abraço, é beijo em todas as regiões do corpo. Eu gosto de beber o vinho do corpo dela, licoroso, com taninos marcantes, o semi-odor do suor, do transpirar nos lençóis.
Ela me chamou para seguir adiante com ela, viajar junto, abandonar a cabana. Eu a convidei para ficar ali, para plantarmos alguma coisa, produzir alguma obra genial e tentar salvar a huma-nidade, pois nossa geração estava quase perdida. Ela riu porque eu ainda acreditava nas utopias. Mas vamos decidir isso quando ela acordar. Agora ela dorme, tentando se recuperar do sexo e da bebedeira que o antecedeu. Há meses eu não tinha isso. Fiquei só fitando o teto, sentindo a baforada de ar quente que vinha pela janela aberta. Com certeza seus amigos já estavam bêbados e jo-gados pela mata, eu mesmo fui o responsável de apresentá-los. A última memória que tenho é que eles estavam fumando uma erva maravilhosa e discutindo sobre a medicina no país. Dentro de alguns minutos eu dormirei, abraçado a essa pequena, provando que sexo é muito maior do que essas coisas que a indústria nos coloca. Talvez eu a acompanhe, para tentar descobrir exatamente o que vim fazer no mundo, para tentar executar o que alguém me delegou, mas esqueceu de me informar. Mas só vou decidir depois de acordar, e ver se tudo aquilo que eu venho vivendo e bebendo não passa de um sonho, de uma realidade inventada para suportar tudo o que o mundo nos impõe.

