17 janeiro, 2010

Poema Sujo


Nos anos 70, Ferreira Gullar viveu exilado, fora perseguido, como a maioria dos grandes artístas pela ferrenha ditadura que imperava em nosso país. Em Buenos Aires, estava com o passaporte vencido e a Argentina mergulhava em uma ditadura tão perseguidora quanto a que ocorria em nosso território. Com medo de ser preso e morto, Ferreira Gullar quis expressar em um só poema todas as suas angústias, reflexões e memórias, fazendo assim sua maior aventura literária. E deu certo. O resultado foi um dos mais belos e profundos poemas da nossa literatura. O livro se chama Poema Sujo e foi lançado em 1976.

Na verdade se trata de vários poemas dentro de um só que permeia suas lembranças da época vivida na sua cidade natal, São Luis do Maranhão. E ele fala dos cheiros da cidade, dos movimentos, dos ritmos, da sujeira, dos sabores, das mortes e dos desejos. Hoje li essa obra aprazível. Dá pra se ler numa pegada. Ai vai uma dica. Há uma edição do livro que conta com um cd, no qual o próprio poeta declama seu poema na íntegra. Vou deixar aqui alguns trechos do livro para que fomente em quem aqui passar a vontade de ter contato com o escritor que é considerado hoje o maior poeta brasileiro vivo.



“Mudar de casa já era

um aprendizado da morte: aquele

meu quarto com sua úmida parede manchada

aquele quintal tomado de plantas verdes

sob a chuva

e a cozinha

e o fio da lâmpada coberto de moscas,

nossa casa

cheia de nossas vozes

tem agora outros moradores”



“Ah, minha cidade suja

de muita dor em voz baixa

de vergonhas que a família abafa

em suas gavetas mais fundas

de vestidos desbotados

de camisas mal cerzidas

de tanta gente humilhada

comendo pouco

mas ainda assim bordando flores

suas toalhas de mesa

suas toalhas de centro

de mesa com jarros

- na tarde

durante a tarde

durante a vida –

cheios de flores

de papel crepom

já empoeiradas

minha cidade doída”



“É impossível dizer

em quantas velocidades diferentes

se move uma cidade

a cada instante

(sem falar nos mortos

que voam para trás)

ou mesmo uma casa

onde a velocidade da cozinha

não é igual à da sala (aparentemente imóvel

nos seus jarros e bibelôs de porcelana)

nem à do quintal

escancarado às ventanias da época”



“da mão que busca entre os pentelhos

o sonho molhado dos muitos lábios

do corpo

que ao afago se abre em rosa, a mão

que ali se detém a sujar-se

de cheiros de mulher”



“cada coisa está em outra

de sua própria maneira

e de maneira distinta

de como está em si mesma”



“Não sei de que tecido é feita a minha carne e essa vertigem

que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás

e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,

ou dentro de um ônibus

ou no bojo de um Boeing 707 acima do atlântico

acima do arco-íris

perfeitamente fora

do rigor cronológico

sonhando”



“Do corpo. Mas que é o corpo?

Meu corpo feito de carne e de osso.

Esse osso que não vejo, maxilares, costelas,

flexível armação que me sustenta no espaço

que não me deixa desabar como um saco

vazio

que guarda as viceras todas

funcionando”



“por todas as partes se fabricava noite que nos envenenaria de jasmim”

CINEMA - Amores Brutos


Os filmes de Iñárritu vão além do drama. Ele é o maior representante do trágico moderno. Em “Amores Brutos”, o ser humano vive em um ambiente hostil. E, vil, o ser humano é refém desse mundo e é obrigado a dançar conforme a música. Ou segundo a maldade que existe dentro de si. A cidade é quase uma selva, sempre há perigos, e a cada esquina.
Embora não tão profundo no que tange a tenuidade da
vida quanto “21 Gramas”, ainda é interessante vê-lo. Podemos chamar os dois filmes, juntamente com Babel, de Trilogia da Tragédia. Contudo, essa tragédia pode ser entendida como resultado do monstro que mora dentro de cada ser humano.
A rinha de cães que permeia primeira parte do filme é tradução da mais profunda ira humana. E a cena final, naquele negrume em que Martin caminha, é a representação mais forte da trajetória humana: A solidão
!

