31 julho, 2013

Migalhas Românticas




Migalhas Românticas
Luigi Ricciardi



Não me pergunte essas coisas
Porque não sou dicionário
Descuido-me dessas competências
Ando perdendo pedaços no caminho
E recolhendo outros
Onde meus passos se desencontram
De modo que esse rótulo é efêmero
E só sei falar de mim no segundo
No tempo mal contado
Mas não perca o passar
Continue falando
E observe como tudo é calculado
Foi naquela lixeira
Logo após a curva
Que eu perdi quem eu fui
Olhe aos avessos
Pra ver se você se reconhece
Mas me fale de você
O que foi que viu?
Concluiu algo nisso tudo?
Quanto a mim
Nos últimos séculos
Só tenho dor de dente
Mas me fale alguma coisa nova
Eu já li os teus poemas
São tão ruins quanto os meus
Se for pra falar de poemas
Vamos transar
Que dá no mesmo
Não concorda?
Às vezes penso ser o único
Que acha literatura e sexo
A mesma coisa
Mas isso depende
Depende se eu bebi muito
E eu nunca sei medir isso
Mas eu me lembro que você disse
Que tinha lido os beatniks
E a galera da poesia marginal
E que não gostou de nenhum deles
Vai ver que você é parnasiana
E ainda não entendeu aqueles caras
Ou escolhe os errados pra ler
Até porque hoje é fácil escrever
Ser Cult e falar palavrões
Criar títulos que são frases sem nexo
Ser marginal agora é centro
E quem não é nem uma coisa nem outra
Vive suspenso, como se não existisse
Mas subir no monte Parnaso
No século XX é tomar várias doses
De bebida estragada
Mas me diga verdades augustas
E responda minhas perguntas
Há algum céu que nos aceite?
Vamos, diga algo
Não, na verdade não diga nada
Pois você nem existe
E eu só falo com você
Pressupondo interlocutor
Sendo então ato de fala
Monólogo dialogizado
Puxa, lá vou eu de novo com teorias
Sou eu sempre revisitando portas
Mas a que vai para meu peito é fechada
Já viajei estratosferas
No entanto, nunca estive em mim
Veja esse meu quintal
Onde havia canteiro de cebolas
Hoje há estante de livros
O viveiro agora dá lugar
A um guardarroupa mofado
E a mangueira,
Que protegia do sol enluarado,
Dá lugar uma cama quente
Que não me esquenta
Nem no inverno
Das jornadas tropicais
O mundo nunca é igual
E somos ingratos!
No fundo, preciso desarmar o ego
Só na entrega é que há poetas?
Tenho algumas décadas
E tomo oito comprimidos por dia
Meticulosamente me diga
Onde erro mais?
No vacilo da questão mal posta?
Na dúvida da afirmação retificada?
Ou no vão da tua bunda?
Quando eu morrer, escreva na lápide:
“Não o louvaram enquanto assinava 
Alguns poemas sobre a vida
Andando, tomou sopa fria
E vendeu dois exemplares
Hoje perdidos em gavetas”
Mas hoje a coisa será diferente
Hoje acordei Bob Dylan
Feito pedra rolando
Hoje serei meio Leminski
Não tirarei o meu bigode
Vou te chamar pra viver comigo
E ver se a gente descobre algo
Não sei muito das coisas
Mas vou tentando
Mas essa utopia passa
E o mesmo mesmo
Me reinclui nas normalidades
O que você pensa sobre o fracasso?
O que é ser fracassado?