24 novembro, 2015

CRIADOR E CRIATURA


CRIADOR E CRIATURA

Havia quinze minutos que estávamos em silêncio. Eu nunca imaginara que ela soubesse. Por isso a explosão em minha mente e a impossibilidade de organizar qualquer frase. Ela estava do jeito que eu sempre quis que estivesse, soprando aquele ar blasé que eu havia roubado de uma antiga namorada e impresso nos músculos faciais daquela que estava agora na minha frente com luvas de veludo, um cigarro preso naquela cigarrilha démodé, sentada em um café de uma cidade que nem vale a pena ser identificada. Ela tinha uma pinta minúscula no canto inferior esquerdo dos lábios. Eu a quisera assim porque eu sempre a amei, antes mesmo de resgatá-la do limbo. Meu amor foi o que a resgatou da não-existência.
Ela fez assim, jogou toda a informação entre o café e o croissant, entre a água com gás e a tartelete de limão, como se falasse do tempo, das nuvens carregadas e da chuva próxima. Falou como se comentasse as coisas do trabalho, a inveja das colegas pela recente promoção. Havíamos acabado de planejar uma viagem para as férias, viagem tranquila pelo interior do país, vendo os vilarejos antigos, provando da boa gastronomia, tudo para comemorar os trinta anos de união. Mas, eu não tinha o direito de me sentir enganado, eu havia ocultado tudo durante todos esses anos. Porém, o que me deixou mais perturbado foi a maneira como ela disse.
“Descobri há cinco anos, desconfiava há mais de dez.
E então o tempo foi suspenso, era como se eu houvesse interrompido temporariamente a narrativa. Eu estava impossibilitado. O mundo que eu havia criado acabara de se romper. Meu tempo foi suspenso. Os figurantes sem nome continuavam andando pelas ruas, conversando na rua ao lado, transando em algum apartamento apertado. Ela assumiu as rédeas da história. Eu acabara de ser despromovido. Depois de muito lutar contra o mal que se alojava dentro de mim, consegui perguntar.
Como?
“Foi quando eu consegui o novo emprego e você estava ainda de férias. Era o meu primeiro dia. Estava nervosa e acabei dormindo mal. Você roncou a noite toda, mais do que o normal, o que me impediu ainda mais de dormir. Mas me deixei deitada, na expectativa daquele novo mundo que me aguardava. Você sabe como sou ansiosa, de modo que levantei mais cedo e fui fazer um café. Tentei trocar umas palavras com você, sem êxito. Deixei você semi-acordado, meio que sonhando, murmurando palavras estranhas.
“Decidi não pegar o metrô, e fui caminhando até o trabalho. A manhã não estava tão fria, e eu queria me sentir viva, por isso fui a pé. Vi muita gente indo ao trabalho, saindo com suas próprias preocupações em suas cabeças baixas a fitar o chão. Notei como as pessoas eram tristes, elas que se deixaram entrar em uma rotina, da qual não poderiam sair e sem as quais já não poderiam viver. Isso era justamente o oposto pra mim naquele momento, talvez o futuro me reservasse, e provavelmente o faria, uma rotina massacrante, mas naquele momento eu me sentia uma aventureira, pronta para encarar o desconhecido. Mal sabia eu que uma reviravolta me aguardava além da esquina.
“Pude jurar que vi teu vulto em cima de um prédio, perto da avenida principal. Duas quadras à frente, vi tua silhueta atrás da cortina de um café. Chegando ao prédio onde trabalho, vi você comprando um cachorro-quente. Com vinte anos ao seu lado, acabei por me surpreender apaixonada assim, vendo você em todos os lugares. É claro, acreditei ser coisa da minha cabeça, fruto da paixão boba. Porém, isso se repetiu pela semana seguinte, e pela outra, e sem mais cessar. Todos os dias eu te deixava na cama do mesmo jeito. E eu sentia que você me seguia. Não podia ser só amor. Alguma coisa estava muito errada.
“Eu sempre fora cética, nunca acreditei de verdade em outras vidas, reencarnações, simpatias, rezas, deuses, olimpos e paraísos, você bem sabe. Sempre discutíamos muito sobre isso. Reparou que há algum tempo não discutimos mais a respeito? Eu me dei conta de que havia algo acima. E eu entendi tudo. Não antes de muito refletir e procurar a respeito.
“Eu sou tua personagem, sempre fui. Entendi porque eu não tinha lembranças da infância, que o laudo médico sobre amnésia irreversível após meu acidente de carro quando jovem era falso, que sua mulher que, segundo sua versão, tinha acabado de morrer no mesmo hospital onde eu estava de recuperação era mentira, e que aquele papo de querer ajudar alguém daquele mesmo hospital a se recuperar, pois deixaria tua alma mais tranquila enquanto ocupava a mente, era também tudo balela. Tudo era pra me fazer crer que esse mundo todo aqui é real. Você escreveu todas as linhas desse mundo, inventou esses personagens figurantes, os nossos amigos, as situações todas, tudo foi planejado, inclusive a cura do meu câncer no pâncreas, quando todos os médicos já tinham me desenganado. Era tudo artificial, mas impressionantemente sólido pra que você pudesse entrar e fazer as coisas normalmente, como uma vida comum.
Eu caíra na minha própria armadilha. No início, é claro, eu era muito atento, planejava cada passo para não dar espaço para que ela desconfiasse de algo. Tinha que ser algo perfeito, completamente arquitetado, uma realidade completamente bem construída. Anos depois, com tudo correndo perfeitamente, fui aos poucos relaxando. Eu controlei bem, no início, minha curiosidade sobre a vida dela, mas depois desenvolvi esse lado voyeur, de ficar seguindo, vendo-a agindo normalmente, interagindo, vivendo. Sim, eu sei, eu sou o escritor aqui, eu a criei, criei o mundo no qual vivemos, criei todas as outras personagens, mas meus braços não são tão longos, então, não posso controlar exatamente tudo o que se passa na vida de cada pessoa, nem mesmo na dela, mas posso mexer meus pauzinhos, como sempre fiz. Não velei mais corretamente, e dei espaço para que ela me descobrisse.
“Seria melhor que você tivesse me traído com outra mulher. Ao menos eu seria dona da minha vida. Lembra da minha depressão, que você não conseguia entender o porquê? Era justamente porque eu tinha descoberto tudo e esperava que um dia você me contasse. Aí, de repente, decidi tomar rédea das coisas, decidi me recriar, nem só você pode ser deus aqui, querido, voltei a agir normalmente, deixei de tomar os remédios, simplesmente obtive cura, e tenho certeza que você acreditou que era por você ter conversado com o psicanalista. Ledo engano o seu. Fui vivendo essa falsidade até onde dava. Descobri nesse meio tempo, que eu poderia ser sim, dona de mim mesma, mesmo sendo você o criador. Não é tão engraçado isso tudo? Eu devo a você minha existência, mas não devo a você minha vida. Foi aí que decidi te deixar. E estou fazendo isso agora.
Eu sempre temi a descoberta, sempre soube que isso pudesse acontecer. O narrador nem sempre dá conta de tudo o que acontece. Eu deveria tê-la libertado antes, seria mais nobre. Tropecei no próprio medo da solidão, essa solidão de divindade, sozinho no seu céu, olimpo, paraíso ou qualquer outro nome que lhe dê. Esse tédio eterno. Agora é ela que descobre tudo e decide sair do Éden.
“Fiz minhas pesquisas. Descobri tudo sobre você. Sua infância pobre em outro país. A imigração ilegal pra cá. O sonho de ser escritor, de ser publicado, os amores fracassados, a descoberta de poder ser um semideus. Mas muitos podem ter esse papel. Eu também posso escrever o destino, não percebeu que nesse conto, eu já assumi há muito tempo as rédeas da narrativa? Sou eu que falo, você escuta, eu estou agindo, roubei a tua história. Você me criou, mas sou eu que vivo.
“Há algo também que talvez você não saiba, você também é um personagem. Conheci o escritor que te criou lá no trabalho, ele não cai na preguiça em monitorá-los, faz uma narrativa perfeita. Ele inclusive também é criação de outro escritor, mas aceitou sua sina. Também aceito a minha. Há algum tempo resolvi brincar disso também, criei vários personagens e os fui libertando aos poucos. Lembra das horas extras no trabalho? Você não conseguia, é claro, ler o que eu estava anotando, achou que fossem planilhas, não podia vir conferir para não afetar a realidade. Criei vários leitores, todos aqueles que lerão essa narrativa também são minhas personagens. Você perdeu inclusive seu próprio conto, meu querido. Essa foi minha traição, minha vingança, meu amor, ser maior, mais nobre e mais esperta do que você.
“E você achando que era o único. Esse é o problema dos deuses e dos falsos deuses, acham que criam alguma coisa. E quando conseguem criar algo se creem gênios. Mal sabem eles que fazemos parte de um círculo vicioso de criação e destruição. E que todos nós fomos criados por alguém e criamos outros. Nada é superior ou absoluto. Estamos em uma linha, e tudo é relativo. Termine aí agora sua narrativa, digo, minha narrativa, que vou me embora.
Dito isso, deixou o dinheiro sobre a mesa, virou as costas e saiu andando. Eu perdera minha personagem, a minha preferida, a razão da minha arquitetura. Saiu rebolando e me dizendo com as ancas que esse era o fim. Olhando daqui, enquanto ela percorre a imensa quadra sem fim da capital, é como se flutuasse no universo, e desfizesse as histórias do mundo.



