31 dezembro, 2008

A LUA




 Olá....

Obrigado a todos pelos comentários, fico contente de estarem gostando dos textos...

Estou postando hj o conto " A Lua", escrito em julho de 2006. Esse texto representa muito pra mim exatamente por ser o meu primeiro conto, e, assim, a porta de entrada para as narrativas, campo que me metia medo só de olhá-lo de soslaio. Mas a partir daí venci o medo e me identifiquei muito mais com as narrativas do que com a poesia (em se tratando de criação literária, de minha produção).

Feliz 2009 para todos... e que a lua ilumine os passos nas suas caminhadas noturnas hauahauah

Abraços!

A LUA

            Ele levantou a mala. A partir desse momento uma avalanche de pensamentos horríveis tomou conta de mim. O futuro após sua partida era a certeza do incerto. Nada do que vivemos valera à pena? Será que o calor do meu colo não fora suficiente? As noites loucas de amor que tivemos nada significaram? Será que um dia ele voltaria? Será que tudo teria cura? Mesmo que voltasse, será que as coisas estariam do mesmo jeito que ele as deixou? Ainda nos amaríamos? Seria tão intenso como foi? São perguntas sem resposta.

            Era inútil tentar me convencer de que poderia me apaixonar novamente. Quem neste mundo poderia compreender totalmente os anseios e desejos de minha alma como ele? Lia meus pensamentos, tinha sonhos como os meus, desejava ardentemente viver um amor intenso, louco e doentio. Era tudo o que eu precisava. Aqueles meses compartilhados sobre o mesmo teto me fizeram acreditar que o amor era real, e não apenas histórias dos livros. E logo eu, que sempre vivi preocupada com o futuro e me esquecia de viver o presente, consegui, ao lado dele, parar o tempo como se vivêssemos em um lugar atemporal, onde tudo estava a nossa mercê. Controlávamos tudo: as cores, as coisas, os sentimentos, as canções, o andar da vida. Éramos nossos próprios deuses. Erguemos nossos altares e pagamos tributo a nós mesmos, era a nossa profissão de fé. Entregávamo-nos loucamente em ritos loucos e longos de amor em nossa cama, nosso altar sagrado.

            Enfim, era chegado o momento que eu sempre temi. O momento mais solene, a partida. Sim, a partida é o momento mais solene da humanidade. Solene e triste. É quase um rito. O leitor com certeza me questiona: mas a morte não seria o momento mais triste e os ritos fúnebres os mais solenes do ser humano? De jeito algum, pois, nunca poderemos evitar o fim, a morte não tem remédio, mas, a partida sim, a partida de um grande amor, essa podemos evitar que um dia ela chegue. E se ela chegar é porque houve falhas, ou, nossos sonhos tomaram um rumo diferente. E é isso que a torna tão solene e triste.

            Descendo as escadas, não consegui falar nada. Queria pedir pra que ele ficasse, queria dizer o quanto eu o amava, que ele não precisava ir embora, que ele não podia ir embora desse jeito e esquecer tudo. Mas não consegui. Revivi cada instante das centenas de dias que vivemos juntos em apenas alguns segundos. Lembrei de cada coisa que fizemos juntos: as risadas, os beijos apaixonados, as guerras de travesseiros, os filmes, os vinhos, as noites em claro vivendo uma paixão surreal.

            Na entrada do prédio, ficamos parados por um instante, frente a frente, sem que nossos olhares se desviassem. Vi a dor nos seus olhos, e percebi no seu íntimo que ele ainda me amava, contudo, realmente precisava partir. Não resisti: lancei-me em seus braços e meus olhos traduziram concretamente o que o meu coração já sentia. Chorei, chorei como uma criança, porém não disse sequer uma palavra. Ele também não falou. Beijou-me serenamente na fronte e depois minha mão. Disse adeus, pegou sua mala e partiu. Não olhou pra trás. Talvez para não chorar como eu e não voltar correndo arrependido. Fiquei ali durante horas, parada, olhando para a esquina, esperando algo que não aconteceria: o seu retorno.