Você é fracassada?
Ah, deixa pra lá, não responda
Eu já me entendi
Eu já te entendi, sujeito inexistente
Sujeito existentemente precisado
Sujeitinha ardente
Eu entendo você
Você acha que a vida dói
Dói de uma dor de não se suportar
É por isso que você se veste assim
É por isso que você dá pra mim
Pra ver se morre mais rápido
Pra ver se essa respiração cessa
E logo você se dizendo esperançada
No fundo você tem esperança
Morrer é a luz no fim do túnel
Credo, como você é romântica!
Desenhe a linha
Vamos, pegue esse giz
Desenhe a linha da loucura
Balance as nádegas
Descole tuas tatuagens
Você tem que se desnudar
Amputar um braço
Arrancar um dente
Desengessar a perna
Cortar o bico do seio
E me dar banho de sangue
Escreva nosso nome no muro
E depois o derrube com um sopro
Faça o que quiser
Pra que se explicar?
Mas continue andando comigo
Até esse dia chegar
Atravesse aquela rua
Vamos evitar aquele parque
Vamos àquele beco
E me jogue naquela poça
Ali sou verdadeiramente eu
E me recolha cheio de mim
Para me perder na primeira brisa
E nessa tensão queimaremos
Como blocos de gelo em solo africano
Será que existe Canaã?
Réjouir c’est à la mort ou à la vie ?
Verta sangue nas minhas têmporas
Talvez eu entenda Augusto dos Anjos
Marque dia e hora
Assim vou saber quando renasci
Vou atear fogo aos livros
E você desconstruindo esse teu corpo
Eu tirando a bolsa de olheira
E você se masturbando na minha frente
E o sibilante universo
Deixando as coisas acontecerem
Como elas quiserem
Porque ele tem mais o que fazer
Ser universo dá trabalho
É preciso conversar sempre com Deus
Seu interlocutor inexistente
Vamos ser chacais um do outro
Só não me decepe
E eu prometo não te amar
Bem, não posso prometer tudo
Meu cálice de niilismo diário
Ainda é dosagem pequena
O médico não aumentou receita
A falta do medicamento
Traz efeitos colaterais
Tal criação de mundo na palma da mão
Coisinhas de casais
Comprar flores e bilhetes de cinema
Mesmo aos pedaços
Ainda construímos torres
Eu já deveria ter parado com a cerveja
É ela que faz literatura
E atrapalha meu niilismo
Acabo ficando pirocudo
E te chamo pra dançar
Boleramos, beatnikamos.
Na aspereza dos botecos pobres
E te chamo de Tristessa
Aquele amor impossível
Meio spleen século dezenove
Mas não me faça perguntas bobas
Não sei se vou te amar
Até dobrar a esquina
De fato, não sei se vou te amar
Por toda a minha vida
Não sei se vou te amar
Mas cá estamos e isso basta
Mas nem disso tenho certeza
E ter certeza é tão fácil
Crer é tão básico e inerente
E eu vivo a duvidar
Da certeza e da dúvida
Da sanidade e da loucura
Do prazer e do sofrimento
Das tuas pernas quentes
Mas me diga
Como viemos parar aqui?
Levante esse lençol
E me prepare um café
Eu vou andar
Quero que me siga
Só não me perguntes
Coisas tristes e alegres
Pois disso sei pouco
Só não me perguntes
Nada muito preciso
Pois não entendo de nada disso
Porque não sou dicionário
Descuido-me dessas competências