07 agosto, 2015

Apenas um Conto Besta



            Ele ainda não entendia o que estava fazendo ali. Ela o tinha chamado, provavelmente por educação, e ele aceitara. E agora estavam ali, frente a frente, depois de tanto tempo, depois de tudo, muito além da história. Que estranho impulso nos leva à imbecilidade? É o que ele se perguntava ininterruptamente, ali diante daquele emaranhado de intrigas construídas com sabe-se lá que caneta, em roto papel. Esse medo que o impedia, essa trava que lhe segurava no fundo era uma corrente necessária, pois a transgressão levou àquela cena que de hilária tinha pouco. Ele em um canto do sofá, ela no sofá do outro lado, protegida pela mesa de centro. E o café esfriando, única coisa que não havia sido congelada.
            Ela tentou esconder o desconforto quando abriu a porta e topou com a figura esburacada, embora intacta aparentemente. Ela tentou recrutar qualquer mentira que a sua mente produzia incessantemente todos os dias, mas não conseguiu apanhar nenhuma, e fez um gesto para que ele entrasse.  Com os olhos disse, entre, fique à vontade, não repare a bagunça, vamos para a sala, você conhece o caminho, vou só desligar o forno pro assado não queimar. E enquanto sentavam no sofá da modesta sala com mobília barata, ele entendeu o pérfido convite, conversa vã para quem às vezes não tem o que dizer. Era o som surdo a existência que arranhava a pele.
            Cruzaram o olhar poucas vezes, na timidez de serem quem são. Ela resolveu quebrar o gelo buscando mais café. Mas no caminho lembrou-se do conhaque, e eles então acrescentaram um pouco de álcool à bebida quente, mesmo com o calor senegalês a lhes castigar. Aos poucos o álcool foi entrando no sangue. E começamos a rir, sim, começamos, em primeira pessoa, pois aquele cara amuado no canto era eu, tentando falar com a única leitora da minha obra, tentando entender o que ela vira em mim durante tanto tempo. Mas ainda era o silêncio, o riso era o silêncio, e as palavras não vinham. No fundo, as palavras nunca vêm, e o silêncio é sempre o mundo mais barulhento possível. Ríamos em silêncio.
             Ele era eu, protagonista de terceira para primeira pessoa. Ou seria esse silêncio o protagonista? A mudez talvez fosse a que mais agisse. A mulher à minha frente era a única leitora do que eu escrevia, que lia sobre meu ombro a tinta ainda meio molhada no papel quando morávamos juntos há alguns anos. Ela sempre elogiava, acabava por me dar um beijo e me distrair. Daí me chamava para jantar. No início achei mesmo que gostasse, depois entendi a comiseração. Aos poucos a obesidade foi me dando um tom róseo bebê nas bochechas. Fiquei pastelão caricaturado, e quando ela me olhava era somente para se certificar de que era a mesma pessoa, embora não reconhecesse aquele rótulo novo e mal elaborado. A comiseração aumentara após tudo.
            O riso foi o único ato intruso naquele silencio inquieto e resmungão. Ela resolveu ir ao banheiro. Lembrei que, para ela, assear era uma das coisas mais importantes do mundo, levava horas e eu ficava brochando na cama. Quando ela voltava, eu já estava enrolado nos lençóis. E lá ela foi, nem sabia se ela voltaria. E eu percorri-me nas paredes daquela sala que tanto um dia me fora familiar. Não havia nada mais de mim ali para percorrer com os olhos. Eu já me fora dali a muito tempo. As coisas nesta casa já não precisam mais de mim.
            Não reconheço esses quadros, nem os bibelôs da raque. Logo à frente, percebo Chaplin que me observa pelo cartaz, inequívoco na sua contemplação, no canto da parede menor. Está quase de perfil, finge que não me vê, mas é analista e me enxerga por completo. Mas finge me ignorar, na sua desfalecência, na sua descorporificação, como se o tempo não houvesse. Ele critica minha existência não dizendo nada. É vaidoso, e sua fogueira é alimentada pelo silêncio. E é assim que ele me grita à alma, pedra caída sobre a tampa, oco de caixão, o corpo não existe, já nasceu se decompondo. Retribuo fingindo a sua não existência. Folheio-me, e a página virada me açucena. Sorvo o café.
            Transporte para esferas detrás das paredes mal feitas. As janelas é que são pessoas, elas estão ali, fotografam o que deve ser fotografado. O ser humano não vê. Enxerga mas não vê. No fundo não precisaria de olhos. Meu ideal é ser sopro. Entendo que o ser humano é mero detalhe, e como as relações pessoais são tão pequenas ao tamanho do universo. Assim vejo nossa desimportância no todo. Mesmo o maior sucesso um dia beijará a terra, e eu, que disso não provei, estarei ao lado. No fim iguais. Ser humano é pouco. É ser egoísta. O homem só deixará de ser apenas um fato na história do mundo o dia que parar de inventar coisas para si próprio, no dia que suas invenções transcenderem sua raça. Aí sim, nesse dia, é que o homem será qualquer coisa de insubstituível. Por enquanto juntou algumas informações para a sobrevivência e transmissão do conhecimento, nada mais. E se ajudou a outrem, foi pelo próprio ego.
            Mas para algum lugar hemos de ir. O que seremos no além corpo, deus meu, qualquer coisa meu? Fosse como fosse, gostaria que nos tornássemos instâncias descarnalizadas, transeuntes no tempo, catalogando imagens, interpenetrando as estantes das coisas, folheando as páginas dos fatos, sobrevoando pessoas e conceitos, vendo a história, assim, bem grande e amiúde, sendo o voyeur de Gaia. O álcool já me distrai dela. Tento ler, o seu asseio parece eterno, como que se quisesse tirar a si mesmo do de dentro. Ouço barulho, talvez ela esteja voltando. Tento me refazer, mas a poesia já me enraizou. E me desexteriorizo. Quando ela voltar, já não serei mais eu, quando ela voltar, serei mais silencioso que o silêncio.
            Já me deu vontade largar essa caneta, e jogar na lixeira toda essa papelada. Quem sabe eu posso lhe passar por debaixo da porta do banheiro pra que ela leia. Ela virá e eu direi que isso tudo aqui é um conto, umas reflexões de pós-vinho barato que tomei antes de vir pra cá, onde o existencialismo não é nada mais do que mau humor incontido. Vou gritar para ela sair dali, vir aqui pra gente se entorpecer de alguma coisa ou dar umas risadas. Dizer para ela que ela é uma personagem, para ela parar de representar e ser gente, e vir aqui me colar à boca o gosto do corpo dela recém lavado. Mas se ela não for minha personagem o que ela será? Ela está lá? Ela é inventada ou vive por si própria agora que eu a abandonei no limbo da narrativa? Se eu bater na porta ela responderá?