16 janeiro, 2010

CAIM



Há 15 minutos terminei a leitura de "Caim" de José Saramago. Todos sabem minha admiração pelo escritor, ao qual dediquei dois trabalhos importantes em minha gradução e dedicarei meu mestrado. Todos sabem também de meus questionamentos a respeito da biblia e da igreja. O livro reflete o que eu sentia e posto agora um comentário que encontrei em um blog que manifesta exatamente o que penso.

O texto abaixo pertence ao blog: http://lagartinhadotcom.blogspot.com/. Visitem-no quando puderem. Abraços fraternos!




CAIM, SARAMAGO E DEUS

Muita tinta tem corrido sobre o último livro de Saramago, Caim. Como só gosto de falar depois de conhecer, depressa "cravei" a oferta do livro, que finalmente me chegou à mesinha de apoio da casa de banho, local onde habitualmente começo a leitura de qualquer obra.

Tenho por hábito consultar as fontes utilizadas nos livros que leio para ver até que ponto a ficção se mistura com a realidade, pelo que neste caso, juntamente com Caim, tenho a Bíblia marcada com post it's em sítios estratégicos...

Na minha ignorância que já vem de longe, uma vez que não tenho qualquer cultura religiosa, chego à conclusão que a visão que Saramago tem do início da Vida, é mais ou menos a mesma que a minha, ou a bem dizer será mais ao contrário, já que Saramago é prémio Nobel da literatura e eu não sou ninguém, mas quero com isto dizer, que não me choca rigorosamente nada do que li até agora, muito antes pelo contrário...Abraão teve o desplante de agarrar no filho e estava prestes a sacrificar o seu rebento em nome de uma obediência servil a um ser que nem sequer tinha visto...logo, Deus, supostamente o lado bom da coisa, leva um pai ao extremo independentemente de o travar a segundos de finalizar o acto aberrante de matar o próprio filho!

O ponto da questão, quanto a mim, na obra de Saramago, é o facto de um homem de uma certa idade ter adquirido o direito de questionar de uma maneira muito particular, quais as intenções do Sr. Deus quando leva os comuns mortais a ter determinadas atitudes que alguns justificam com o "foi a vontade de Deus".

Quando tenho conhecimento que uma boa mãe, com filhos pequenos, morre de cancro, ou uma criança morre por incúria do médico, um trabalhador da construção civil cai do telhado de uma moradia e morre, quantas vezes já não questionei os desígnios de Deus? Só não tenho a experiência literária de um Saramago, ou a sua independência ideológica, para poder fazer-me ouvir e principalmente ser respondida...

Quando li o Evangelho segundo Jesus Cristo, para mal dos meus pecados dei por mim a ler o Antigo e o Novo Testamento de fio a pavio. A bem da verdade, fiquei estupefacta com o que li...ou era de facto muito estúpida, ou Deus era mesmo bera...mas uma coisa ficou ciente na minha cabecinha: Jesus foi um reaccionário muito à frente do seu tempo e não houve até hoje ninguém que tenha conseguido manifs tão espontâneas como Jesus conseguiu no seu tempo...claro que tinham que lhe "limpar o sarampo"!

Não sei realmente se Deus existe, mas se existe, segundo a Bíblia, ou pelo menos pela minha interpretação é um cadinho vingativo e rancoroso, mas no que diz respeito a Jesus, ai sobre Jesus, a história é outra: muitos seguissem os seus ensinamentos e o mundo era muito melhor!

Não me levem a mal, pois como me considero um pouco estúpida, admito que a minha leitura das Escrituras esteja completamente errada e não tenha percebido nada da mensagem, mas se Saramago entende a Bíblia como um "livro de maus costumes", eu tenho sempre entendido Deus como o "bicho Papão" das criancinhas e não só...

Só não percebo é onde Saramago ofende seja quem for...
O que escreve não é lei, não representa nada a não ser as suas ideias e as de quem as partilha, só lê quem quer, e no meio disto tudo, provoca debates interessantes e talvez alguém me explique principalmente o que leva um pai a sacrificar um filho em nome ...do quê mesmo?