12 julho, 2013

O DEUS DE JOÃO

As personagens participantes desse conto são de mera criação artística, não correspondendo à realidade e a nenhum fato real ou grupo específico. 


O Deus de João


A saga de João de Deus, Discípulo Fervoroso de Nosso Senhor




Luigi Ricciardi

            João de Deus, filho de pais evangélicos, morava em um bairro da cidade de maioria judia. Quando criança, brincava apenas com os filhos dos irmãos da igreja, quando estes lhe faziam visitas constantes: uma vez por semana, tempo considerado suficiente por seus progenitores. Sua mãe não gostava dos meninos da região, lhe pareciam sempre sujos, faltava-lhes um banho. João de Deus ao contrário, ela limpo, sempre bem arrumadinho, camisa engomada, bermudão novo, sapatos limpos. E quando brincava com seus amigos-irmãos, o fazia nos fundos de seu grande quintal, não seria muito agradável que o menino ficasse exposto assim na rua, os vizinhos eram perigosos. O menino não se importava, seguia rigidamente os preceitos da mãe, e era feliz em seu refúgio.
             Quando o jovem João terminou os seus estudos no Colégio Evangélico, seu pai o encaminhou direto para escola de Teologia, onde iria ingressar definitivamente nos caminhos do Senhor. E sentia-se chamado, um ardor no peito e uma profecia infantil o levariam a ser um homem da Palavra. João estudava o dia todo, e orava durante a madrugada. Nos finais de semana voltava à sua casa, voltava à sua igreja, onde fora criado e que tinha como seu lar. Gostava de ver as pessoas cantando, os corpos se mexendo, e os fortes meninos que tocavam na banda. Desde que entrara para a escola, parte das doações do culto eram destinadas para ele, uma ajuda do pastor para ajudar nos custos dos estudos, nada mais justo.
            Todas as quartas eles eram liberados para dar uma volta pela cidade, sob o argumento do diretor da escola que dizia que eles tinham de ter contato com o mundo lá fora, para combaterem, futuramente, o pecado e os hereges. Gostava de aproveitar esses passeios já que tinha um dinheiro extra doado pelo pastor. Tomava seu sorvete, comprava uma revista masculina e depois se encaminhava com alguns amigos para uma sessão de cinema erótico. Lá via pessoas se masturbando e até transando dentro da sala. Sentia-se excitado, mas se controlava. Afinal, aquelas saídas eram para ter contato com os pecadores, para depois combatê-los.
            João de Deus aos quarenta e cinco anos era pai de família, pastor conhecido por seu discurso ungido. Tinha duas lindas filhas e uma esposa digna de seu status. Durante algum tempo, a igreja que assumira, vivera cheia de fiéis. Porém, com a reforma católica do século vinte, ele viu sua igreja esvaziar. Contudo, João não desanimou por nada, e como era um homem de Deus decidiu que iria levantar sua igreja. Como João era um sujeito de muitas posses e boa conta bancária, devido ao tempo em que os fiéis freqüentavam sua casa, ele decidiu dar o que comer para algumas famílias pobres, que com suas pseudo-enfermidades, passaram a ilustrar bravamente os cultos de João, que com seus milagres foi trazendo novamente fiéis à sua casa.
            Uma de suas filhas, Mariana, a primogênita, em meio às suas descobertas começara a namorar por volta de seus quatorze anos. Com medo de possíveis percalços antes do casamento, João de Deus tratou logo de marcá-lo, aos exatos dois meses de namoro de sua menina. Contra sua vontade, ela se casou. Entrou por uma porta da igreja com vontade de sair por outra. Desde criança, ela quisera botar em prática suas vontades, mas seu pai correu logo a educá-la. Nada de brincadeiras nas ruas, nada de ter amizades no colégio. Jamais a levou para comer uma pizza ou tomar um sorvete, as mulheres deveriam ser privadas do contato com o mundo pecaminoso. Tudo em prol, claro está, de fazê-la a mais pura serva de nosso Deus.
            O casamento de Mariana foi estável por apenas alguns anos. As brigas começaram e seu pai dava razão ao genro, um bom homem de Deus, como ele. A mulher que não obedecia, com justa razão, não era querida no Reino dos Céus. Quando o casamento acabou, seu pai a trouxe de volta para casa, preservando-a dos perigos mundanos. Mariana, já com vinte anos, só sairia de casa para as aulas. Pai cuidadoso e dedicado, João de Deus não permitiria filmes, músicas, passeios. Iria, com todo amor do mundo, recuperar sua filha, e assim fazê-la voltar para o caminho do Senhor.