            A porta se abre e me desconfunde. Ela vem seminua. E me sorri. Já vive e não precisa da minha literatura. Quando a criei, o conto parecia bom, mas no fim foi só um conto besta, com uma personagem que abandona seu criador. A criatura é viva, não precisa de deuses. E ela já vive sem mim, mas me quer. E lá vem ela ser meu clichê, ser minha pieguice, furar o silêncio com gemidos, cruzar a terra sem sair do quarto. E me fazer gente, que essa coisa de escritor depressivo só dura fora do sexo. 

26 abril, 2015

JOTAGÊ NA RADIO INCONSCIENTE

Afinal, tudo não passou de uma brincadeira lançada por um jornalista polêmico ou há realmente uma conspiração em torno do possível show de João Gilberto em Maringá? Muita gente cuspiu na brincadeira ridícula, outras se tornaram uma espécie de personagem de Umberto Eco. Vários escritores se pronunciaram, escrevendo sua versão. Outros vociferaram contra mim via inbox no facebook, por tê-los citado. O texto foi à Araraquara, chegou à pós-graduação. De lá, dizem que foi levado para São Paulo, Rio e Buenos Aires. Uma fonte minha garante que Carlos Gardel teria tocado em São Paulo e que também há muito mistério em um possível show do J.G. na capital porteña. Já ouvi gente afirmando que isso tem a ver com wikileaks. Outros dizem que tudo isso seria uma conspiração alemã para a instalação do quarto reich. E eu o que sei disso tudo? O tema me obcecou, mas temo pela minha vida. Por isso vou somente escrever ficção a partir de agora, e deixo o limiar entre um e outro para os mais corajosos. Eis minha despedida. Espero que sirva para algo!
Fã que não quer se identificar teria tirado uma foto do show do João Gilberto em Maringá


J. G.
Luigi Ricciardi

                Achei que não fosse me envolver em tais historietas e nessa caça por detalhes de um possível acontecimento do qual todo mundo guarda um mistério esquizofrênico. Há semanas que não se fala de outra coisa na cidade. Méritos ao Alexandre Gaioto (o vendedor de sonhos e fábulas lado b que alimentam os sonhos dos literatos e amantes da música) que lançou o mistério típico das narrativas conspiratórias do Marcos Peres.
  
Luigi Ricciardi e Alexandre Gaioto
              Essa história toda sobre o possível show do João Gilberto em Maringá e o mistério que o cerca foi uma boa cartada do jornalistinha. A partir daí todo mundo resolveu escrever. O já citado Peres fez mais uma de suas boas histórias, citando-me inclusive, assegurando que eu teria dito que tudo não passava de uma tentativa alemã de conquistar o Brasil – como se já não bastasse a Copa do Mundo do ano passado.
Fiquei na moita esperando as versões, que tiveram seus próprios méritos, todas muito bem escritas. Nessa brincadeira, o Reginaldo Dias escreveu um dos melhores textos de sua carreira, segundo dizem. Houve versões também do Victor Faria e do Wilame Prado, Jary Mércio. Esperei algo memorialista do Oscar (de uma história desmemorizada), mas fez bem: ameaçou processar o Gaioto. Alguns dizem que o jornalista recebeu inclusive telefonemas anônimos com ameaças de morte. A ironia ácida do Ademir Demarchi se fez presente. Fiquei na expectativa de uma versão que contivesse algo relacionado ao Grêmio Maringá ou uma atmosfera noir, mas o Nelson Alexandre não se pronunciou, assim como o Marco Hruschka, de quem esperava um soneto petrarquiano ou, pelo menos, alguma máxima facebookiana. Com o André Simões já é mais difícil competir, o rapaz é devoto de São João del Gilberto (mais que de Brian Wilson?). Em uma mesa de bar, encorajei o Zé Flauzino a entrar na peleja. Sinalizou positivamente, mas desistiu em seguida – tinha dois manuscritos de futuro prêmio Nobel pra corrigir. E cadê a versão “em bordel” da Bruna Siena? De qualquer forma, mesmo que alguns não se pronunciassem, a história tomou enormes proporções.
                Achei que com a repercussão o resto do estado se interessaria. Fiquei esperando o Miguel Sanches Neto se pronunciar, resgatando algum fato histórico ou dizendo que fora tudo conspiração neonazista. Dalton Trevisan, caso decidisse entrar na brincadeira, diria que era culpa da Polaquinha, oh Glória, que frequentava o Santo Inácio. Aquela que, todos os dias, ao sair do colégio, como diz o Gaioto, prosódico maior de seu mestre, dava lambidas na melhor raspadinha da cidade. “Oh raspadinha do Santo Inácio”.  A vizinha Londrina fingiu que não era com ela – jamais daria corda para histórias inautênticas de uma terra cujo sol brilhava menos que lá.
"Coxinhas" de Bueno de Andrada
                Eu já nem lembrava disso tudo, estava focado no meu doutorado cuja vaga veio a muito custo. Uma vez por semana eu pego minha uma mochila, boto uma muda de roupas e alguns livros e vou para Araraquara estudar. Isso vai durar ainda alguns anos. Passo algumas horas na casa de um amigo que mora perto do campus, antes de ir e depois de voltar das aulas. Em um desses dias, num fim de tarde, ele me convidou para ir a Bueno de Andrada, distrito ali perto, para comer as famigeradas coxinhas de frango.
                Imediatamente me lembrei do Ignácio de Loyola Brandão dizendo, quando estava de passagem por Maringá, que a melhor coisa da sua terra eram as coxinhas. Fomos lá provar. A fila era imensa e a coxinha deveras saborosa. Minutos depois de me saciar, vejo um alvoroço no boteco: era o próprio Ignácio de Loyola que chegava para provar do prato regional. Estava de passagem pela cidade e não deixaria de degustar a iguaria. Foi atendido de pronto, com duas coxinhas e uma cerveja trincando. De imediato quis falar com ele. Os primeiros momentos foram dificílimos, todo mundo queria chegar perto do filho ilustre da cidade. Fui paciente e esperei. Por sorte, eu estava lendo o Zero e levei o exemplar para que ele o autografasse com o intuito de bater um papo com um ídolo, de pedir conselhos de um escritor canônico a um escritor iniciante.
                Quando me toquei estava sentado na mesa com ele e mais umas dez pessoas, falando de musas do cinema dos anos sessenta e cantoras de rádio – eu não conhecia quase nenhuma delas. Ele me perguntou de onde eu era, e quando eu respondi Maringá ele ficou animadíssimo. Disse que tinha passado pela cidade umas dez vezes (a primeira vez nos anos 1960, algumas outras nos anos 1970), que adorava as avenidas largas, as árvores e era louco por uma mulher – como era mesmo o nome daquela dama que fica todas as noites ali na frente das Lojas Pernambucanas?
                Disse que teve uma paixonite avassaladora por ela e que lhe fizera várias propostas de casamento. A dama recusou todas para continuar no ofício. De repente toca João Gilberto no rádio. Pra machucar meu coração. Então me lembrei da história do Gaioto e quis brincar: Por acaso você não esteve no show dele lá em Maringá, esteve? Sua expressão anuviou-se. Que show? Perguntou-me. O mais famoso que fez por lá, eu respondi, ainda brincando. Então ele me encarou por uns dois minutos, incrédulo. Sua voz parecia sair das profundezas quando quebrou o silêncio: rapaz, eu estive lá sim, mas se quer preservar sua vida, não mexa nunca mais com isso, isso foi há muito tempo e ninguém tem o direito de resgatar esse passado. E não falou mais comigo. Deu papo a uma senhorinha que vinha com o País Nenhum para autografar, pediu a saideira, bebeu-a praticamente toda, já de pé, e partiu.

