22 maio, 2009

IRREVERSÍVEL


             O melhor filme francês que já vi, ao menos é o mais forte e intenso. Irreversível é uma história contada de trás para frente, com algumas cenas violentas e angustiantes, que nos coloca uma questão: o que na verdade é irreversível?

                Os créditos aparecem no início (apesar de não ser novidade por já ter sido utilizado dois anos antes em Amnésia), mostrando que o filme pode ter alguma coisa de diferente. E realmente, começa pelo fim. O seu início-fim é uma cena com dois senhores conversando sobre a vida. Um deles diz “O tempo destrói tudo”, e então começam a filosofar sobre o comportamento dos seres humanos. Logo ouvimos sirenes e gritos, vem de um reduto gay que fica próximo ao lugar onde os dois homens conversam.

                Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel) estão no tal reduto gay, procurando um homem conhecido como TNA. Agem com certa violência com os freqüentadores do local, parecem estar descontrolados e desesperados para encontrar o tal homem. As cenas nesse reduto são agressivas. Primeiro pelas cenas de sexo sadomasoquistas, que, se não são explícitas, são quase isso, com pessoas transando e se masturbando. Marcus e Pierre se desentendem com outros dois homens, causando uma das cenas mais violentas do filme: o espancamento até à morte de um dos homens por um outro que batia nele com um extintor de incêndio. Outra cena que surpreende pela sua crueza é o estupro e o espancamento de uma mulher em um túnel da cidade.

                A fotografia prima pelo escuro, com cenas à meia-luz, em sua maioria. Mas um dos pontos mais interessantes do filme é o movimento da câmera, que nunca é estanque. Vai e vem, balança o tempo todo, praticamente gira 180 graus, como se, ironicamente, quisesse reverter alguma coisa. Na cena da briga no reduto gay, ela chega a ser nauseante, ajudada pelo psicodelismo da trilha sonora, que dá uma sensação de um efeito provocado por uma droga ou álcool. Afinal, a vida em si não seria uma droga consumida diariamente e que nos leva ao fim, irremediavelmente, irreversivelmente? É o que chegamos a pensar quando vemos a sucessão de cenas e de acontecimentos. Há coisas que nos são irreversíveis, principalmente nossos atos.

                O filme só não é perfeito porque à medida que vai se descobrindo sua trama, principalmente depois de sua metade, a narrativa passa a se tornar um tanto quanto previsível e entediante (principalmente no diálogo dentro do metrô). Apesar de violento e forte, Irreversível não é um filme exagerado. É um filme que mostra a crueza da violência nos grandes centros, a fúria que há dentro dos seres humanos e a irreversibilidade das coisas e da vida. E a última frase do filme no seu fim-início, é justamente a primeira do seu início-fim: “O tempo destrói tudo”.

19 maio, 2009

PULP FICTION


Já tinha ouvido falar dos filmes de Quentin Tarantino, mas confesso, apesar de amar cinema, não tinha visto nenhum filme do aclamado diretor da nova geração. Acabo de ver Pulp Fiction, e realmente o filme é muito bom. A trama de Tarantino nos traz uma representação da entrada da violência no cotidiano das pessoas. Antes víamos os gangsteres, bandidos e assassinos com um forte perfil enviesado à loucura, a demência e a total falta de caráter. Os assassinos de Pulp Fiction são comuns, falam de coisas cotidianas antes de entrarem nas casas e assassinarem seus devedores.

            A narrativa não linear, porém clara, nos mostra a naturalidade com que a morte e a violência são encaradas no muito moderno. Há muito humor negro no filme, críticas a todos os lados. Tarantino provavelmente construiu um dos melhores filmes da década de noventa, e só não levou o Oscar de Melhor Filme em 1994 porque concorria com o quase-perfeito Forrest Gump, mas Tarantino, com sua genialidade, levou o de melhor roteiro.

