17 fevereiro, 2010

MAX



MAX

Luigi Ricciardi

Max gostava de bolas. Sua memória de velho cão lhe traía, não podia se lembrar de quando chegara à velha casa. Ainda com latido fino, pequena bola de veludo, sorriso de quem morde tapetes. Sua vaga lembrança era do quicar do brinquedo lançado pelo dono. E o correr, o correr livre. A manhã para descansar à espera da chegada de quem amava. Quando o garoto chegava da escola, interações mútuas de infâncias descortinando. Após os bailaricos de criança que o levavam ao esgotamento, cantavam para niná-lo. E crescia, em pêlos e músculos. Mas o instinto canino, quimera de mundo, mostrou-lhe um dia o vão do portão. O mundo por se descortinar. Partiu.

Antes felpudo, o pelo agora surrado. Pingos de grossa chuva encharcam-lhe os ossos. O duro chão sob as marquises são seus leitos urbanos. Os gemidos das buzinas, suas canções noturnas. Suas carícias são os pontapés de boas vindas. Com olhos de divina pena, vive seu pesar, de fome. Arrasta-se de sobejos, desjejum que já lhe vem semanal, esmola de quem possui menos que ele. Percorre sozinho avenidas sinuosas, plenas de aceleradores. Às vezes outros lhe fazem companhia, cães inseparáveis dos diários lixos. O pino sol recusa-lhe água, o frio não lhe estende sequer um papelão rasgado.

E, forte como um cão pode ser, sobrevive - mas alguns menores não resistem ao ampulhetar das horas. Decerto nas esquinas está, parado, reflexivo, tentando saber qual caminho é menos obnubilado de riscos. Passa por casas com janelas fechadas de afeto. Quase não se lembra de quando tinha uma casa. Mas se aqui um dia por ventura passar, ele me verá com a bola nas mãos, pronto para recomeçar nossas brincadeiras de infância.

15 fevereiro, 2010

Conto de Última Hora


Conto de Última Hora

- Nossa que água fria, esse negócio não esquenta não?

- O chuveiro não ta bom, tem que comprar outro. Só vai esquentar isso aí mesmo.

Uma droga, pensou ele, lá vai o resto do salário. Lembrou da Ritinha, não soube a razão. Mas lembrou dela. Com ela teria casado, até se arrependera um pouco de acabar com tudo. Foi necessário, mas com ela casaria.

- Porque diabos to lembrando de tanta coisa hoje?

- Falou com a gente filho?

- Não, mãe, to pensando alto.

Sentiu vontade de descer a ladeira nos carrinhos de rolemã. Era dedo furado ou unha quebrada a cada descida. O peito deu uma cutucada e ele sentiu uma tontura.

- Deve ser a cerveja.

- Oi, filho?

- Nada não, pai.

- Ficamos felizes que você tenha voltado, viu, ficamos mesmo.

Voltara por obrigação. Tinha de visitá-los às vezes. Amava-os, mas queria viver longe.

- Nossa... faz tempo que não vou pro cinema. Será que ta passando aquele filme de morte misteriosa? Tipo aquele que eu via escondido na casa do Celso. Ah, não. Aqueles eram pornôs.

- Você disse alguma coisa, Cainã?

- Que encheção.... afff

- Hã?

Ele detestava ir aos enterros. Lembrou do tio morto, fora no seu velório quando criança. Lá, beijou a prima atrás da capela. Primeira experiência.

Outra tontura, quase que perdeu os sentidos. Segurou na cortina e bateu a mão no chão. O peito doeu forte, suou de alívio por não ter caído.

- Você ouviu esse barulho, Joaquim?

- Ouvi. Filho, você ta bem?

- To, pai. Foi só um escorregão.

- Cainã, ta tudo bem?

- Ta surdo, pai? Abaixa essa televisão que você escuta bem.

Detesta conversar com os pais quando vêem vídeos engraçados na TV. Sentiu a água cada vez mais gelada, parecia entrar nas costelas.

- Mãe, o treco aqui ta cada vez pior. Pede pro Osvaldo pendurar a conta lá e pega um chuveiro novo.

- Filho, ta tudo bem?

- Ah, que se dane. Povo surdo do caramba!