            João de Deus também fazia trabalhos sociais. Visitava várias famílias todas as semanas, levava-lhes a palavra, um conforto para a fome e o desemprego. Depois das orações, as famílias lhe serviam chá, biscoitos e quase sempre lhe presenteavam com um vinho. Todos saíam felizes, inclusive as famílias, pobres, endividadas, mas cheias do espírito do Deus. Em uma dessas visitas, João de Deus conheceu um menino chamado Inocêncio, de família periférica, e de roupa suja. Carregava doze anos, porém davam-lhe ao menos quinze. Trabalhava cortando madeira com o pai, o que lhe deu, bem cedo, braços e pernas fortes e uma vitalidade que fazia inveja.
            João de Deus “adotou” o menino. Três vezes por semana, o pastor o recebia, em seu salão de estudo e orações, para lições bíblicas, conversas soltas e conselhos sobre a vida, apertões na virilha e trabalho oral. O garoto tinha o semblante de sua irmã, que recebia a visita do pastor todos os sábados pela manhã. A garota sofria de problemas psicológicos e por conta de seus gritos demoníacos o pastor fechava janela e porta do quarto no qual a atendia. Meia hora depois, quando João se despedia, a mãe da garota a encontrava toda suada, sem as vestes, e envolta em seu cobertor. E ali, vendo as partes torneadas de Inocêncio e seu belo cabelo escorrido, João de Deus se encantou pela beleza do garoto, que passou até a gostar quando o pastor tocava-lhe o púbis, já ereto pela descoberta mundana.
            O tempo ia passando e a igreja já transbordava fiéis. Foi necessária a construção de um novo templo, três vezes maior que o original, com estacionamento e até lanchonete. As doações aumentaram e a construção foi finalmente concluída. Ao mesmo tempo, por conta da falsidade da vizinhança, João de Deus mudou de um bairro de classe média para um residencial retirado da cidade, onde, em mansões de ouro e tapete de pérolas, moravam prefeito, vereadores, advogados e médicos do sistema público. Era preciso que o pastor, certamente um homem de Deus, fosse para um lugar digno de suas qualidades. Os fiéis assim concordavam.
            Com o novo templo, João de Deus conseguiu até adquirir um canal de TV. O lançamento foi divulgado três meses antes, e a primeira transmissão seria uma pregação no maior culto já previsto em sua igreja. Passeatas foram organizadas, carros de som desfilavam nas ruas, panfletos eram entregues. Não se esqueceram de seus irmãos: invadiram mesquitas, catedrais, sinagogas para levar a palavra de Deus àqueles que a distorciam. Foi nesse tempo que João, homem fervoroso, teve uma visão, na qual o próprio Deus, mostrando a ele sua face, pedia o aumento do dízimo para cinqüenta por cento do salário, em prol da manutenção da TV, que era uma obra divina, uma missão destinada a João.
            Naquela noite de estréia, João novamente deu comida aos pobres. Trinta e três milagres foram realizados. Cegueiras, loucuras, e até lepra foram levadas dos fiéis. Deus, em seu pedantismo hermético, pregou encolerizado com os escândalos dos padres que aliciavam menores. Condenou todos aqueles que largavam um casamento, e todos aqueles que traíam. Condenou os judeus por não acreditarem no Salvador, atacou os negros em razão dos seus falsos deuses, e ao fim, afirmou que o verdadeiro e único amigo de todos era Jesus Cristo. Foi aclamado, e as doações daquela noite chegaram ao seu recorde. As imagens foram levadas a milhões de pessoas que se convertiam pelas palavras santas do pastor. Deus foi cumprimentado ao fim, louvado, e teve de sair correndo para não ser abraçado pela multidão que o adorava.
            Ao fundo, saindo da igreja, ele cruzou com um homem que caminhava devagar e que tinha vestes úmidas e sujas, o cabelo emaranhado e uma bengala na mão esquerda. O homem passou por ele e apesar do caminhar sôfrego e do odor ocre que exalava dele, ensaiou um sorriso com seus dentes podres para o pastor. Aqueles eternos segundos de cara com Diabo deram náuseas ao Pastor, o odor infernal da miséria mais nua cravou em seu peito um sentimento desgostoso. Acreditou, no momento, ter passado pelo mais terrível crivo do inimigo e deu graças a deus pela sua salvação. Pegou seu carro e saiu.
            Virando a esquina, ele viu, por trás da banca de revista, Inocêncio a receber doces de um padre. Este, quando viu Deus acenou, afinal, eram grandes amigos de sextas-feiras, onde além de jogar cartas, viam desfiles de mulheres seminuas, num projeto secreto que os dois tinham que recebia o nome de Cruzadas contra os hereges que frequentavam as noites da cidade. Distraiu sua mente, feliz da vida, lembrando-se dos aplausos e das doações. Deus sentiu que deus pousava a mão no seu ombro, sentia-se abençoado, um homem divino, e também, claro está, um exemplo a ser seguido pela nação. Não iria para casa naquele exato momento, dirigia-se para uma outra missão, mais nobre que a pregação televisiva. Dirigia-se para a casa de Inocêncio, aonde iria, a portas trancadas, orar incessantemente para a cura de sua irmã, que padecia da carne do Pastor.