Bar do Zinho
               Comecei a acreditar que tinha alguma verdade nessa farsa. Fiquei pensativo e meu amigo não entendeu nada do que estava acontecendo. Comecei a beber compulsivamente e quase perdi o ônibus por estar fora de mim. Tinha sido mordido. Agora eu teria que descobrir tudo. Não dormi aquela noite no ônibus e trabalhei mal o dia seguinte. Liguei para o Gaioto que me disse para esquecer isso, que não valia mais a pena. De madrugada eu liguei para o Peres, sabia que ele estava acordado revisando os originais do novo livro. Foi soturno e disse para eu procurar o Irineu de Freitas, pois só ele descobriria a verdade. Fui à delegacia e ninguém o conhecia. Liguei pra Santos para falar com o Demarchi, que não gostou da minha ligação naquele horário e me chamou de poetinha americanizado.
                Saí para beber e encontrei uns malucos que fumavam maconha. Passei um tempo bebendo vinho barato com eles e contando as várias versões dessa história. Acharam-me louco. Fui embora sozinho e ainda obcecado. No feriado, fui para Araraquara, dois dias antes da minha aula. Era uma tentativa desesperada de encontrar alguém próximo ao Ignácio, para tentar arrancar dele alguma informação sobre o show do João Gilberto, mas só esbarrei em histórias sem nexo. Fui parar no Bar do Zinho, onde, dizem, as coisas acontecem por lá. Eu já estava bebendo há mais de vinte e quatro horas com alguns intervalos para cochilos rápidos e vômitos no banheiro. Foi quando eu encontrei um colega da UNESP. Contei-lhe toda a história. Literato que é, aconselhou-me: rapaz, ligue pro Sérgio Sant’Anna, ele deve saber de algo.
         Eureca! Como eu não tinha pensado no Sérgio antes? O cara que tinha escrito O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. Ele deveria saber de algo. Não tinha o telefone dele, mas tinha o contato do André Sant’Anna, que, de passagem por Maringá, passou o telefone pros metidos a escritor da cidade: quando quiserem. Peguei o celular, saí do bar e liguei para ele. Ainda não era meia noite. Atendeu-me com voz de sono. Não fiz muita cerimônia. Apresentei-me e contei toda a história, que ele ouviu em silêncio. Se acreditasse em mim, seria fácil de chegar ao pai dele. Esperou que eu falasse tudo para então vociferar: Você nunca mais me ligue pra falar disso senão eu te processo. Isso começou com aquele seu amigo maluco. Vocês estão mexendo onde não devem. Não vá atrás do meu pai e diga àquele seu amigo “Gaiato” que ele me paga. Desligou deixando um zunido no meu ouvido.

Kubitschek Bar e sua Noirceur
      Voltei para o bar e o Luis me grita: Luigi, caramba, hoje tem show cover aqui no bar, o show é do Jotagê, cara, dizem que ele foi amigo muito próximo do João Gilberto. Mas eu já tinha perdido as esperanças. O cara chegou, começou a tocar e eu em direção ao coma alcóolico, tentando beber o que restava no bar. O Luis tomou a liberdade de falar com o Jotagê no intervalo. Eu já estava pagando a conta para ir embora quando um soco me acertou o olho esquerdo em cheio. Você é o imbecil que tá vindo atrás de coisa antiga? Rapaz, se você não sair daqui logo eu te arranco os olhos fora. Não mexa com o João Gilberto, ouviu? Senão ele acaba com você, disse o Jotagê.
                Contei tudo isso ao Gaioto quando voltei, tomando uma cerveja entre músicas de videokê no Kubitschek. Perguntei o que ele achava, quais eram suas fontes, de onde ele tinha tirado tudo isso.
                Não falarei mais sobre isso, Luigi, vamos parar antes que alguém morra. E pra falar a verdade, já está mais para um Samba de uma nota só.



