31 dezembro, 2008

A LUA




 Olá....

Obrigado a todos pelos comentários, fico contente de estarem gostando dos textos...

Estou postando hj o conto " A Lua", escrito em julho de 2006. Esse texto representa muito pra mim exatamente por ser o meu primeiro conto, e, assim, a porta de entrada para as narrativas, campo que me metia medo só de olhá-lo de soslaio. Mas a partir daí venci o medo e me identifiquei muito mais com as narrativas do que com a poesia (em se tratando de criação literária, de minha produção).

Feliz 2009 para todos... e que a lua ilumine os passos nas suas caminhadas noturnas hauahauah

Abraços!

A LUA

            Ele levantou a mala. A partir desse momento uma avalanche de pensamentos horríveis tomou conta de mim. O futuro após sua partida era a certeza do incerto. Nada do que vivemos valera à pena? Será que o calor do meu colo não fora suficiente? As noites loucas de amor que tivemos nada significaram? Será que um dia ele voltaria? Será que tudo teria cura? Mesmo que voltasse, será que as coisas estariam do mesmo jeito que ele as deixou? Ainda nos amaríamos? Seria tão intenso como foi? São perguntas sem resposta.

            Era inútil tentar me convencer de que poderia me apaixonar novamente. Quem neste mundo poderia compreender totalmente os anseios e desejos de minha alma como ele? Lia meus pensamentos, tinha sonhos como os meus, desejava ardentemente viver um amor intenso, louco e doentio. Era tudo o que eu precisava. Aqueles meses compartilhados sobre o mesmo teto me fizeram acreditar que o amor era real, e não apenas histórias dos livros. E logo eu, que sempre vivi preocupada com o futuro e me esquecia de viver o presente, consegui, ao lado dele, parar o tempo como se vivêssemos em um lugar atemporal, onde tudo estava a nossa mercê. Controlávamos tudo: as cores, as coisas, os sentimentos, as canções, o andar da vida. Éramos nossos próprios deuses. Erguemos nossos altares e pagamos tributo a nós mesmos, era a nossa profissão de fé. Entregávamo-nos loucamente em ritos loucos e longos de amor em nossa cama, nosso altar sagrado.

            Enfim, era chegado o momento que eu sempre temi. O momento mais solene, a partida. Sim, a partida é o momento mais solene da humanidade. Solene e triste. É quase um rito. O leitor com certeza me questiona: mas a morte não seria o momento mais triste e os ritos fúnebres os mais solenes do ser humano? De jeito algum, pois, nunca poderemos evitar o fim, a morte não tem remédio, mas, a partida sim, a partida de um grande amor, essa podemos evitar que um dia ela chegue. E se ela chegar é porque houve falhas, ou, nossos sonhos tomaram um rumo diferente. E é isso que a torna tão solene e triste.

            Descendo as escadas, não consegui falar nada. Queria pedir pra que ele ficasse, queria dizer o quanto eu o amava, que ele não precisava ir embora, que ele não podia ir embora desse jeito e esquecer tudo. Mas não consegui. Revivi cada instante das centenas de dias que vivemos juntos em apenas alguns segundos. Lembrei de cada coisa que fizemos juntos: as risadas, os beijos apaixonados, as guerras de travesseiros, os filmes, os vinhos, as noites em claro vivendo uma paixão surreal.

            Na entrada do prédio, ficamos parados por um instante, frente a frente, sem que nossos olhares se desviassem. Vi a dor nos seus olhos, e percebi no seu íntimo que ele ainda me amava, contudo, realmente precisava partir. Não resisti: lancei-me em seus braços e meus olhos traduziram concretamente o que o meu coração já sentia. Chorei, chorei como uma criança, porém não disse sequer uma palavra. Ele também não falou. Beijou-me serenamente na fronte e depois minha mão. Disse adeus, pegou sua mala e partiu. Não olhou pra trás. Talvez para não chorar como eu e não voltar correndo arrependido. Fiquei ali durante horas, parada, olhando para a esquina, esperando algo que não aconteceria: o seu retorno.

            Já anoitecia. As folhas e as flores sacudiam com o vento. Havia uma sincronia incrível naquela dança. Não sei bem se elas cantavam unissonamente para me alegrar e me confortar, ou, se choravam tristemente compartilhando a tristeza presente em meu coração.

            Subi as escadas, num rito tão solene, triste e silencioso como a descida horas antes. Entrei no nosso quarto. Senti o seu cheiro. O perfume dele estava em toda a casa. Vi as escovas juntas como se elas se amassem, assim como seus donos. Vesti o seu pijama, para senti-lo mais perto e matar um pouco da minha saudade.

A noite avança e não tenho sono. Penso no futuro enquanto acaricio minha barriga. Sofro, sinto sua falta e não imagino como poderei amar novamente.

Entretanto, mesmo com esse sofrimento, preciso agora dedicar todos os dias da minha vida a outro propósito: ao ser que habita dentro de mim, descendente do homem que a noite levou.

            Olho para fora e vejo a lua. Logo depois, ouço, bem distante, um uivo.

