29 dezembro, 2009

Clube de Leitura Pessoa de Saramago Assis


No último domingo, 27/12/2009, deu-se o quarto encontro do nosso Clube de Leitura. O livro discutido foi
Leite Derramado de Chico Buarque. Os encontros anteriores nos deram a oportunidade de discutir 1984 de George Orwell, A Hora da Estrela de Clarice Lispector e As Intermitências da Morte de José Saramago. Há duas enquetes no ar para a escolha do novo livro, que será discutido no dia 24/01/2010. Ambas se encerram no domingo dia 03/01/2010. Eis os links:



Venha participar. Todos estão convidados. Mesmo aqueles que não leram a obra escolhida.

10 novembro, 2009

CONCURSOS E PUBLICAÇÕES


Olá, pessoal.

Quero agradecer as pessoas que leem os textos aqui no blog e incentivam a minha produção. Informo que ganhei em primeiro lugar o Concurso Nacional de Contos e Poesias da FAFIMAN em Mandaguari/PR com o poema "Dança das Máscaras". A entrega do prêmio será feita na quarta 11/11/09 no auditório da faculdade.

Abaixo, quero deixar o link de todos os meus textos publicados pela editora Câmara Brasileira, onde possuo estrela dourada: + de 50 mil leituras. Se tiverem vontade de ler, fiquem à vontade. Obrigado + 1 vez. Abraços!


CONTOS:

http://www.camarabrasileira.com/quem09-041.htm

Quem? Contos Selecionados

Texto: Fugacidade do Instante

http://www.camarabrasileira.com/contouro09-008.htm

Livro de ouro do conto Brasileiro

Texto: Tribos

http://www.camarabrasileira.com/contout09-027.htm

Contos de outono

Texto: A Lua

http://www.camarabrasileira.com/contsel08-002.htm

Contos Selecionados de Autores Premiados

Texto: Delírios e Chaminés

http://www.camarabrasileira.com/secon08-029.htm

Seleta de Contos de Autores Contemporâneos

Texto: Brigadeiro

http://www.camarabrasileira.com/contsel09-037.htm

Contos Selecionados de Novos Autores Brasileiros

Texto: Amor de Infância

http://www.camarabrasileira.com/acol18-013.htm

Antologia de Contos Fantásticos – Volume 18

Texto: Em Busca de Liberdade

http://www.camarabrasileira.com/acol17-034.htm

Antologia de Contos Fantásticos – Volume 17

Texto: À Porta da Metafísica

POEMAS:

http://www.camarabrasileira.com/ouro09-016.htm

Livro de ouro da poesia

Texto: Vida Obliqua

http://www.camarabrasileira.com/apol52-003.htm

Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos – Volume 52

Texto: Rosa de Fogo

http://www.camarabrasileira.com/apol51-051.htm

Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos – Volume 51

Texto: Se Soubesses

http://www.camarabrasileira.com/apol50-049.htm

Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos – Volume 50

Texto: Curvas para o fim

http://www.camarabrasileira.com/sens08-027.htm

Sensualidade em Prosa e Verso

Texto: Romance Ideal

PROXIMAS PUBLICAÇÕES

http://www.camarabrasileira.com/panorama2009conto.htm

Os Melhores Contos de 2009

Texto: Brigadeiro

http://www.camarabrasileira.com/panorama2009poesia.htm

As Melhores Poesias de 2009

Texto: Vida Obliqua

24 setembro, 2009

Victorium Vitae



O post anterior é uma música de Marcelo Camelo que conta mais ou menos a bronca de um amigo para o outro. Um sofre e não enxerga, o outro vê e pede para que ele sente e ouça os fatos!
Nesta vida fugaz, é preciso aproveitar cada luar que sorri à sua janela, para que ao chegar o dia de deixar este mundo, seu peito já saudoso possa sentir as palavras ditas nesta canção de Fábio Fernandes, meu grande amigo e escritor.
É a vitória da vida sobre o desânimo, do sorriso sobre a lamúria. E como diz Cartola, grande sambista e gênio na arte da vida: "A sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi a mocidade perdida.
Fico feliz em ter dado a sugestão para o nome que a canção leva.