            Já anoitecia. As folhas e as flores sacudiam com o vento. Havia uma sincronia incrível naquela dança. Não sei bem se elas cantavam unissonamente para me alegrar e me confortar, ou, se choravam tristemente compartilhando a tristeza presente em meu coração.

            Subi as escadas, num rito tão solene, triste e silencioso como a descida horas antes. Entrei no nosso quarto. Senti o seu cheiro. O perfume dele estava em toda a casa. Vi as escovas juntas como se elas se amassem, assim como seus donos. Vesti o seu pijama, para senti-lo mais perto e matar um pouco da minha saudade.

A noite avança e não tenho sono. Penso no futuro enquanto acaricio minha barriga. Sofro, sinto sua falta e não imagino como poderei amar novamente.

Entretanto, mesmo com esse sofrimento, preciso agora dedicar todos os dias da minha vida a outro propósito: ao ser que habita dentro de mim, descendente do homem que a noite levou.

            Olho para fora e vejo a lua. Logo depois, ouço, bem distante, um uivo.

21 dezembro, 2008

BRIGADEIRO


Olá a todos,

Ultimamente venho postando mais comentários meus sobre assuntos em geral do que textos. Hoje, último post antes do natal, faço ambas coisas.

Quem puder assistir ao filme “Vicky Cristina Barcelona” de Woody Allen por favor vá. É um bom filme, um dos melhores dos últimos meses. Em meio a uma comédia romântica discute-se temas interessantíssimos.

Outro filme que recomendo, este já mais antigo, é “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” que traz um ótimo elenco como Jim Carrey, Kate Winslet, Mark Ruffalo, Kirsten Dunst, Eliah Wood. Há muitas analepses e prolepses, ou seja, idas e vindas na fábula, mais conhecidos como flash-backs. A maior parte da trama se passa dentro da mente do personagem interpretado por Carrey que tenta apagar da memória o relacionamento que teve com Clemente, personagem interpretada por Kate Winslet, quem já fizera o mesmo processo. É um dos filmes mais inteligentes que já vi. Eu o re-assisti na madrugada passada, por isso estou indicando-o.

“A Viagem do Elefante” de José Saramago é o livro da vez. Não o terminei ainda, mas é um livro muito interessante. Quem ainda não leu Saramago está perdendo o melhor da literatura já escrita em língua portuguesa.

Como estamos próximo do natal, não vou fugir do clichê bem usado nesses tempos. Pedir paz. Independente da crença (ou falta dela) deixo o meu pedido à paz. A mesma paz de espírito que traz Jesus, Maomé, ou outro profeta, pregador, deus, ou filho dele deixa no coração das pessoas que neles acreditam. E que essa paz de espírito emane ao mundo e que possamos olharmos melhor para a natureza, sem destruí-la, olharmos para nós mesmos para identificarmos nossos erros, e, principalmente, olharmos para o outro como se fôssemos nós mesmos.

Bem, é isso, hoje vos ofereço um doce: posto o texto “Brigadeiro” do qual gosto muito. O doce é meio amargo, mas é o puro retrato dos nossos dias.

Cuidem-se. Beijos

Feliz natal, Merry Christmas, Joyeux Noël, Frohe Weihnachten, Feliz Navidad, Buon Natale, Vrolijke Kerstmis, Χαρούμενα Χριστούγεννα, С Рождеством Христовым, メリークリスマス, 繁體中文版



BRIGADEIRO

 Luigi Ricciardi

            Era uma vez Brigadeiro, moreno de seus doze anos. Foi o doce mais amargo que a vida já confeitou. Vivia sem procurar sentidos, sentindo na pele negra brancos dissabores. Desde o terceiro par de anos que tinha a lua como companheira e vivia à mercê das gotas de chuva. Perdera a mãe que pouco vira, do pai nunca se soube. Teve irmãos, que devem estar perdidos pelos morros, que por estarem mais perto do céu brincam de deuses com suas armas de Olimpo. Jamais os viu, inclusive os deuses.