21 dezembro, 2008

BRIGADEIRO


Olá a todos,

Ultimamente venho postando mais comentários meus sobre assuntos em geral do que textos. Hoje, último post antes do natal, faço ambas coisas.

Quem puder assistir ao filme “Vicky Cristina Barcelona” de Woody Allen por favor vá. É um bom filme, um dos melhores dos últimos meses. Em meio a uma comédia romântica discute-se temas interessantíssimos.

Outro filme que recomendo, este já mais antigo, é “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” que traz um ótimo elenco como Jim Carrey, Kate Winslet, Mark Ruffalo, Kirsten Dunst, Eliah Wood. Há muitas analepses e prolepses, ou seja, idas e vindas na fábula, mais conhecidos como flash-backs. A maior parte da trama se passa dentro da mente do personagem interpretado por Carrey que tenta apagar da memória o relacionamento que teve com Clemente, personagem interpretada por Kate Winslet, quem já fizera o mesmo processo. É um dos filmes mais inteligentes que já vi. Eu o re-assisti na madrugada passada, por isso estou indicando-o.

“A Viagem do Elefante” de José Saramago é o livro da vez. Não o terminei ainda, mas é um livro muito interessante. Quem ainda não leu Saramago está perdendo o melhor da literatura já escrita em língua portuguesa.

Como estamos próximo do natal, não vou fugir do clichê bem usado nesses tempos. Pedir paz. Independente da crença (ou falta dela) deixo o meu pedido à paz. A mesma paz de espírito que traz Jesus, Maomé, ou outro profeta, pregador, deus, ou filho dele deixa no coração das pessoas que neles acreditam. E que essa paz de espírito emane ao mundo e que possamos olharmos melhor para a natureza, sem destruí-la, olharmos para nós mesmos para identificarmos nossos erros, e, principalmente, olharmos para o outro como se fôssemos nós mesmos.

Bem, é isso, hoje vos ofereço um doce: posto o texto “Brigadeiro” do qual gosto muito. O doce é meio amargo, mas é o puro retrato dos nossos dias.

Cuidem-se. Beijos

Feliz natal, Merry Christmas, Joyeux Noël, Frohe Weihnachten, Feliz Navidad, Buon Natale, Vrolijke Kerstmis, Χαρούμενα Χριστούγεννα, С Рождеством Христовым, メリークリスマス, 繁體中文版



BRIGADEIRO

 Luigi Ricciardi

            Era uma vez Brigadeiro, moreno de seus doze anos. Foi o doce mais amargo que a vida já confeitou. Vivia sem procurar sentidos, sentindo na pele negra brancos dissabores. Desde o terceiro par de anos que tinha a lua como companheira e vivia à mercê das gotas de chuva. Perdera a mãe que pouco vira, do pai nunca se soube. Teve irmãos, que devem estar perdidos pelos morros, que por estarem mais perto do céu brincam de deuses com suas armas de Olimpo. Jamais os viu, inclusive os deuses.

            Zanzava o dia todo por entre as buzinas frenéticas no centro. Tentou muitas coisas na vida, chicletes, malabarismos, e balas. Nunca encontrou sorte por essas veredas, procurou outras, com insucesso maior.  E caminhava sertões de fome e seca na grande cidade engolidora.

Doía-lhe a fome, apertavam-lhe as costelas. Jejuava religiosamente dias. E nas horas do desespero tinha a visão turva, tinha tremeliques e se socorria nos galões de lixo comendo qualquer rato que encontrasse. Nessas horas não sentia cheiro, nem gosto, sua fome necessitava de outros poréns.

            Em seu mais recôndito canto, e não se sabia como, Brigadeiro cria não ser difícil existir, mas sim viver, com essa miséria nua e existência despercebida. Uma vez ficou horas do lado de dois senhores que conversam, a pedir gorjeta pela exibição de suas piruetas, enquanto os homens conversaram sem dar pela presença do menino. E com sua honra despida saiu a soluçar suas lágrimas de anjo escorraçado.

            Porém Brigadeiro também tinha amigos.  Fê-los nas andanças e desaventuranças de seu existir cataléptico. Brincavam de comer doces e de serem mágicos. Certa vez, nas brincadeiras inocentes, um dos amigos, com seu graveto-cetro de poder, tocou na cabeça de Brigadeiro, e o transformou em doce. Uma das meninas correu a lambê-lo, mas gritou com nojo ao tocar a pele suada do menino. Depois disse:

- Você não tem graça Brigadeiro, você não é doce, e não tem nada que te cubra.

            E naquele dia, aprontando-se para dormir nas gélidas calçadas defronte aos belos apartamentos da cidade, Brigadeiro, que procurava algo com que se cobrir, pensava, pensava e ficava sem entender o que a amiga havia dito. Nunca conhecera o doce, ou melhor, pelo menos achava que nunca tinha visto, já o vira sim, mas não associou o nome à coisa.

            Por vezes um passante caridoso dava-lhe moedas, ou mesmo algo para enganar sua peste. Sorria, o sol enfim das nuvens saía, e ele saía a correr. E então, no nirvana de sua tênue alegria procurava os amigos para dividir as migalhas que recebia, e todos alegres e contentes com seus estômagos quase inexistentes, mas cheios, partiam para as brincadeiras de fim de tarde.