Victorium Vitae


Me diz

o quão foi leve

a vida breve

que eu levei


Eu fiz

o tempo alegre

do sol a neve

sorri chorei


Eu fui humano

sem medo ou plano

certeza, engano

me apaixonei


Eu fiz amigos

dobrei os sinos

pelos franzinos

que eu amei


Eu fui a luta

penei labuta

peão e puta

não declinei


Eu fiz riqueza

vivi pobreza

e sobre a mesa

desesperei


Mas meu destino

bom ou cretino

diabólico e divino

fui eu que fiz


E satisfeito

de alma e peito

em calmo leito

descansarei


Fabio Fernandes

TÁ BOM - Los Hermanos


Senta aqui
que hoje eu quero te falar
não tem mistério não
é só teu coração
que não te deixa amar
você precisa reagir
não se entregar assim
como quem nada quer
não há mulher irmão que goste dessa vida
ela não quer viver as coisas por você
me diz cadê você aí
e aí não há sequer um par pra dividir

senta aqui
espera que eu não terminei
pra onde é que você foi
que eu não te vejo mais
não há ninguém capaz
de ser isso que você quer
vencer a luta vã
e ser o campeão
pois se é no não que se descobre de verdade
o que te sobra além das coisas casuais
me diz se assim esta em paz
achando que sofrer é amar demais

13 setembro, 2009

1984 - George Orwell


Estou lendo o 1984 do George Orwell. Entre tantas citações interessantes, recorto esta abaixo para mostrar como é a sociedade futurista retratada pelo autor. Se a impressão de "déjà-vu" vir a tocar-lhes os sentidos, saibam que não foram os únicos. É ou não é o que vemos por aí?



Olhando a cara sem olhos, a mandíbula mexendo sem parar, Winston teve a sensação curiosa de não se tratar de um legítimo ente humano, mas de uma espécie de manequim. Não era o cérebro do homem que falava, era a laringe. O que saía da boca era constituído de palavras, mas não era fala genuína: era um barulho inconsciente, como o grasnido de um pato.
George Orwell, 1984, pg. 54

08 setembro, 2009

Ode à Liberdade

Salvo a microfonia, o resultado ao vivo da canção que nos trouxe de volta aos palcos foi boa. Obrigado aos amigos que compareceram e/ou torceram. Iremos participar do Festival de Jacarézinho com a mesma canção. Já que o vento sopra perto, sigamos o rumo incerto!

Ode à liberdade

(Luigi Ricciardi, Lucas Sant'Ana & Laís Barbiero)

Papapapapa.....

Se acaso o vento sopra perto

Quero seguir um rumo incerto

Me desmanchar em rarefeito ar

Se aos meus pés viesse a liberdade

No pôr do Sol, ao fim de tarde

Posso me aventurar em ti, oh mar!

Pelas estradas,

Mil devaneios,

Se é fantasia não vou me importar...

La la la....

Sentir-se livre é estar sobre a montanha

Compreender a força estranha

Como maná poder se derramar

Na areia branca ver seus passos

Nuvens dançando o seu compasso,

Na melodia ver-se inspirar...

Hoje estou livre!

Que devaneio...

Se é fantasia vou continuar...

La la la

Papapapapa.....

Pelas estradas...

Papapapapa.....

video

31 agosto, 2009

Escopo


Escopo

Até certo tempo eu era um alguém que queria eternizar as coisas.

O fim dos relacionamentos, amizades, empregos, fases, eram-me inaceitáveis.

Porque em mim tudo deveria ser eterno, durar sempre, não se perder nunca.

A dor de restabelecer tudo após um fim tornava tudo difícil.

Só mudei quando realmente percebi a finitude das coisas e da vida.

Vi que o fim das coisas precisa chegar, mesmo em dores.

Os anos se foram passando e o acúmulo de fins e incertezas subiu aos tetos.

Hoje entendo que a grande parte das coisas são criadas para não durar muito.

Notei também que, apesar de ter quisto o contrário, não sou um homem de coisas eternas.

Sinto por vezes vontade de deixar as coisas pela metade, outras vezes as abandono no inicio.