            Zanzava o dia todo por entre as buzinas frenéticas no centro. Tentou muitas coisas na vida, chicletes, malabarismos, e balas. Nunca encontrou sorte por essas veredas, procurou outras, com insucesso maior.  E caminhava sertões de fome e seca na grande cidade engolidora.

Doía-lhe a fome, apertavam-lhe as costelas. Jejuava religiosamente dias. E nas horas do desespero tinha a visão turva, tinha tremeliques e se socorria nos galões de lixo comendo qualquer rato que encontrasse. Nessas horas não sentia cheiro, nem gosto, sua fome necessitava de outros poréns.

            Em seu mais recôndito canto, e não se sabia como, Brigadeiro cria não ser difícil existir, mas sim viver, com essa miséria nua e existência despercebida. Uma vez ficou horas do lado de dois senhores que conversam, a pedir gorjeta pela exibição de suas piruetas, enquanto os homens conversaram sem dar pela presença do menino. E com sua honra despida saiu a soluçar suas lágrimas de anjo escorraçado.

            Porém Brigadeiro também tinha amigos.  Fê-los nas andanças e desaventuranças de seu existir cataléptico. Brincavam de comer doces e de serem mágicos. Certa vez, nas brincadeiras inocentes, um dos amigos, com seu graveto-cetro de poder, tocou na cabeça de Brigadeiro, e o transformou em doce. Uma das meninas correu a lambê-lo, mas gritou com nojo ao tocar a pele suada do menino. Depois disse:

- Você não tem graça Brigadeiro, você não é doce, e não tem nada que te cubra.

            E naquele dia, aprontando-se para dormir nas gélidas calçadas defronte aos belos apartamentos da cidade, Brigadeiro, que procurava algo com que se cobrir, pensava, pensava e ficava sem entender o que a amiga havia dito. Nunca conhecera o doce, ou melhor, pelo menos achava que nunca tinha visto, já o vira sim, mas não associou o nome à coisa.

            Por vezes um passante caridoso dava-lhe moedas, ou mesmo algo para enganar sua peste. Sorria, o sol enfim das nuvens saía, e ele saía a correr. E então, no nirvana de sua tênue alegria procurava os amigos para dividir as migalhas que recebia, e todos alegres e contentes com seus estômagos quase inexistentes, mas cheios, partiam para as brincadeiras de fim de tarde.

            Os dias se passavam e Brigadeiro não conseguia nada com que se forrar, nem seu verdadeiro choro nas esquinas das lavadeiras ajudava a alma faminta. Via muitos carros passando, alguns tinham as janelas abertas, e as pessoas que estavam dentro ofuscavam sua vista com alguma coisa que colocavam nos olhos que mais parecia o próprio sol. E todos eles tinham os dentes brancos, a pele alva e os cabelos cheirosos e doces, porque Brigadeiro, mesmo com a distância, conseguia cheirá-los.

            Sentiu vontade, então, de comer doce, daqueles que vira, certa vez, vários homens preparando pela vitrine da padaria. Era um doce preto, preto como ele, feito em bolinhas com alguma coisa da mesma cor a cobri-los. Mesmo com a loja fechada pôde sentir todo o frescor da paz que exalava do chocolate vindo da padaria. Quis saber que nome tinha o doce, e nunca veio a saber que o doce se chamava como ele mesmo. E ali ficou, por minutos, Brigadeiro olhando brigadeiro. Eram parecidos na cor, iguais no nome. Mas o doce era o sussurrado aljôfar das confeitarias, e ele o surrado, o sofrido, o amassado produto da sociedade moderna. Foi a única vez em que se viram.