            Os dias se passavam e Brigadeiro não conseguia nada com que se forrar, nem seu verdadeiro choro nas esquinas das lavadeiras ajudava a alma faminta. Via muitos carros passando, alguns tinham as janelas abertas, e as pessoas que estavam dentro ofuscavam sua vista com alguma coisa que colocavam nos olhos que mais parecia o próprio sol. E todos eles tinham os dentes brancos, a pele alva e os cabelos cheirosos e doces, porque Brigadeiro, mesmo com a distância, conseguia cheirá-los.

            Sentiu vontade, então, de comer doce, daqueles que vira, certa vez, vários homens preparando pela vitrine da padaria. Era um doce preto, preto como ele, feito em bolinhas com alguma coisa da mesma cor a cobri-los. Mesmo com a loja fechada pôde sentir todo o frescor da paz que exalava do chocolate vindo da padaria. Quis saber que nome tinha o doce, e nunca veio a saber que o doce se chamava como ele mesmo. E ali ficou, por minutos, Brigadeiro olhando brigadeiro. Eram parecidos na cor, iguais no nome. Mas o doce era o sussurrado aljôfar das confeitarias, e ele o surrado, o sofrido, o amassado produto da sociedade moderna. Foi a única vez em que se viram.

            Na noite fria e insensível, com a fome a arrancar-lhe gemidos, eis que passa um homem, de cabelos negros e pele com coloração parecida. Ao ver Brigadeiro sentiu pena, lembrou-se de quando era menino, e quanto a fome era um mistério para ele. Com o passar dos anos acostumara-se a comer menos e conseguia assim arrastar seu existir. Acabou por parar ao lado do garoto, e então lhe ofereceu metade de seu jantar, um bolo que achara nos fundos do supermercado. Brigadeiro nem conseguiu agradecer, seu instinto foi mais rápido, e sem sequer olhar o rosto do samaritano, devorou seus pedaços em pouco tempo, aliviando sua existência. O homem partiu, com o estômago cheio e a sorrir, lembrando seus tempos de criança.

            A noite esfriava cada vez mais, e Brigadeiro, de tão feliz que estava sequer se cobriu para dormir. O sono veio rápido, tão logo havia comido. E com um sorriso aberto nos lábios, Brigadeiro partiu, não se sabe em razão da grande quantidade de comida, ou pelo frio que a noite mandou. Acharam-no na manhã seguinte, ainda com o sorriso nos lábios e a pele levemente roxeada. Despediu-se desta confeitaria, onde foi, durante todo o tempo em que existiu, amassado, polvilhado, e porque não, muitas vezes assado, e no fim descartado.

            Foi uma vez Brigadeiro, o doce-amargo do existir inconsciente e do ser-não-ser desta terra não gentil.  

13 dezembro, 2008

A Insustentável Leveza do Ser

Nessas férias estou tentando atualizar meu acervo mental de filmes. Vi vários interessantes. Convém destacar e indicar alguns como "Um Sonho de Liberdade" com Tim Robbinson e Morgan Freeman. O filme recebeu 7 indicações ao oscar de 1994. Posso clássificá-lo sem medo como um dos dez filmes da minha vida até o momento. Vi outros interessantíssimos como o musical dark "Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet" com mais uma ótima atuação de Johnny Depp. "10.000 a.C" é um ótimo filme de guerra e com uma bela história. E pra fechar a parte sobre cinema gostaria de indicar (principalmente pra quem gosta muito de música ou é músico) o filme "Apenas uma Vez" de 2005, que venceu o Oscar de Melhor canção original "Falling Slowly" com atuações impecáveis e canções maravilhosas de Glen Hansard e Marketa Irglová.

Quanto a leituras, acabo de terminar "A Insustentável Leveza do Ser" do tcheco Milan Kundera. Pela fama que a obra tem eu esperava mais. Contudo, gostei do livro, fiquei com uma imagem boa dela ao fim, apesar de todas as catástrofes e mortes que vão acontecendo nele. Destaque para a singeleza de Karenin, uma cadela que alegra os dias da jovem Tereza, mulher que sofre desde a infância com as atitudes maternas, e que se casa com Tomas, homem que a ama, mas que tem um forte impulso à traição. Entre outras discussões, principalmente filosóficas, sobre a vida, a leveza e o peso do ser, o eterno retorno de Nietzche, a obra trata da ocupação soviética na antiga Tchecoslováquia nos anos 60. Vemos Praga desfigurada pela invasão dos vizinhos, e percebemos o ser-humano perdido em meio ao seu país desfigurado, sua rotina alterada, e consequentemente, a busca da compreensão do próprio ser, que de tão insignificante se torna leve, porém insustentável.

Termino com uma citação interessantíssima, que nos leva a refletir sobre o poder do ser-humano sobre os animais, digo, pseudo-poder.
Abraços


"No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os passaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas".

"Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: 'Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas', para que toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem atrelado à carroça de um marciano - eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via-Láctea - talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria então (tarde demais) desculpas à vaca".

Kundera, Milan - A Insustentável Leveza do Ser. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1983. Traduzido da edição francesa: "L'insoutenable Légérété de l'Être". Título original: Nesnesitelná Lehkost Bytí.