Outras vezes vou até o fim delas porque, sim, tudo tem seu acorde final.

O “para sempre” já me assusta. Descobri o novo, a não-rotina, e isso agora é a essência.

A cada dia me sou novo.

A cada semana me modelo.

A cada mês me reconstruo.

A cada ano, renasço.

Mudo de opinião, de pensamento, de vontades.

Não sou influenciável, não no seu estado pejorativo.

Contato-me com as forças, visões e sentidos

Das coisas que me cercam.

Daqueles que já viveram antes de mim.

Das notas, das palavras, do ar da época, e do passado.

E a vida assim vai somando páginas na coletânea da biblioteca universal.

E sinto-me livre, aberto a possibilidades.

Aproveitando cada momento na sua plenitude.

Sabendo que amanhã pode não se haver mais.

Até que a última canetada seja dada na última página da história.

Que por si não é estanque,

Mas conta o que fui, o que sou, e o que serei.

Em constante transmutação.

Esperando que a derradeira gota de tinta demore sempre a chegar!

25 agosto, 2009

Manhã Dolosa



Salut à Tous!

Gostaria que opinassem sobre esse meu novo conto, um pouco diferente do que normalmente escrevo. Quem nunca passou por essa situação? A de ver uma quimera ruir-se? Abraços a todos!



Manhã Dolosa

No indesejado retiro a que fora submetido, de longe, avistava o vil correr sem definições das multidões aceleradas. A noite, irmã das fugas diárias, andava-lhe arredia. Da janela do edifício, ponto alto da dor, via o mundo girar e parar no mesmo lugar de onde saíra. A solidão era a gadanha da senhora morte a roçar-lhe o pescoço em busca de sangue. E a brandura ou tempestade das atrações era uma ventura que lhe fora tirada desde o abrir das páginas desta história. Mas nos devaneios da tortura, ele fantasiou sua mais bela quimera.

Da cama, viu-a entrar pela porta. Vinha cadenciando seu grassar. Passo a passo, como numa dança vagarosa ao tom do silêncio, veio caminhando em sua direção. O aroma que brotava no quarto tocava a primeira nota da orquestra onírica. Veio rodopiando seu corpo-valsa, tocando outras notas dissonantes. Nos calcanhares, passos então desconhecidos que vieram inflamar o ambiente agora auspicioso, outrora adverso.

Ela tinha um sorriso de lua nova, daqueles que se destacam mesmo com o céu negro. Olhar de maçã verde, tez do puro açúcar, poros lânguidos de cornucópia. Versava amores ao fitar-lhe nos olhos, e seu colo, já seminu, chamava-lhe à loucura. Nesse instante, viu para que fora chamado no nascimento, e assim tocou-lhe o colo, beijando-lhe os lábios. Em um instante, menor que um piscar de olhos, nua, de costas, ela lhe oferecia seus sentidos. Subindo ao proscénio, no dançar das cadeiras, como um beija flor, sugou o pólen da vida, da magnânima flor dos desejos.

Nos rostos ensalmados pelo deleite, via-se derramar lágrimas de seus olhos; ele a contemplava quase sem crer na oferenda recebida, enquanto que ela lhe sorria crepusculamente, a explodir com seguidas fruições. Chocando-se, rio e terra, tocaram o tecido celeste, indo bater à porta do criador. Deitados, extasiados, brandamente tocavam as faces alheias e dialogavam com o infinito tendo os olhos fechados.

O céu já está laranja, pede para o dia começar. Se Deus não existe, o mundo é um caos. Se existe, o caos continua, mas tem-se um alento. Criou-se um Deus divino para acalentar os espíritos. E no ensejo do amor, uma voz desconhecida, não se sabe se Deus ou a própria vontade, sussurra aos seus ouvidos, Tornarão a se ver onde não há treva. Encontrem-se onde a escuridão não lhes possua.

Ao levantar, já com o dia alto, uma ira tomará conta dos sentidos dele, e um urro sobre-humano será dado de suas profundezas humanas. Dolosamente, ele maldirá o sonho da noite, tendo novamente a solidão como companheira inseparável.