Fui beber para esquecer toda essa história

20 fevereiro, 2015

ELEFANTE BRANCO

Conto publicado no livro Anacronismo Moderno (2011)


ELEFANTE BRANCO
 Luigi Ricciardi
Da Ida

            O lume alto tocava levemente os olhos de Abel quando seu pai, Adão, o chamava para o despertar de mais um belo dia no jardim do Éden. Abel levantou com muito custo, afinal, no dia anterior, tinha permanecido até boas horas da noite em torno da fogueira, a ouvir Deus falar e contar algumas histórias futuras. Dizia ele que teria um filho, e que ele seria o maior orgulho de toda a humanidade. Tanto Abel, quanto Caim estavam encantados com a retórica divina e curiosos para saberem o que se passaria fora de seu habitat. Contudo, os dois jovens meninos, que nesta época não passavam dos quinze anos de idade, não suportaram o peso que vinha sobre seus olhos, e acabaram adormecendo, deixando a conversa para os adultos, a saber, Adão, Eva e Deus.
            Adão precisou chamar seu filho três vezes seguidas, só assim conseguiu tirá-lo do semi-despertar matinal. Foi lavar o rosto no lago, e notou que estava mais homem. Ficou contente e sorriu para si mesmo nas águas límpidas celestes. Enrubesceu sozinho quando se lembrou da noite em que teve um sonho com mulheres. Deitado e com uma sensação de formigamento em todo o seu corpo, Abel via uma mulher sentada em cima de suas pernas a mexer seu corpo freneticamente. Na manhã seguinte, Abel acordou com um líquido espesso entre as pernas e foi correndo se lavar no rio. Não contou a história a ninguém, mas se lembra muito bem do leve sorriso que Deus lhe dirigiu horas depois ao passar por ele no campo onde as ovelhas comiam.
            Depois de tomar o desjejum com sua família, Abel se dirigiu ao manuseio das ovelhas, enquanto seu irmão Caim foi cuidar da terra para o plantio de algumas sementes. Abel era um menino até certo ponto inteligente e obediente, mas naquele dia, trabalhando debaixo do sol escaldante que castigava os jardins celestes, ele sentiu uma incontrolável vontade de conhecer outros lugares. Não conseguia parar de se lembrar das histórias contadas por Deus na noite anterior. Não se sabe se pela noite mal dormida ou por outra razão, Abel se sentia cansado, e por várias vezes durante o dia perdeu o controle de suas ovelhas. Achou, de repente, todas as coisas difíceis. Notou que para comer, ele tinha que empunhar uma adaga e matar a ovelha. Viu que, para comer as frutas, era necessário que seu irmão Caim plantasse as sementes e as regasse durante muito tempo. Sentiu certa indignação quando as gotas sudoríficas escorreram por sua face e salgaram seus olhos. Não havia jeito de abrandar os raios desse sol? Não haveria jeito de facilitar as coisas? Morava-se ao lado do criador do mundo e eles precisavam ter que passar por certas privações? De repente, viu-se largando o trabalho e indo ter com Deus.
            Chegando à região mais celeste do jardim, onde Deus habitava, Abel avistou-o de longe, e o viu recostado ao seu trono, com os olhos fechados. Devagar, Abel se aproximou e tocou seu criador no ombro:
            - Deus, o senhor está dormindo?
            Assustado, Deus dá um salto, quase deixando cair seu cajado. Esfrega bem os olhos e avista o seu preferido.
            - Olá, Abel. A noite de ontem foi longa não? Como as coisas estão na ordem acabei adormecendo um pouco. Mas me diga, o que te traz até aqui?
            - Senhor, venho lhe dizer uma coisa. Estou um pouco descontente.
            - Com o quê, meu filho?
            - As coisas são todas difíceis. Eu tenho pena dos animais que morrem, temos que empunhar uma flecha ou uma faca para tirar-lhes a vida. Para poder comer outras coisas, temos que plantar as sementes e regá-las, sem falar no sol escaldante que nos abrasa as faces todos os dias
            - Assim é que as coisas são, meu filho. O que quererias que eu fizesse?
            - Estendesse a vossa destra e facilitasse tudo.
            - As coisas funcionam diferente, Abel. O homem deve comer do fruto do seu próprio trabalho. Deve enfrentar as intempéries com seu suor e força. As facilidades trazem comodidades que não são coisas boas para o homem. O futuro o dirá.
            - A mim? Creio que até lá, Senhor, já não terei olhos para ver.
            - A cada um, dou-lhe o tempo necessário de vida, confie em mim, Abel, não precisará de tais comodidades.
            Abel silenciou por alguns segundos e depois fez o seu pedido:
            - Senhor, vós que tendes o poder de criação, de ver o futuro e determinar o destino das coisas e das pessoas, a vós faço um pedido: eu gostaria de ver o futuro, este com todas as facilidades e comodidades, as quais a mim me foram privadas por eu ter nascido em tempos longínquos na história da humanidade. Só assim, Senhor, como vós dizeis, poderei eu dar valor a essas dificuldades que enfrentamos na lida diária, só conhecendo essa tal época em que as coisas não são como aqui.
            Deus admirou a inteligência do menino, fitou-o por alguns segundos, e, como tinha um bom coração, deu a sentença:
            - Está bem, meu filho. Irás e ficarás por seis dias. Assim como eu criei o meu nesse período, tu criarás o teu próprio mundo e tua própria opinião. Mas voltará mais velho, esses seis dias serão como anos, voltarás homem. E dou-te o poder de escolha. Queres ir à época em que meu filho viverá entre os homens, ou queres ir à época que precede o juízo final?
            - Não sei ao certo, Senhor. Os números me confundem, e não conheço da história vindoura. Creio que por volta de dois mil anos após vosso filho ter descido à terra.
            - Boa escolha, meu filho. Irás conhecer exatamente o que queres.
            Deus, com a sua destra, tocou as mãos do garoto, e com um sopro na face, mandou-o para o futuro desejado.
            Ali perto, podia-se ver um certo movimento, era Caim, que se escondia atrás das árvores e escutar a conversa entre Deus e seu irmão. Sentiu-se irado por não ter procurado Deus antes, porque desejava lhe fazer o mesmo pedido.