30 novembro, 2008

Ídolos, referências!


Salut...

Como disse Renato Russo, o brasileiro provavelmente é o povo que é mais devoto aos seus artistas prediletos. Creio que isso deve vir de uma carência muito grande no que se refere a um espelho a ser seguido, ou um norte que traça um caminho que sobrepasse por entre os rios de pedras que existem por aqui. Acredito que não sou diferente. Quando gosto de algo, mergulho naquilo para poder tirar tudo o que de bom oferece, principalmente em se tratanto de música e literatura. E estar um dia na presença daquele que lemos ou ouvimos, diante daqueles que tem pensamentos parecidos com os nossos ou nos sensibilizam com sua arte pode ser considerado um dos maiores sonhos. Eu teria a oportunidade de realizar esses sonhos nessa semana, visto que estavam no Brasil a minha banda favorita e meu escritor favorito. Isso mesmo tudo de uma vez. O Queen (agora com Paul Rodgers no lugar de Freddie Mercury nos vocais) fez show em SP e RJ esta semana. Mesmo sem o seu líder gostaria de ter visto Brian e Roger. Mas infelizmente não se nasce em berço de ouro para poder cobrir os gastos de uma viagem e ingresso. 
No dia seguinte José Saramago (para mim o maior escritor vivo e um dos maiores da história da  humanidade) lançou em SP seu novo livro "A Viagem do Elefante". Gostaria de ter ido ao menos para ver de longe o ídolo, mas não foi possível. Acho que fiquei meio calejado com os insucessos. Por isso não estou mal por não ter ido. Provavelmente é consequência da perda do show do Aerosmith no ano passado, no qual não pude comparecer devido ao esgotamento dos ingressos. 
Pois bem, como eu falei em Saramago vou deixar aqui o link da entrevista na íntegra que ele deu para a Folha de SP. Deixo também algumas frases marcantes de seus livros. Quem nunca leu não tem a mínima idéia de como a pessoa se transforma após ler seus livros. Dicas para leitura: "Ensaio Sobre a Cegueira", "Ensaio Sobre a Lucidez", "As Intermitências da Morte", "O Homem Duplicado", "A Jangada de Pedra", "Memorial do Convento", "O Evangelho Segundo Jesus Cristo".  
Au Revoir!!!!


“A morte é a suma razão de todas as coisas e sua infalível conclusão, a nós o que nos ilude é esta linha de vivos em que esta linha de vivos em que estamos, que avança para isso a que chamamos futuro só porque algum nome lhe havíamos de dar, colhendo dele incessantemente os novos seres, deixando para trás incessantemente os seres velhos a que tivemos de dar o nome de mortos para que não saiam do passado”. Jangada de Pedra

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". Ensaio Sobre a Cegueira

"Quem sabe se entre estes mortos não estarão os meus pais, disse a rapariga dos óculos escuros, e eu aqui passando ao lado deles, e não os vejo, É um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver, disse a mulher do médico". Ensaio Sobre a Cegueira.

“Quando regressaram, o acampamento parecia um lar, a fogueira confortava-se entre as pedras, o candeeiro pendurado da galera fazia para o espaço desafogado meia roda de luz, e o cheio da fervedura era como a presença de Deus Nosso Senhor”.  Jangada de Pedra


 

25 novembro, 2008

O FIM DA NOITE

 Bonjour à tous!

Quase não acredito. Hoje findaram-se os trabalhos universitários de 2008. Fiz uma apresentação sobre Roberto Drummond, contista contemporâneo, o autor de Hilda Furacão. Quem não o conhece e tem interesse em conhecer leia o livro "A Morte de D. J. em Paris". É um livro de contos totalmente experimental onde o homem moderno se vê perdido em meio ao estardalhaço de movimentos, cores, luzes, ações e marcas do mundo moderno. É o próprio reflexo de nosso tempo. Em uma primeira leitura pode-se estranhar, até porque ele dialoga com o fantástico (às vezes não se sabe se o que se passa é real ou imaginário), mas numa segunda leitura Drummond suga-nos a atenção e nos faz entrar em um universo caótico com pensamentos, sonhos, vontades e fluxo de consciência. É só aí que o homem moderno pode tentar ser feliz.

Hoje posto um texto escrito há algum tempo, creio que há um ano e meio no mínimo. Espero que gostem. Pessoal, dêem-me idéias para pôr aqui no blog, ok? Pra que não fique essa coisa massante de só haver meus textos. Quem escrever e quiser mandar eu publico numa boa, é sempre bom dialogar com textos de outros autores. 

Então, férias? Não sei se consigo. Lerei muita coisa nesses três meses de inatividade acadêmica. Saramago, Clarice, Juan Rulfo, Virginia Woolf, Helder Macedo, Gabriel García Marquez, entre outros já estão escalados para fazer a "viagem em torno do meu quarto" hauahaua. Se bem que tenho leituras do projeto, mas a crítica feminista é sempre prazerosa, a cada vírgula um novo aprendizado. 

Acabei de fazer uma nova compra de livros na internet, esse meu vício um dia pode acabar me matando. 