A uma distância desconhecida, uma mulher acordará com sua pele ainda eriçada a se lembrar dos suspiros da noite anterior. Lembrará dos passos que fez, dos frêmitos que sentiu, dos afagos que recebeu e retribuiu. Ela chorará baixinho ao recordar de seu sonho feliz, que partilhou conjuntamente, por uma noite, com seu amado. Retornará ao isolamento de outrora com os ecos da sublime fantasia frescos na memória.

BANDOLINS - OSWALDO MONTENEGRO


O encontro das notas com as palavras certas fazem brotar sensações maravilhosas. É o que acontece neste belo canto de Oswaldo Montenegro, o aclamado "Bandolins". Deixo a letra para saborarem ao som da canção ensaiando passos impróprios!i



BANDOLINS - OSWALDO MONTENEGRO

Como fosse um par que nessa valsa triste
Se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não e por que não dizer
Que o mundo respirava mais se ela apertava assim
Seu colo e como se não fosse um tempo
em que já fosse impróprio se dançar assim
Ela teimou e enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som dos bandolins

Como fosse um lar, seu corpo a valsa triste iluminava
e a noite caminhava assim
E como um par o vento e a madrugada iluminavam
A fada do meu botequim
Valsando como valsa uma criança
Que entra na roda, a noite tá no fim
Ela valsando só na madrugada
Se julgando amada ao som dos bandolins

04 agosto, 2009

2º ACORDE UNIVERSITÁRIO


Olá, Pessoal.

Venho convidar a todos a prestigiarem o 2º Acorde Universitário que terá lugar no Teatro Oficina da Uem nos dias 13, 14 e 15 de agosto. Foram 79 músicas inscritas, sendo selecionadas 30 para a semifinais dos dias 28 e 29. A final será no dia 30 com 15 músicas, tendo premiação para os três primeiros lugares.
A Banda "Café Literário", da qual faço parte, foi selecionada para as semifinais. Tocaremos a música "Ode à Liberdade". Os 15 finalistas participarão de um cd gravado ao vivo no local, e aclamação popular também conta pontos e dará um prêmio. Ou seja, com o apoio de vocês podemos conquistar algum dos prêmios, mesmo sabendo da dificuldade e qualidade dos outros participantes. Se não ganharmos, pelo menos teremos a companhia dos amigos. Se ganharmos, prometeremos uma festa!
Se se insteressarem, falem comigo pelo msn luismaringa@hotmail.com, que enviarei com prazer a música para vocês.

Abraços!


PS: Seremos a quarta banda da sexta-feira

12 julho, 2009

GUINHO



Bom dia!
Hoje trago um conto um pouco dolorido para mim mesmo. É uma história verdadeira, a história de um cão. Todos sabem da minha paixão por animais, sobretudo pelos cães. Já tive vários e tenho uma relação muito gostosa com eles. Os animais são sempre verdadeiros, sejam eles bravos ou bons. São fiéis aos seus princípios e sentimentos, não usam máscaras como os seres humanos. Um dos cachorros que mais me marcaram foi Guinho. Viveu pouco mais de cinco anos, e foi mais intenso e feliz do que muita gente que conheço. Ainda hoje, um ano e meio depois, sua imagem, quando me vêm à tona na memória, ainda me traz dor pela sua perda. Era meu dever transformar sua história em literatura. Eis, abaixo, o resultado. Abraços, espero que gostem!


GUINHO

Com olhos amedrontados e com coração descompassado é que Guinho chegou a minha casa em um triste e chuvoso domingo. Desamparado e renegado pela antiga tutora, eu o trouxe para casa por pena e incerteza de seu destino. Por conta do frio que castigava nossas paisagens, Guinho veio envolto em pedaços de pano que o semi-protegiam da baixa temperatura. Era farto de pelo, de raça não tão nobre, tinha olhos dourados e tremia congelado. Chegou com a aprovação de todos da casa, mas se viu naufragado em uma praia estrangeira.