E o telefone tocando...

- Alguém ai vai atender ou não?

- Cainã, você não vai sair?

- Já vou, atende esse telefone aí. A propósito, ta ventando aí? Ta muito frio aqui dentro. Pelo jeito vou ter que tomar o banho todo nessa merda aqui mesmo.

Voou o tijolo e a multidão desviou. Bem na sua testa. Pego desprevenido. E o sangue a escorrer. Pensou que seria aquele dia. Que fosse desfalecer. Que teria chegado o momento. Lembrou de quando tirou a virgindade da Amélia. Como ela chorou, e sangue.

- Como foi bom aquele dia.

- Cainã?

Olhou pela janela e viu o céu de um vermelho esmaecido.

- Mãe, o que tá acontecendo lá fora? É frio ou chuva?

- Filho?

O frio foi aumentando. A tontura também, continuou culpando a cerveja. Não queria mais voltar ao hospital. Lá era mais frio que a casa.

- Cainã, eu vou arrombar.

- Ta louco, pai, pra quê?

Ouviu-se um estrondo e seus pais entraram.

- Mas o que isso? Por qual razão vocês quebraram essa porta?

Mas seus pais não olhavam em direção ao chuveiro. Olhavam fixamente o chão no centro do banheiro, pasmos com o que viam. Correram e agacharam aos prantos. Cainã então olhou em volta e viu muito sangue, e viu seus pais debruçados sobre seu próprio corpo, que jazia no chão frio.

03 fevereiro, 2010

BRIGADEIRO - PANORAMA LITERÁRIO BRASILEIRO - 2009/2010



Hoje recebi um exemplar da CBJE (Câmara Brasileira de Jovens Escritores) do livro “Panorama Literário Brasileiro 2009/2010 – CONTOS”. Faço parte dessa coletânea, que é, segundo a própria editora, uma reunião dos melhores textos publicados por eles no ano de 2009.

Bem, faço parte desta coletânea com o conto “Brigadeiro”. Resolvi me aventurar e ler o texto diretamente no exemplar. É uma sensação estranha e satisfatória ao mesmo tempo. Parece que não sou eu o autor daquele texto. Já tive essa sensação outras vezes, mas sempre que acontece eu me pego surpreso novamente. Essa coisa de alinhavar frases e metaforizar acontecimentos me parece tão longe que às vezes a ficha demora a cair. Acredito que qualquer um com verdadeiro sentimento e preparação para tal pode fazer uma verdadeira arte.

Eu me senti feliz ao reler o meu próprio conto, o preferido de muitos dos meus amigos e um dos meus prediletos também. A eles, e àqueles que não leram ainda, volto a postar o conto. Leiam e comentem!


Brigadeiro

Era uma vez Brigadeiro, moreno de seus doze anos. Foi o doce mais amargo que a vida já confeitou. Vivia sem procurar sentidos, sentindo, na pele negra, brancos dissabores. Desde o terceiro par de anos que tinha a lua como companheira e vivia à mercê das gotas de chuva. Perdera a mãe que pouco vira, do pai nunca se soube. Teve irmãos, que devem estar perdidos pelos morros, que por estarem mais perto do céu brincam de deuses com suas armas de Olimpo. Jamais os viu, inclusive os deuses.

Zanzava o dia todo por entre as buzinas frenéticas no centro. Tentou muitas coisas na vida, chicletes, malabarismos, e balas. Nunca encontrou sorte por essas veredas, procurou outras, com insucesso maior. E caminhava sertões de fome e seca na grande cidade engolidora.

Doía-lhe a fome, apertavam-lhe as costelas. Jejuava religiosamente dias. E nas horas do desespero tinha a visão turva, tinha tremeliques e se socorria nos galões de lixo comendo qualquer rato que encontrasse. Nessas horas não sentia cheiro, nem gosto, sua fome necessitava de outros poréns.

Em seu mais recôndito canto, e não se sabia como, Brigadeiro cria não ser difícil existir, mas sim viver, com essa miséria nua e existência despercebida. Uma vez ficou horas do lado de dois senhores que conversam, a pedir gorjeta pela exibição de suas piruetas, enquanto os homens conversaram sem dar pela presença do menino. E com sua honra despida saiu a soluçar suas lágrimas de anjo escorraçado.