Quem for assistir ao filme não deve se deixar enganar pela aparentemente boba e frágil narrativa que pode nos levar a crer que é mais um filme de ação e violência gratuita. Mas vai além, só vendo o filme para ver. A trama é dividida em três partes: a primeira é quando Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) vão fazer um “servicinho” para recuperar uma mala para o patrão de seu clã, Marsellus Wallace (Ving Rhames) . A segunda é entre Mia Wallace (Uma Thurman) e Veja. Este último é encarregado pelo chefe de fazer companhia à sua esposa enquanto está ausente da cidade. A terceira trama é sobre Butch (Bruce Willis) que interpreta um boxeador em fim de carreira que aceita suborno de Marsellus para perder uma luta importante.

Três histórias que se entrelaçam facilmente dentro da trama não-linear, e que fez explodir um novo talento no já tão desgastado mercado hollywoodiano. 

17 maio, 2009

BAILE DE MÁSCARAS



Aproveitando o ensejo do tema do meu último poema postado aqui no blog, lanço quase que simultaneamente à sua escrita, ainda com cheiro de tinta fresca, esse belíssimo conto de meu amigo Fábio Fernandes, que retrata, assim como meu poema, as máscaras pegadas às caras do ser humano. Tive o prazer de acompanhar o processo de criação, e fico extremamente feliz de partilhar das idéias de Fernandes. Meus parabéns! E viva à nossa nova corrente literária!