Da Vinda

            Seis dias mais tarde, enquanto Adão cuidava das ovelhas, Abel apareceu por trás das árvores limítrofes do jardim. Adão deixou cair o cajado, também o seu queixo, ao ver o filho, homem feito, regressando de sua viagem futurística. Foi em sua direção para dar-lhe um tenro abraço de retorno, mas Eva, mãe saudosa, foi mais rápida, correu à frente de Adão, saltou ao pescoço do filho enchendo-lhe de beijos. Deus, que por ali passava no momento, deixou escapar uma alta gargalhada, dessas que fazemos nos momentos mais felizes da vida, e foi ter com a família que recebia seu filho pródigo. Cansado, Abel não quis conversar sobre o que viu e viveu. Quis banhar-se no rio e repousar um pouco. Ficou acordado que, à noite, iriam se encontrar à volta da fogueira, para confraternizarem, e para que Abel pudesse contar os caminhos de sua jornada. Caim não apareceu na recepção de seu irmão, e nem apareceria para ter com os outros na ceia.
            Quando soube da partida do filho, Eva, furiosa, foi ter com Deus, para saber se, ao menos de passagem, tenha passado por sua cabeça que seria irracional uma mãe ser apartada do filho como ela fora. Olhando bem nos olhos do criador, Eva lançou-lhe a questão na qual vinha pensando no caminho. Deus que já não lhe tinha muito bem desde o episódio das maçãs, fitando-a bem, disse-lhe:
            - Mesmo sendo Deus, aprendi uma coisa com Abel: os filhos precisam conhecer o mundo para assim crescerem, precisam conhecer o mal para aceitarem fielmente o bem. E para isso precisam viver. Eis a cobra a morder-te o calcanhar, Eva. O teu e o de todas as mães.
            Quanta dor Eva sentiu ao ouvir tais palavras, mas achou-as sábias, e calou sozinha sua dor. Agora, sentada ao lado de Abel em volta da fogueira, mal pode acreditar que ele estava de volta, claro está que foram apenas seis dias, mas a dor da primeira mãe da história a ver longe seu filho era grande, ainda mais por não ter tido exemplos anteriores para comparação. Mal sabe ela que será, em breve, a primeira mãe a ter de ver o filho morrer antes de si.
            Abel tem o semblante pensativo. Está visivelmente mais maduro, mas conserva um olhar triste e distante, mesmo na companhia dos pais. Comiam alguns grãos e frutas colhidos por Adão no fim da tarde. Ele estava sorridente, assim como a mãe, mas por dentro se questionava porque Caim não estava com eles, e porque Abel estava tão compenetrado em seus pensamentos.
            Então Deus resolveu quebrar o silêncio de Abel:
            - E então, meu filho, conte-nos como foi sua visita ao futuro. O que nos traz de bom, ou o que viste que deve ser partilhado entre nós?
            - Senhor, se sabeis por que me perguntais?
            - Em verdade, conheço todos os fatos da história. Desde antes da criação do mundo até o fim dos tempos, e o que virá após isso. Todavia, há coisas que devem ser contadas por experiências humanas, por esses que vivem efetivamente a história, que sentiram as felicidades e as dores na própria pele. Sou apenas Deus, meu querido Abel, não prives teu criador dos fatos que viveste, agradaria a todos que nos contasse.
            Abel pensou fugazmente, e vagarosamente suspirou antes de começar a contar sua epopéia.
            - Tudo o que vi é diferente. À época na qual fui mandado, quase nada corresponde ao que se vive aqui, e tudo isso que vemos aqui não existirá no futuro. Acontecerão desgraças em quase todas as épocas. Vi muitas delas onde fui, e de outras tantas soube por terem me contado. É fato que, em meio às balburdias vistas nos séculos que precedem essa era a qual descrevo, pôde-se desfrutar de uma bela sombra debaixo de uma árvore centenária, que se pôde ver a singeleza de um amor espreitado pelos buracos dos muros. Mas os impiedosos atentados contra o ser humano eram constantes. Ó, Deus, matarão muitos em vosso nome, por pessoas que dirão conhecê-lo, em guerras contra outros deuses que aqui desconhecemos. Muitos foram mortos somente por não conhecê-lo, ou crerem em outro Deus que não fosse o Senhor. Outros morrerão somente porque terão uma cor de pele diferente, ou porque falarão alguma coisa incompreensível, resultado da confusão das línguas. Ou seja, ser diferente no futuro é motivo para derramamento de sangue.
            “Mas vi outras coisas que de fato me assustaram. Criarão uma ordem religiosa, que se dirá enviada por vosso filho, que levará vosso conhecimento às pessoas do mundo. Pois bem, dessa dita instituição se desmembrará uma ou duas, e delas outras tantas, infindas que já não se poderá contar. Elas recolherão doações dos fiéis com o propósito de ajudar os necessitados. Eles imporão suas insígnias com poder e construirão castelos, palácios e igrejas de ouro. Tudo em vosso nome, ó Pai.
            “Vi pessoas morrerem magras, quase descarnadas, sem alimento. Viam-se-lhe os ossos, não era muito difícil logo ver lhes as próprias entranhas. A humanidade criará uma coisa chamada dinheiro. Com ele adquirirão coisas para si, e quanto mais dinheiro, mais posse e poderes. Roubos, mortes, assassinatos, chacinas, enganos, traições, mentiras, seqüestros, todas essas são palavras que serão intensificadas ou criadas a partir da criação do dinheiro. Ele passará a dividir a atenção convosco, Senhor. A maioria não o chamará assim, mas muitos o considerarão um deus, assim como vós.