            Na noite fria e insensível, com a fome a arrancar-lhe gemidos, eis que passa um homem, de cabelos negros e pele com coloração parecida. Ao ver Brigadeiro sentiu pena, lembrou-se de quando era menino, e quanto a fome era um mistério para ele. Com o passar dos anos acostumara-se a comer menos e conseguia assim arrastar seu existir. Acabou por parar ao lado do garoto, e então lhe ofereceu metade de seu jantar, um bolo que achara nos fundos do supermercado. Brigadeiro nem conseguiu agradecer, seu instinto foi mais rápido, e sem sequer olhar o rosto do samaritano, devorou seus pedaços em pouco tempo, aliviando sua existência. O homem partiu, com o estômago cheio e a sorrir, lembrando seus tempos de criança.

            A noite esfriava cada vez mais, e Brigadeiro, de tão feliz que estava sequer se cobriu para dormir. O sono veio rápido, tão logo havia comido. E com um sorriso aberto nos lábios, Brigadeiro partiu, não se sabe em razão da grande quantidade de comida, ou pelo frio que a noite mandou. Acharam-no na manhã seguinte, ainda com o sorriso nos lábios e a pele levemente roxeada. Despediu-se desta confeitaria, onde foi, durante todo o tempo em que existiu, amassado, polvilhado, e porque não, muitas vezes assado, e no fim descartado.

            Foi uma vez Brigadeiro, o doce-amargo do existir inconsciente e do ser-não-ser desta terra não gentil.  

13 dezembro, 2008

A Insustentável Leveza do Ser

Nessas férias estou tentando atualizar meu acervo mental de filmes. Vi vários interessantes. Convém destacar e indicar alguns como "Um Sonho de Liberdade" com Tim Robbinson e Morgan Freeman. O filme recebeu 7 indicações ao oscar de 1994. Posso clássificá-lo sem medo como um dos dez filmes da minha vida até o momento. Vi outros interessantíssimos como o musical dark "Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet" com mais uma ótima atuação de Johnny Depp. "10.000 a.C" é um ótimo filme de guerra e com uma bela história. E pra fechar a parte sobre cinema gostaria de indicar (principalmente pra quem gosta muito de música ou é músico) o filme "Apenas uma Vez" de 2005, que venceu o Oscar de Melhor canção original "Falling Slowly" com atuações impecáveis e canções maravilhosas de Glen Hansard e Marketa Irglová.

Quanto a leituras, acabo de terminar "A Insustentável Leveza do Ser" do tcheco Milan Kundera. Pela fama que a obra tem eu esperava mais. Contudo, gostei do livro, fiquei com uma imagem boa dela ao fim, apesar de todas as catástrofes e mortes que vão acontecendo nele. Destaque para a singeleza de Karenin, uma cadela que alegra os dias da jovem Tereza, mulher que sofre desde a infância com as atitudes maternas, e que se casa com Tomas, homem que a ama, mas que tem um forte impulso à traição. Entre outras discussões, principalmente filosóficas, sobre a vida, a leveza e o peso do ser, o eterno retorno de Nietzche, a obra trata da ocupação soviética na antiga Tchecoslováquia nos anos 60. Vemos Praga desfigurada pela invasão dos vizinhos, e percebemos o ser-humano perdido em meio ao seu país desfigurado, sua rotina alterada, e consequentemente, a busca da compreensão do próprio ser, que de tão insignificante se torna leve, porém insustentável.

Termino com uma citação interessantíssima, que nos leva a refletir sobre o poder do ser-humano sobre os animais, digo, pseudo-poder.
Abraços


"No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os passaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas".

"Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: 'Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas', para que toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem atrelado à carroça de um marciano - eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via-Láctea - talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria então (tarde demais) desculpas à vaca".

Kundera, Milan - A Insustentável Leveza do Ser. Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1983. Traduzido da edição francesa: "L'insoutenable Légérété de l'Être". Título original: Nesnesitelná Lehkost Bytí.