BAILE DE MÁSCARAS

Fábio Fernandes


Inicio meu relato, que nada tem de original, buscando nos arquivos de minha memória os fatos que ocorreram no dia do tradicional Baile de Máscaras da cidade de Novo Camaleão. Adianto ao leitor, que escrevo tais memórias já finado, porém que não se engane, minha situação não é mais nem menos confortável que a de qualquer outro que de fato vive, e vive não só biologicamente.
Desde muito cedo não me encontrei acolhido nos braços da sociedade, e nunca tive talento suficiente que pudesse me deixar a altura dos meus conterrâneos no que diz respeito às artes cênicas, de modo que sempre optei pelos modos reclusos e solitários. Entretanto nos dias anteriores ao Baile, cujo irão melhor conhecer posteriormente, tive uma súbita vontade de me juntar ao rebanho e conhecer o tradicional festejo, não soube antes e não sei agora o porque de tal vontade, o certo é que não posso mentir, e confesso que me rendeu prazeres, porém incompletos e momentâneos.
Pois bem, sobre a cidade de Novo Camaleão, se o leitor ainda não conhece é porque não olhou com muita atenção os mapas da própria vida, se o caso for, descrevo-a sucinto e direto. Era uma cidade pequena, com ares de vila, porém que acomodava considerável número de pessoas. Era pacata, porém dispunha de muitas pessoas que a faziam fervilhar se uma peça qualquer de seu tabuleiro movesse casa não comum. Em suma a cidade tinha não poucas alcoviteiras, maus caráter, gatunos, aproveitadores e toda mais gente de bem que se possa imaginar, e assim trilhava seu caminho rumo ao progresso.
O Baile não trazia clima diferente à cidade, mas os habitantes esperavam ansiosos. Era uma festa em que até o pior afortunado marcava presença, não faltava figura alguma, salvo uma meia dúzia que preferia o aconchego do próprio lar. Eu, no fundo, nunca entendi o porque de tamanha empolgação para um evento onde não se faziam coisas diferentes dos hábitos corriqueiros. O ritual de usar máscaras não era incomum, mas talvez a diversidade de modelos e tamanhos fosse o maior atrativo.
Já era chegada a data, e todos partiram para o salão da igreja, onde eram ocorridas as festas e eventos da cidade. Todos bem trajados, com suas máscaras finas e impecáveis iam lotando o salão que era pouquíssimo iluminado e estava já agitado ao som de músicas dançantes e milhares de vozes animadas. Não cheguei cedo ao evento, pois perdi algum tempo escolhendo minha fantasia, não julgo que fiz boa escolha, peguei a máscara que me pareceu mais conveniente, pois não me preocupei com tais detalhes e não preparei meu traje previamente.
Adentrei o salão com minha máscara de carrasco, fi-lo receoso, não porque a fantasia incomodava, mas porque não tinha lá muito contato com toda a gente. Senti-me estranho, minha timidez impedia com que eu fosse ter com os outros, então fiquei só a observar.
Corria tudo como planejado, a festa se desenrolava a plenos pulmões, quando um sujeito exaltado começou a tumultuar o centro do salão. Demoraram alguns minutos para que lhe dessem a devida atenção. Quando baixaram o volume da música e lhe deram a vez da palavra, o salão emudeceu, e todos permaneceram paralisados, perplexos, na tentativa de assimilar a notícia que acabaram de receber. O homem exaltado estava adoecido e decidira não ir ao Baile, ficara em casa e vira pela televisão que um asteróide estava a caminho do nosso planeta, e que o passeio do asteróide teria desfecho trágico, o apocalipse era iminente, e o tempo que tínhamos era menos de duas horas.
O que aconteceu nessas últimas duas horas de existência do mundo e da cidade de Novo Camaleão pode chocar algum leitor mais desinformado, mas aquele já acostumado com o baile de máscaras nada verá de surpreendente. Desesperados com o fim do mundo muitos foram ter com o padre, para obter a absolvição e gozar do reino dos céus, porém só depois de muita procura encontraram o santo homem, que estava no confessionário da igreja a deleitar-se com os últimos prazeres de sua vida, trocava ele carícias com um de seus coroinhas. Perplexa ao presenciar tal cena, uma beata, que dedicou a vida às rezas e a ação nenhuma, teve a alma arrancada do corpo e caiu aos pés de todos, que se desesperaram e foram chamar o médico para que fosse acudir a religiosa. Surpresa também tiveram todos, ao encontrar o médico, que cavava frenético a sua própria cova e a recheava com todas as suas riquezas, as quais queria ele levar para a eternidade. Quando questionado sobre o estado de saúde da já finada beata, ele só respondeu de forma seca que a partir daquele momento era cada um por si e deus por todos; logo, a beata que sempre tivera fortes laços com deus, estava bem arranjada. Todos, entendendo a situação, dispersaram, só restando um dos vereadores da cidade, que recebendo o parecer do médico irritou-se e levou o doutor até a mulher pela força bruta, e quando o óbito fora constatado pelo médico, desesperou-se e chorou sobre o corpo da mulher muito mais lágrimas que o próprio marido, este que já não passava mais ereto por portas baixas.
E assim sucederam várias dessas, e com todos ia acontecendo o mesmo, as máscaras já não se sustentavam nos rostos e era sofrível mostrar a verdadeira face. Chegada a hora prevista para a colisão já sobravam poucas máscaras, quase todas já estavam ao chão, assim como os rostos de seus donos. Porém algo aconteceu, e a cidade de Novo Camaleão teve a notícia que o asteróide mudara seu percurso; entretanto, engana-se aquele que pensa que o clima foi de total euforia. O asteróide não caiu, porém caíram as máscaras, e agora todos já sabiam a verdadeira identidade que tinham, o que no fundo não era de orgulho, nem mesmo para as pessoas teoricamente mais bem sucedidas na sociedade.
Depois do ocorrido, muitos aderiram aos meus hábitos, e poucos saíam às ruas. Eu que observei todo aquele pandemônio, continuei minha vida normalmente, sem modificar minhas ações, e assim foi até o fim dos meus dias, quando finalmente entendi que todos utilizavam máscaras, dentro ou fora dos Bailes. Entretanto não foi prazeroso me deparar com tal realidade, pois percebi então que o termo todos incluía a minha pessoa, e que a máscara que eu carregara no baile, me servia muito bem à face.

12 maio, 2009


Olá pessoal


Há tempos não posto um poema. Esse escrevi recentemente, espero que gostem. Obrigado pelos comentários no conto "Tribos", fico contente de partilhar os mesmos pensamentos com outras pessoas, em saber que ainda há esperança e cultura nessa cidade ilhada pela futilidade. Esse poema que posto hoje, "Vida Oblíqua", vai mais além, fala da sociedade e do mal que assola o homem moderno. Au revoir!


Vida Oblíqua

Luigi Ricciardi

Pessoas que percorrem suas veredas, direções,

No concreto, sentindo-se ocos e mecânicos;

Espalhados nas esquinas, nas placas, nas alienações,

Só se vê o frio maciço dos duros cimentos.


