19 junho, 2011

NÁUSEA




NÁUSEA
Luigi Ricciardi 

            Aos cinco anos descobri a finitude das coisas. Quando entendi, diante da TV, que a novela acabara, única visão de mundo belo que tinha, que nunca mais aquelas cenas que tinha visto iam voltar, a angústia tomou conta do meu pequeno peito, e como só isso sabia fazer, chorei! Aos sete, sob a ducha, lembrando das aulas de geografia, tive tonturas e desmaiei ao tentar imaginar o tamanho do universo. Meu pai me disse no dia seguinte que no ano um os deuses tinham chegado na terra, e que a partir dessa data eles haviam criado tudo o que existe. E tive enjôos tentando desvendar o mistério de quem tinha criado os deuses.
            Reconstruí-me, simbolizando-me para tentar viver. Mas descobri que a sobrevivência é a morte. A finitude é a morte da existência. Algo morreu para que eu não morra: uma planta ou uma vitela para meu jantar. Nada mudou. No começo, ao sair das ocas, algum tigre nos esperava, ou mesmo uma aranha sobre a grama alta. Hoje, uma desatenção e se tem um corpo atropelado na esquina, ou uma bala atravessando a janela. Só o predador é que mudou.
            O amor também é a morte, a morte de si. O não-amor também, do outro. O sexo é a morte da inocência. O não sexo, a do prazer. Ter filhos mata a individualidade. Não tê-los é a morte da continuidade. Manter-se acordado à noite é a morte do sono. Dormir é assassinar a libido. Os toques tilintares e pontiagudos do tempo gritam por pressa. Empurram-nos ao concreto, pressionam nosso pescoço e com os dentes encarnados sorriem diabolicamente gritando morte. Os meus ídolos, todos jovens nos vídeos que vejo ininterruptamente nesta imensa tela, se já não estão mortos, estão a caminho quase completo.  Todos eles foram empurrados à parede e viram a mesma ironia capetística do tempo.
            Ninguém pode ser eterno e isso me agride. Tudo é construído e derrubado com um sopro. Incomoda a verdade nua contra a qual se luta e da qual nos escondemos. E se fantasiam parques para esquecê-la. Menos horrenda é em nossos pensamentos se há um colo quente. Mas o colo quente esfriará um dia na tumba. E contradição inerte: idéia de morte agride, idéia de existência ataca. Não deram cartilha, não me perguntaram se eu queria ingresso para esta festa pobre que armaram pra me convencer. Nem sequer me disseram que haveria gosto de fel, não me ofereceram cigarros. Eterna insatisfação de estar vivo, eterno desejo de viver eterno, se hoje riem as rosas de um jardim florido, amanhã as dores nos avisam o instante funéreo.
            A juventude, tão tenra ontem nos jogares de futebol, no despertar dos pubianos, hoje divide espaço com um adultismo infantil neste corpo que já começa a não responder a certos desafios como outrora. Os estudos extorquem todo o feixe de tempo que resta do trabalho. As bebidas disfarçam os penosos pensamentos direcionados à fatalidade do fracasso. Os anos sessenta se foram há duas horas.
Escondo-me, disfarço-me ou reinvento-me? Se eu fosse eu todo o tempo, mandar-me-ia à cadeia. Se o Eu, conjunto de todos os outros Eus que vivem em mim, estivesse nu, rangeriam dentes, cairiam queixos, olhos seriam tapados. O nu do meu Eu escandaliza, choca, contudo não causa tanto impacto nos outros quanto causa a mim mesmo. Meu Eu me machuca, fere-me, mata-me. E só por isso me ressimbolizo e me construo o tempo todo. A realidade nunca é o real. A realidade é o real disfarçado.
Ando caminhos. Ruas sem vida, ao centro. Ruas que vão, mas não levam ninguém a nada. Sua simples existência é nada mais do que uma criação. O mundo é uma criação? (Dúbio). Ao menos sabemos que é fugaz. A existência é fugaz. Foi-se, e não se sabe que se existiu. A última janela acesa daquele prédio acaba de fenecer, lembro-me da vida, que fenece ao sopro do coração, ao apertar de um botão, ao piscar dos sentidos. Daqui não se vê, julga-se que, pela hora avançada, apenas alguém de olhos cansados resolveu tentar esvair-se das dores de estar só, e foi deitar. Se calhar, no meio do sono, acredita que deve alongar-se mais, e, então, estenda-se a um sono eterno, como aquele mendigo ali, enrolado no papelão. Vive com refeição de anteontem. Ele, de fato, não existe. Afinal, o que é a existência senão um pedaço de pão?
E tal como um velho que mastiga seu dia-a-dia, arrastando-me objeticamente sob a chuva fria, com dentes podres e alma flácida, vejo na poça um reflexo ácido. Mas, sábio Pessoa, a metafísica talvez seja só mal humor. Uma cadela a atravessar a rua pode mudar o rumo das reflexões, o rabo que se põe a balançar perdoando o pecado de se ter criado o mundo. Um afago rápido e gratuito e logo após um adeus. Os cães são verdadeiramente animais divinos, mesmo que os divinos não existam.
            Mas o vento balança os galhos freneticamente, sobretudo aqueles sem folhas. Vai a cadela a atravessar novamente a rua: buzinas e freadas. Frágeis ossos de doçura não resistirão à dureza humana. O grito ecoa nos ouvidos e essa imagem me perpetuará. Ao seu dono, se é que ela o tem, dirão, pegue outra. Vã conclusão de motor. O existir é singularmente único, não se repete em dois seres sequer uma vírgula. E me vejo em Vidas Secas, aquela cadela na verdade foi morta por mim, é Baleia agonizando. O mundo, no fundo, é feito de senãos! Eu hei de ter criado esse mundo. E uma chuva cinza e espessa castiga meu ateneu.