Agradeço as pessoas que estão visitando e/ou comentando meu blog. Agradecimentos especiais a Toni Teles, Nayara, Fernanda, Carol, etc.

  Abraços a todos, inté!

 

O FIM DA NOITE

É. Mais uma noite sem você. O dia terminou e o crepúsculo trouxe tua lembrança. Passei o dia te esquecendo, mas os ventos do infortúnio trouxeram fios de memória à tona, assim como passavas teus cabelos dourados em meus olhos quando me seduzias. E essa sedutora ventania me chama às lembranças sorridentes de teus olhos. E te vejo no retrovisor.

Peguei hoje meus amigos e fui, a contra gosto, a uma festa. Vi mulheres no vai e vem. Lembrei do teu corpo. Bebi garrafas. Uma mulher me chamou e tentei apagar tua lembrança em sua boca. Beijei-a e meu paladar teve um leve toque de sabor amargo de saudade. Lembrei dos teus sussurros nos meus ouvidos, do prazer que tinha eu em teu corpo. Por um momento acreditei estar te beijando. Olhei no rosto dela e não era você. Virei as costas e voltei para a mesa. Mais uma noite sem você.

            Já às tantas, resolvi ir embora. Chamei os amigos e dei carona a todos. Rimos muito no caminho, mas por dentro, o choro estava impregnado nas veias e nos poros.

            O último deles desceu e então as tortuosas luzes da madrugada iluminaram amarguramente o sôfrego caminho até minha casa. É. Mais uma noite sem você.

            Às vezes tento acreditar que amo a idéia de te amar, e não amar-te propriamente, e assim, o faria pelo medo da solidão. Não sei ao certo, sei que fazes falta, sei que agora não faço outra coisa a não ser guinar meu pensamento em tua direção. É mais uma noite sem você.

            Temo ter criado em meu peito um ser maior do que tu és, e creio que esperei muito mais do que poderias me dar. Mas foram momentos bons. Pena que a cumplicidade acabou como vela que se apaga pelo temporal do esquecimento. E dentro de meus pensamentos já crio um monstro que não és para tentar continuar a vida com o mínimo de amor próprio e débitos existenciais possíveis.

            Diga-me quais são os braços que hoje espremem teu corpo? Qual boca beija teus olhos? Adorava quando me dava um beijo molhado com sabor de fruta colhida no pé, com aquela cara de menina má e olhar de gata borralheira que só você sabia fazer, e viravas as costas para mim, como se nada tivesse acontecido, deixando-me com cara de bêbado apaixonado. Quando dei por mim estava chegando em casa. É, mais uma noite sem você.

            Guardei o carro, subi as escadas. Liguei o chuveiro, o dia amanheceu. Bateu-me o sono e ia fechando a janela quando senti o perfume pelo ar, inconfundível, e em meus ouvidos ouvi um gemido. Seria o vento da primavera a trazer-te de volta? A esperança renasce em meu peito feito semente em terra fértil.

            Um novo dia amanhece e não findará sem trazê-la para mim. Não haverá mais noites sem você, voltarás para mim. Ou então, os ventos do esquecimento te levarão e algo bom hão de me trazer, chega de noites a lembrar de ti, preciso viver. Vejo-te esta noite, beijos!

16 novembro, 2008



Olá...

Ando a reler "Jangada de Pedra" de José Saramago. Estou a recolher excertos da obra para uma breve análise. Entre tantos trechos interessantíssimos queria compartilhar aquele que Saramago se refere ao poeta e à poesia. Refletir-se-á sobre:

“Não falta por aí, nunca faltou, quem afirme que os poetas, verdadeiramente, não são indispensáveis, e eu pergunto o que seria de todos nós se não viesse a poesia ajudar-nos a compreender quão pouca claridade têm as coisas a que chamamos claras”. José Saramago em Jangada de Pedra, 278, 279. 


Destilemos poesia então! rsrs

Abraços a todos

14 novembro, 2008

AMOR DE INFÂNCIA

Salut à tous!

Posto hoje um texto pelo qual tenho muito carinho justamente pela inocência. Foi um dos meus primeiros textos, escrito há mais ou menos dois anos. Provavelmente não esteja no mesmo nível dos mais recentes, alguns deles já postados no blog. Contudo, é simples e singelo. Espero que gostem. Comentários de todos os tipos são bem vindos. Bem, é isso! Fim de ano chegando... alguém quer me convidar pra ir à praia? hauaha. Não vejo a hora dessas aulas acabarem... milhões de coisas pra ler... e eu aqui vendo os bastidores do show do Toto. Ainda me pergunto pq não segui a carreira de músico, ao menos é mais divertida auahauaah