            “Conheci rios torpes, negros de sujidade, podres de consciência humana. As pessoas farão suas necessidades neles, depois beberão a água, sem contar naqueles que jogarão qualquer tipo de coisa que já não lhe sirva mais dentro das águas. Haverá epidemias, doenças inúmeras, que dizimará populações inteiras, algumas delas criadas pelo próprio homem. Terras serão disputadas e o número de guerras também será incontável. Mas o deus do futuro, o dinheiro, protegerá aqueles que o tem. Quem não o tiver irá morrer primeiro, nas guerras inventadas por aqueles que o possuem.
            “O homem se modernizará. Trocará a flecha pela bola, e as paisagens vistas da montanha por pinturas na parede. Mas o princípio será o mesmo. Ao invés de caçar para satisfazer sua fome, pagará que o façam por ele, porque ser civilizado diz ser contra a morte e o sangue. Sua própria vida lhe interessará pouco, preferirá ver através das telas psicodélicas uma casa com câmeras e pessoas que conversam sobre as relações interpessoais.
            “Os passeios pelos jardins serão démodés. Matarão os animais, as árvores, as florestas e tudo o mais que a natureza lhes deu. Criarão um trem de cores e vidros que traz a felicidade em calçados, mantas e utilidades. Inventar-se-á um aparelho que pode unir pessoas de países diferentes e que poderá trazer a comida até seu próprio lar com uma simples ligação. O homem elegerá outros homens para cuidarem de seus interesses. E esses em incontáveis vezes darão aumento a si próprio, claro está por serem os responsáveis da ordem da nação. A população aprovará tudo sorrindo para os écrans.
            “Ver-se-á a repetição maquinaria dos dias que se passam e se copiam. Haverá em todos os cantos, usinas, indústrias, empresas, fábricas, construções, sociedades que criarão, aperfeiçoarão e venderão a felicidade. Cada qual terá suas preferências, e as compras vão cada vez mais crescendo, chegando a um estágio super mecanizado de robôs inconscientes.
            “Todos os dias, beberão o cálice da amargura e farão suas ceias fartas diante dos écrans hipnotizadores das salas. O ser humano desenvolverá uma capacidade para a não comunicação. Durante a exibição dos movimentos nas telas, o ser humano será tele-apático, e mudo.
            “Por vezes ou outra, a raça humana será tomada pelo pânico. Guerras, epidemias desconhecidas e ondas gigantes ameaçarão sua existência. Desordenadamente eles correrão às igrejas pedindo perdão a vós, e prometendo serem mais caridosos se o perigo não os atingir. No fim, agradecerão por terem sua vida poupada vendo os problemas humanos pelas telas das salas mudas.
            “Mas isto que parece existir, o que se chama existência, nada mais é do que seu oposto. Esta coisa, que é uma inexistência, e que mora no mais recôndito dos seres deste tempo é sonolenta. Talvez deixar de fazer parte deste mundo tenha suas vantagens, talvez seja mais confortável encarar a eternidade nula”.
            O rapaz terminou seu relato e abaixou o olhar em direção à fogueira, olhando para qualquer lugar além dela. Os pais de Abel estavam boquiabertos com os relatos do filho, e não sabiam se ficavam orgulhosos pela sua sabedoria, ou desorientados com os relatos futurísticos. Mesmo sem entender boa parte dos termos utilizados pelo filho, sentiram certo pavor pelas experiências de Abel.
            Deus, que deixou seu pupilo contar-lhe tudo sem interromper em nenhum momento, um tanto quanto tenso, mesmo sabendo de antemão todos os fatos relatados, resolveu perguntar a Abel:
            - E você, Abel, o que acha de tudo isso?
            “No início, quando vós vistes o mundo sem forma, no tempo em que o espírito pairava sobre as águas inabitadas, creio que vós não imagináveis a que ponto tudo o que criaste pudesse se transformar no mundo que se enfrentará amanhã. Quando o Senhor criou e viu que o criastes era bom, mal sabíeis do erro que cometereis pondo a mão sobre o barro para criar a isso que se chama homem, e que no futuro não terá nem o direito de assim se chamar. Tudo isso não passa de uma fantasia. Porque o que foi prometido está tatuado de elefante branco, mas é elefante morto. No futuro, descobri que Tomé era o mais santo dos apóstolos.
            Dizendo isso, saiu da companhia deles e foi deitar-se. Sem saber o que fazer, seus pais fitaram Deus que se levantou bem devagar, e foi saindo sem se despedir. Antes de desaparecer por completo, ainda puderam ouvi-lo suspirar e dizer:
            - Ainda bem que ele não escolheu o ano 3000.
            Ali bem perto, por trás das árvores, bem escondido, estava Caim, que ouviu todo o relato de seu irmão. Seu ódio por ele aumentou ainda mais após ouvir seu discurso, queria ter sido ele a ver todas as artimanhas do futuro. Sendo ele o primogênito, quereria ter tal privilégio que lhe foi negado. Portando uma adaga, só esperava que seus pais fossem deitar e que Deus fosse dormir em seu trono adornado para que pudesse visitar Abel e fazer o que há algum tempo lhe passava pela cabeça.