Melancólica sinfonia do fim de tarde,

Notas tocadas nos ardores da tristeza,

Conjunto esculpido em partitura que arde,

Trazem o sopro solitário da crua incerteza.


Ele pensava inconcebível sentir-nos isolados

Na agitação das buzinas, dos gritos selvagens,

Mas ao cruzar com sentimentos velados

Vê pessoas que não possuem imagens.


São rostos embaçados, indecifráveis,

Sem expressões, sem individualidades,

Pessoas que, ao consumismo, são contáveis,

Fora do contexto, meras banalidades.


Que mal existencial fortemente nos assola?

Gente sem vida, sem ritmo, sem cadência,

Que aflição, doença, calamidade nos degola?

Vejo a humanidade perdida e sem essência.


O homem inutilizado dentro de si mesmo,

Não se comunica, murmura incompreensão,

Vive às sombras, caminha sempre a esmo,

Padece sempre, nunca há uma segunda direção.


E quando a dor de viver não mais suporta,

Debaixo do carro dessa vida o homem se aborta,

Para um outro campo sua alma se transporta,

Como um protesto contra essa sociedade morta.

03 maio, 2009

TRIBOS



Olá meus amigos,

Desculpe ter abandonado um pouco o blog, mas as leituras de projetos e monografia, aulas, etc estão me ocupando demais a cabeça. É a primeira vez que posto depois que me mudei. Há um mês, e estou curtindo a nova fase da vida, creio que é um passo importante, já que agora tenho que me virar pq não tenho quem faça as coisas por mim.

Vou postar hj uma história que é fato real. Vivi esse conto, vi esta cena que fortemente me tocou. Resolvi transformá-la em literatura, a humanidade deve conhecer esse fato, e refletir sobre.

Peço para que votem na nova enquete que acabo de criar, é sempre legal saber a opinião de vcs. Por isso, escrevam comentários nos textos que vocês lerem. E divulgem eu trabalho para aqueles que também amam a literatura, é o melhor meio de conseguirmos chegar além. E esse mês sai meu décimo texto publicado pela Câmara Brasileira. É muito gostoso ver um texto de própria autoria viajando os caminhos do Brasil. Beijos a todos!