AMOR DE INFÂNCIA

Tive na vida vários amores. Quantos corpos toquei, quantas bocas beijei, quantas noites de prazer! Sinceramente, não tenho contas e nem tenho do que reclamar. Dediquei minha vida aos amores, e eles a mim.
Contudo, apesar das noites incansáveis de amor, nenhum deles foi mais puro, mais mágico e mais sublime que o primeiro. Muitas pessoas se esquecem, com o passar dos anos, da primeira pessoa que amaram. Esquecem-se do primeiro brilho no olhar, da primeira vez em que sentiram sua respiração ofegante e seu coração batendo feito bateria de escola de samba tocando uma sinfonia de Beethoven. Você, leitor, consegue se lembrar do seu primeiro amor? Eu me lembro do meu e muito bem. E ele foi algo indescritível e que me faz, ao lembrar-me, voltar àquela inocente época de minha vida.
Tinha apenas doze anos. Levava até então uma vida normal. Levantava cedo, ia pra escola. À tarde, após ter feito a lição de casa, corria para a rua para encontrar os amigos e jogar futebol. Depois do futebol, sempre brincávamos de bola queimada, ou andávamos de bicicleta. Era uma vida compatível com a dos garotos de minha idade. Eu me sentia feliz.
Eis certo dia, em que eu estava saindo de casa e indo em direção ao campinho improvisado na esquina, encontro aquela que despertaria meus primeiros suspiros inefáveis, a criatura mais bela que eu vira até então. Eu já achava meninas bonitas, mas nunca me encantara por uma antes. Pelo menos não daquela maneira.
Ela virou a esquina, e foi subindo a rua. Andava de bicicleta. Seu cabelo sacudia e balançava com o vento. Na medida em que se aproximava, ela diminuía cada vez mais as pedaladas. Olhava para mim com a mesma intensidade em que era olhada. Tal cena, até então, eu só vira em aventuras cinematográficas. Ficamos alguns segundos boquiabertos e com os olhares atônitos. Nenhum dos dois ousava tirar o olho de cima do outro. Era uma magia que eu não sabia, e até hoje, não sei explicar. Alguns segundos me fizeram saltar da infância para a adolescência. Eu estava apaixonado, era amor à primeira vista.
Fui logo perguntar para os meus amigos quem era o tal anjo. Responderam-me que era uma vizinha nova, e que seu nome era Maria Angélica.
Fiquei encantado, não conseguia nem dormir nas noites seguintes. Não me concentrava nas lições no colégio. Ficava pensando na voz dela. Voz que eu nunca ouvira. Deveria ter uma voz de anjo que sussurrava canções celestiais nos ouvidos dos reles mortais. Mas também eu estava preocupado: como que eu, um simples menino que vivia sendo reprimido pelos amigos por ter o nariz sempre escorrendo, que era o último a ser escolhido no time de futebol e que sempre fora alvo de piadas, conseguiria me aproximar da bela criatura? Era quase uma utopia imaginar que eu teria chances com uma divindade como aquela.
Os dias foram passando e eu não a via mais. Até que um dia, fez amizades com algumas meninas e foi brincar com elas em frente à minha casa. Quando a vi novamente fiquei estático como se tivesse sido hipnotizado. E ela estava lá, me olhando da mesma forma.
Voltei à realidade quando meus amigos me gritaram para jogar futebol. Eu, que já não era muito habilidoso com a bola nos pés, consegui me superar negativamente naquele dia. Não conseguia jogar sem olhar para o lado e contemplar aquela beleza.
Em uma tarde, fomos apresentados oficialmente. Transformei-me em um tomate, tamanha vergonha que senti ao tocar as mãos daquela princesa. E ela realmente tinha uma voz angelical.
Fomos todos andar de bicicleta. E como eu não tinha muito pique, fui ficando para trás, e ela também, não sei se por não conseguir acompanhar o pelotão, ou para assim ficar perto de mim. Para minha alegria, ela começou a tecer alguns comentários sobre: “nossa, como o dia está bonito”, ou “que legal! Tua bicicleta é novinha”. Acabamos ficando amigos.
Todos os dias, ao chegar da escola, fazíamos a lição rapidamente para poder ter mais tempo livre para nossas descobertas. A sua companhia era maravilhosa. Andávamos de bicicleta pelas ruas e parques. Conversávamos coisas de adolescente, como: escola, música, brincadeiras, entre outros. Não falávamos sobre o que sentíamos um pelo outro. Eu morria de vergonha. E até então não acreditava que ela poderia sentir o mesmo por mim.
Tempos depois, uma amiga veio me dizer que Maria estava apaixonada por mim, mas não sabia como dizer. Foi o dia mais feliz da minha vida. Comecei a enxergar o mundo diferente. Tudo para mim era belo. Nada mais me incomodava se eu estava ao seu lado.
Um dia, próximo das seis da tarde, hora em que os pais começam a recolher os filhos para dentro de casa, acabamos ficando a sós na rua. Meu pai já havia aparecido na janela para me chamar. Então eu disse a ela:
- Tenho que ir.
Ela com um olhar triste disse-me:
- Que pena. Mas amanhã te vejo?
Não respondi. Não sei de onde tirei coragem. Aproximei-me e toquei meus lábios nos dela. Um torpor fez tremer todo o meu corpo, e meus pensamentos se desconfiguraram. Doce, perfeitamente doce era o gosto que brotava de seus lábios. Segundos? Minutos? Nunca soube quanto tempo durou aquilo. Sei que minha primeira experiência oscular jamais deixou de habitar meus pensamentos. Ao despregar meus lábios dos seus, percebi que ela ficou com vergonha, e eu, que também estava, não consegui deixar de demonstrá-la. Em um súbito comportamento infantil, virei as costas e corri pra casa.
Aquela noite foi especial. Ao tomar banho, tomei cuidado para não molhar minha boca, não queria perder o seu gosto. Fiquei deitado sem dormir durante horas, relembrando nosso estalar de lábios, e fazendo planos para o futuro.
Mas, minha falta de coragem impediu-me de conversar com ela sobre meu sentimento. No dia seguinte ao beijo, continuamos como antes, como amigos. Não trocamos palavra a respeito do acontecido. Continuamos andando de bicicleta, brincando de bola e conversando sobre as mesmas coisas. Todo mundo da rua já sabia do nosso amor e do beijo que havíamos nos dado. Só nos faltava a coragem de nos assumirmos um para o outro. E assim passamos meses.
Porém, como haveria de ser, a bela Maria Angélica não arrancou só meus suspiros. Diziam que Lúcio, um dos meus melhores amigos, também estava apaixonado por ela. Estranho foi sabê-lo, já que tão próximos, ele nunca tocara no assunto comigo.
Então chegou o final de ano, e houve uma festa na casa de uma prima minha, na rua de baixo. Todos esperaram o ano todo por aquela festa. E era nessa festa que eu pretendia pedir Maria em namoro. Cheguei à conclusão que não agüentaria mais ficar apenas brincando com ela, eu queria mais. Minhas veias tornavam-se adolescentes, e o despertar das coisas batia-me à porta.
Atrasei-me para a festa. Quando cheguei à casa da minha prima, a festa já havia começado. Ao chegar, não quis falar com ninguém, fui logo procurando Maria Angélica. Achei estranho certo comportamento: todos na festa, os meninos que jogavam bola comigo, as meninas que eram minhas vizinhas, todos me olhavam diferente. Olhavam com olhos de piedade, de medo, de consolo.
Ao chegar à sala principal onde muitos dançavam, vi o que mudou minha vida. Maria e Lúcio dançavam uma música romântica, abraçadinhos. Fiquei pasmo, não quis acreditar, até que vi os dois se beijando. Por certo tempo não consegui mover-me. Fiquei estático, de frente para os dois, vendo um beijo que não era para acontecer, vendo outro beijar os lábios doces que embalaram meus sonhos por várias noites. Quando voltei do transe, quis ir embora, mas meus pais não deixaram. Tive que ficar ali, no mesmo local em que meu melhor amigo acabava de roubar o meu primeiro amor. A dor tomou conta do meu coração. Que sentimento horrível, havia sido trocado. Por que ela esqueceu tudo o que vivemos? Não se lembrava mais da magia que nos rondou no primeiro olhar? Não se lembrava mais do inesquecível aperto de mão? E não se lembrava mais do nosso primeiro e único beijo? Eu não conseguia acreditar, não conseguia aceitar, porém a verdade, apesar de cruel, era verdade.
Já em casa, chorei muito. E chorei como uma criança, afinal, em termos, eu ainda o era. Criança que queria crescer, mas que não estava ainda pronta para o que a vida poderia oferecer. As pedras no caminho eram inevitáveis e eu não sabia disso.
Ela nunca mais me procurou, e fiquei sem saber a razão do abandono. Brincávamos todos na rua sem que ela me dirigisse a palavra. Semanas depois, soube que iríamos nos mudar. Talvez fosse melhor, mas eu ainda não conseguia me imaginar no futuro sem a companhia de Maria Angélica.
Todos na rua sabiam da minha partida, inclusive ela. Recebi um bocado de abraços dos meus amigos nos últimos dias. Não recebi sua visita. Eu a avistava enquanto o caminhão da mudança já estava pra sair e ela não havia se despedido de mim. Brincava na rua com as outras meninas.
De repente, a bola correu e veio parar perto de mim. E ela veio ao meu encontro. Abaixei-me e apanhei a bola. Estiquei a mão para entregá-la. Por um momento ficamos nos olhando como da primeira vez. O tempo parou e nós dois ficamos com os braços estendidos nos olhando. Vi em suas pupilas, o brilho de nossos passeios, o adocicado beijo, a cumplicidade perdida. Decidiu ela, então, quebrar a magia. Pegou a bola da minha mão e me disse:
- Vou sentir saudades. Boa sorte.
Virou as costas e saiu. Foi a última vez que a vi.