Porém Brigadeiro também tinha amigos. Fê-los nas andanças e desaventuranças de seu existir cataléptico. Brincavam de comer doces e de serem mágicos. Certa vez, nas brincadeiras inocentes, um dos amigos, com seu graveto-cetro de poder, tocou na cabeça de Brigadeiro, e o transformou em doce. Uma das meninas correu a lambê-lo, mas gritou com nojo ao tocar a pele suada do menino. Depois disse:

- Você não tem graça Brigadeiro, você não é doce, e não tem nada que te cubra.

E naquele dia, aprontando-se para dormir nas gélidas calçadas defronte aos belos apartamentos da cidade, Brigadeiro, que procurava algo com que se cobrir, pensava, pensava e ficava sem entender o que a amiga havia dito. Nunca conhecera o doce, ou melhor, pelo menos achava que nunca tinha visto, já o vira sim, mas não associou o nome à coisa.

Por vezes um passante caridoso dava-lhe moedas, ou mesmo algo para enganar sua peste. Sorria, o sol enfim das nuvens saía, e ele saía a correr. E então, no nirvana de sua tênue alegria procurava os amigos para dividir as migalhas que recebia, e todos alegres e contentes com seus estômagos quase inexistentes, mas cheios, partiram para as brincadeiras de fim de tarde.

Os dias se passavam e Brigadeiro não conseguia nada com que se forrar, nem seu verdadeiro choro nas esquinas das lavadeiras ajudava a alma faminta. Via muitos carros passando, alguns tinham as janelas abertas, e as pessoas que estavam dentro ofuscavam sua vista com alguma coisa que colocavam nos olhos que mais parecia o sol. E todos eles tinham os dentes brancos, a pele alva e os cabelos cheirosos e doces, porque Brigadeiro, mesmo com a distância, conseguia cheirá-los.

Sentiu vontade, então, de comer doce, daqueles que viu, certa vez, vários homens preparando pela vitrine da padaria. Era um doce preto, preto como ele, feito em bolinhas com alguma coisa da mesma cor a cobri-los. Mesmo com a loja fechada pôde sentir todo o frescor da paz que exalava do chocolate vindo da padaria. Quis saber que nome tinha o doce, e nunca veio a saber que o doce se chamava como ele mesmo. E ali ficou, por minutos, Brigadeiro olhando brigadeiro. Eram parecidos na cor, iguais no nome. Mas o doce era o sussurrado aljôfar das confeitarias, e ele o surrado, o sofrido, o amassado produto da sociedade moderna. Foi a única vez em que se viram.

Na noite fria e insensível, com a fome a arrancar-lhe gemidos, eis que passa um homem, de cabelos negros e pele com coloração parecida. Ao ver Brigadeiro sentiu pena, lembrou-se de quando era menino, e quanto a fome era um mistério para ele. Com o passar dos anos acostumara-se a comer menos e conseguia assim arrastar seu existir. Acabou por parar ao lado do garoto, e então lhe ofereceu metade de seu jantar, um bolo que achara nos fundos do supermercado. Brigadeiro nem conseguiu agradecer, seu instinto foi mais rápido, e sem sequer olhar o rosto do samaritano, devorou seus pedaços em pouco tempo, aliviando sua existência. O homem partiu, com o estômago cheio e a sorrir lembrando seus tempos de criança.

A noite esfriava cada vez mais, e Brigadeiro, de tão feliz que estava sequer se cobriu, nem procurou algo para dormir. O sono veio rápido, tão logo havia comido. E com um sorriso aberto nos lábios, Brigadeiro partiu, não se sabe em razão da grande quantidade de comida, ou pelo frio que à noite mandou. Acharam-no na manhã seguinte, ainda com o sorriso nos lábios e a pele levemente roxeada. Despediu-se desta confeitaria, onde foi, durante todo o tempo em que existiu, amassado, polvilhado, e porque não, muitas vezes assado, e no fim descartado.

Foi uma vez Brigadeiro, o doce-amargo do existir inconsciente e do ser-não-ser desta terra não gentil.