TRIBOS

Debaixo da luz forte do ziguezague comercial, bateu-me a ânsia daqueles que sentem por um momento insuportável estar-se. O incessante vai e vem da imbecilidade contornava giros perfeitos na base estomacal. Jumentos com chapéus de palha pilotavam máquinas que seus antepassados nem sonhavam com a possibilidade de criação. Esse mesmo tipo de animal se auto punha uma classificação com orgulho e exibia suas insígnias com poder. Como uma boa tribo oriunda daquelas do início da trajetória humana sobre esta terra, eles tinham sua própria música e o seu jeito de chamar a chuva. Mas usavam botas!
E nesse meio onde pessoas tentavam se guiar em meio à luz da razão – se é que ela verdadeiramente já existiu – eles passavam com suas máquinas, cantando suas canções e exibindo seus cocares. No caminho por onde eles desfilavam com seu jeito de ser, havia grupos irradiantes do sexo oposto. Elas se colocavam de cada lado do estreito trecho por onde passavam as máquinas, e acenavam com suas tangas curtas e suas peles cheias de sol. Como fêmeas no cio, elas exalavam de sua pele um odor espectral-entranhal que seduzia os machos de chapéus e maquinários. Quando mais cheiros exalados e sinais feitos com as tangas, mais o volume do canto, sinal da representação de um povo, ficava mais alto.
No centro universitário, que do universo longe ficava de suas proporções, ouviam-se os gritos de cá e de lá, as luzes fortes se misturavam com o cheio sedutor das barracas de lanches e dos bares. Era sexta-feira, dia em que os demônios habitavam as ruas, e que todos cantavam para o acasalamento temporário. As fêmeas distribuíam papéis com ilustrações àqueles que passavam por elas. Estendiam à mão aos chapéus das máquinas que paravam diante delas. O som alucinante era lancinante. E todos vivenciavam a vida em comunidade, tribo de valores.
Com o circo montado à minha frente, eu me questionava cem vezes por segundo como fora parar naquele lugar. Em uma mesa ao ar livre, no canto de um estabelecimento, eu tentava engolir algo para somar à minha existência alguma coisa que valesse à pena, quem sabe a comida. E a ânsia da insuportabilidade nauseava-me. Desejava furtivamente escapar àquela dança de anjos decaídos. Como macho da espécie, sentia-me atraído pelas fêmeas de sol como aqueles que guiavam sentimentos de motor. Entretanto, ao não pertencer àquela tribo hostil, que celebrava, dançava e sentia coisas inerentes à minha tribo, via minha essência ameaçada.
Contudo, ao quase decidir pela partida, vejo um ser aproximar-se. Veio devagar, subindo o caminho pedregulhoso de escárnios. Costurava a multidão com passos tortos e doloridos, procurando a cada canto algo que lhe satisfizesse. Quando se aproximou mais, pude ver seus olhos nítidos de fome, e sua boca machucada de dor. Trazia uma das patas com dificuldade, ser cocho é tão intolerável como ser um animal sem fala. Ele passava em meio aos grupos de dois ou três, cheirava seus pés, procurava furtivamente seus olhares. Toda vez que se aproximava e fazia tudo isso, ganhava como carinho um pontapé em seu dorso já surrado pelos pontapés de sua frágil existência.
Do lado da rua onde eu o avistei – que era o mesmo de onde eu tudo via – ele passava entre todos, pedindo um olhar, algo para aliviar sua dor de fome. Ninguém se apercebeu de sua presença. E aqueles poucos que notavam seu existir, desviavam olhares para não se padecer com sua dor. Acreditavam, provavelmente, que a eles não competia alimentar um ser de outra tribo. Excluíam-no pelo simples fato dele levar apoiadas ao chão suas quatro patas, enquanto eles, seres racionais jogavam duas delas ao ar. E o cão continuava sua peregrinação a passar por entre a louca multidão que cantava seus cânticos elevados aos seus próprios céus. Se ao menos sobrasse ao surrado cão uma ave pequena qualquer que ele pudesse abocanhar. Se houvesse um lixo por perto com restos com que ele se alimentasse. Mas não havia, a gula sempre foi maior que a fome.
Com cestos nas costas e peles de madeira, eis que sobe um grupo de pessoas, com pequenos e grandes exemplares de sua espécie. Exibiam suas insígnias, andavam cantando seus cantos e vendiam seus apetrechos para se alimentarem. Quando eles passavam, aqueles que empunham chapeis e distribuíam folhetos desviavam como se se desviasse da malária mais mortal já existente. Os índios viviam suas dores com sorrisos nos rostos e via-se uma satisfação em ser o que é.
Um dos meninos avistou o cão no mesmo momento em que foi visto por ele. O olhar não durou mais que dois segundos, tempo suficiente para lerem-se e saberem o que cada um precisava. E para que mais? Às vezes a vida nos dá cinqüenta anos para aprendermos tudo em alguns segundos, é um dos mistérios que nos cercam. O menino comia um pedaço de pão e o cão tinha os olhos marejados. O menino deu-lhe o pão, o cão deu-lhe o carinho, unindo duas tribos distintas na forma e no pensamento, mas irmãs nos sentidos e nas dores. Sem serem percebidos pela multidão que cantava suas festas, cão e o menino, acompanhados de sua família, subiram juntos seu novo trajeto. O cão já sorria esquecendo de sua dificuldade existencial. O menino encontrara em um cocho que não falava sua língua um próximo a quem poderia dirigir afagos; o cão encontrou alguém que lhe enxergava, alguém que era igual àqueles que o desprezavam, mas que dentro de si, era igual a ele.
A imagem, ambos de costas a correrem pela calçada, nitidamente me deixou uma frase que me valeu os sofrimentos da noite: alguns seres humanos são mais irmãos dos animais do que irmãos de sua própria raça. E essa união desconstrói as tribos imaginárias que todos se enquadravam, enquanto a tribo do chapéu continuava com seus ritos, com suas oferendas aos seus deuses. Erguiam as botas e os chapéus, e sentiam verdadeiramente possuir a maior virtude de todas, divertindo-se porque a finitude bate à porta.