11 novembro, 2008

Novas Publicações

Olá a todos,

As antologias da Câmara Brasileira das quais eu participo já estão on line. Meus dois textos estão lá. Abaixo os links para que vocês possam ler:


Obrigado a todos
Abraços

09 novembro, 2008

PORTAS, DIAS E RESPINGOS

 Texto da coletânea "Contos & Desencantos". Espero que gostem, abraços!

 

PORTAS, DIAS E RESPINGOS

            Rosas, cheiros, laços pretos, gosto, toque, contato, planos, canções e uma noite toda rolando na cama tentando pensar em coisas que não me fizessem lembrar dela. Engraçado como a gente condiciona, muda, vira a esquina de uma vida instantaneamente quando encontra alguém, vida que a gente tinha certeza de que sempre seguiria retilínea.

            Palavras me convenceram, palavras conquistaram minha confiança, palavras, palavras, palavras. Engraçado como hoje as pessoas as usam com tanta futilidade, não dão às palavras um verdadeiro respeito. Fico imaginando, por exemplo, um cavaleiro medieval, que pagava a palavra dita, com sua vida, sua honra. Hoje, pessoas a tratam como se ela não tivesse mais valor, logo ela, a palavra, o bem que eu mais admiro, que eu mais aprecio.

            As palavras que ouvi, todas elas que saíram da boca que eu beijava também ficaram em minha mente enquanto eu rolava pela cama tentando dormir ao menos um pouco. Mas não a culpo por dizer tudo aquilo, talvez tenha sentido mesmo, ou talvez tentado me fazer feliz. Sinto-me aliviado apenas por uma coisa: dessa vez, não fiz pouco caso, não debochei, mas também não me rebelei, não saltei na garganta. Deixei a porta aberta, ninguém sabe o que pode acontecer no futuro. Pela primeira vez deixei uma porta aberta. Fico me perguntando: será que entraria alguém através das portas que eu fechei se eu as tivesse deixado abertas?

            Mesmo assim o dia tinha tudo para ser ruim. Já não agüentava mais o emprego, o baixo salário, a solidão precoce, a dor de cabeça, o sono mal dormido. Fui trabalhar a contra gosto. Seria o tipo do dia que eu não teria saco nem pra escrever. Por mim ficaria em casa e ouviria todos os meus discos e leria pelo menos uns dez livros pra ver se conseguiria fugir da realidade. Mas acabei indo. Chegando, logo de cara encontrei meu chefe. Cheguei na hora e mesmo assim levei bronca por nada, uma tarefa não tão urgente que deixara de ser feita no dia anterior. Nada contra chefes, mas às vezes eles têm um senso de perfeccionismo que me irrita. Só que ao mesmo tempo são cegos e não olham para o espelho e para o próprio umbigo. Sem contar que alguns são desprovidos de qualquer sentimento bom. Fingi que não era comigo e pus-me a trabalhar, e assim o tempo foi passando.

            Depois de algumas horas trabalhando, liguei o rádio e ouvi a música que mais gostava na infância. Lembrei-me de como era feliz, sem problemas, sem preocupações. A vida adulta nos traz liberdade, mas ao mesmo tempo, compromissos. Logo depois ouvi outras músicas que fizeram parte da minha vida. E um filme foi passando em minha mente. Lembrei dos primeiros namoricos nos bailes que eu freqüentava, de como era gostoso flertar, e como doía levar um fora, mas como era bom beijar. Os outros meninos sempre ficavam com inveja, e as meninas admiravam meu sucesso. Bons tempos.

            Ao meio dia fui almoçar e no caminho encontrei uma ex-namorada que me disse estar muito bem e feliz. Não senti inveja, mas fiquei feliz por ela não guardar resquícios nem traumas de nossa antiga relação. Nosso papo foi tão bom que me chamou para almoçar com ela e ainda por cima me convidou para seu casamento.

            Voltei ao trabalho uma hora depois e já não tinha dor de cabeça. Realizei todas as tarefas com empenho de um recém-contratado. Executei com maestria o serviço que me cabia.

            As seis saí do trabalho e parei na primeira lanchonete que vi. Peguei alguns trocados e comprei um café com leite acompanhado de um pão com presunto e queijo. Essa refeição equivalia a um jantar, pois meu salário era cada vez mais escasso.

Dirigi-me à faculdade, onde adentrei a sala e encontrei os amigos. Durante a aula tomou-nos conta uma crise incontida de risos, algo que sempre fazíamos, mas há tempos não ocorria. Senti-me de alma lavada, sem peso, aliviado. Percebi que meus amigos continuavam os mesmos, eu é que havia me afastado. Rimos do início ao fim da aula aos olhares mortíferos do professor e do resto da sala. Inveja?

            Saindo da sala, percebi que estava chuviscando. Mesmo assim decidi ir pra casa naquele momento, não iria esperar a chuva passar. Fui caminhando devagar e as copas das árvores me ajudavam a ficar menos molhado. Coloquei a mão no bolso e peguei uma última bala. Os cigarros haviam acabado, conferi os outros bolsos e não havia tostão. Foi aí que de repente me dei conta que durante quase o dia todo não havia pensado nela. Senti-me bem por ter deixado a porta aberta. Só que me senti melhor ainda em saber que pode haver uma vida além da que eu vivia.

            Deixando a porta do meu relacionamento aberta, percebi que, ao mesmo tempo, abri uma porta que há tempos estava fechada, uma porta que me privava de aproveitar os bons momentos, de me sentir livre e vivo. Essa porta é a porta da minha vida, que me liga à esperança, e que estava inacessível por que a fechadura estava envolvida de decepções adquiridas durante os anos. Senti-me feliz, como há muito não me sentia.

Chegando perto de casa, cruzei com uma vizinha de prédio que eu sempre achei bonita, e que nunca olhava pra mim. Mas nesse momento, passou por mim sorrindo e deu uma piscadela. Nada como um dia após o outro.