Passou as primeiras noites sobre o tapete de meu quarto, e só adormecia após muito lhe afagar os pelos revoltosos da cabeça, e a dirigir-lhe as palavras por alguns minutos a ninar lhe. Com o passar dos dias, passou a me reconhecer, a abanar o rabo quando lhe trazia seus quitutes. E, ligeiro, foi reconhecendo o novo lar, os cheiros, inclusive as vozes carinhosas que lhe eram dirigidas. Em uma casa já dominada por outros cães, Guinho passou a ser o centro de todas as atenções, e todos só sabiam agradá-lo e a dirigir-lhe palavras doces. Adquirindo confiança em seu novo habitat, fez suas necessidades sobre um colchão, e aí já imaginas, teve de ser educado, afinal, já se punha em tempo. Chorou muito ao passar a prima noite do outro lado da porta, mas se habituou às intempéries com brevidade. Ao primeiro raiar do sol, tomou contato com os donos do espaço. Os outros cães, no início, desviavam-lhe olhares de desconfiança, enviesados e cismados, mas logo se puseram a diversão, tomando como novo amigo o recém-chegado. Dino era afável como o sol de junho; e Rex, apesar da dureza rochosa ao primeiro contato, era feito trapezista e viva com gracejos o dia todo. Portanto, não teve Guinho problemas grandes de adaptação, príncipe na nova terra.

Nem tanto, de início. Existiam outros moradores, os taciturnos do local: os felinos. Os outros já estavam acostumados com os gatos, e esses com aqueles também, então viviam em um espaço igualitário sem se incomodarem. Guinho com toda a sua simpatia, quando viu o primeiro, ignorou os instintos rivais inertes em si, e avançou para brincar com o mesmo. Foi sovado e levado à lona em pouco tempo, e correu uivando de dores se escondendo no primeiro canto escuro que viu. O Encontrei-o com olhar acabrunhado a resmungar sons como uma criança que cai da bicicleta na primeira tentativa. Agachei-me e sussurrei doçuras aos seus ouvidos, ao qual me retribuiu com uma boa lambidela na boca. Feliz ficou, e retomou seu caminho e foi-se deitar.

Guinho era um levípede nato, aparecia quando menos se esperava, por detrás da porta ou por debaixo do assento, precipitando-se a nos lamber os calcanhares. Mas dessas súbitas aparições ele vinha principalmente para nos chamar a atenção com uma característica que ficou marcada para sempre. Precipitava o corpo para os dois lados, a parte da frente para a esquerda, e a de trás para direita, e vice versa. Nesse jogar de cintura, nasceu uma dança engraçada, marca registrada de sua existência. Outra característica divertida de Guinho aparecia quando assoprávamos seu focinho. Ele punha a cara no chão e tentava tirar com as patas dianteiras o vento por nós soprado. Poderia passar horas fazendo isso e ele continuava a agir da mesma forma, o que levava todos às gargalhadas.

Como todas as crianças ele veio a crescer, entretanto não menos traquinas. Fazia suas necessidades em qualquer lugar, sem se importar com o estrago: plantas, paredes, portas, mesas e onde mais lhe desse a telha. Apanhava, mas não aprendia, quem entenderá os cães, não?

Triste foi em uma manhã o adeus silencioso de Dino bem como a tarde dantesca em que Rex se foi por baixo de uma roda de ônibus. Guinho então, se viu sozinho, sem seus parceiros de festas diárias. Entristeceu-se, procurava os amigos quando, brincando, chamávamos seus nomes.

Porém, o calor humano não deixou que seu coração permanecesse na fria e úmida passagem do sofrimento, ou foi ele que não deixou que nossos corações se esfriassem? Seja qual, Guinho se tornou verdadeiramente um membro, uma ramificação animalesca da família. Se bem que nem tão animal assim, mesmo sendo cão ele parecia entender com um olhar o que se passava internamente conosco. Eu, apenas eu, cheguei a essa conclusão, aproximei-me de tal forma ao canicho, que a relação já me semelhava uma irmandade. Vinha ele sempre com seu dançar sambólico, com seu olhar doce e benévolo, procurando carícias e dando conforto. Quanto tristonho eu estava, Guinho aparecia repentinamente e me fazia rir com seu jeito desastroso de andar. Se não me despertava risos, compreendia o meu mau humor ou meu pensamento longínquo, então se aconchegava no tapete e ficava absorto nos seus próprios pensamentos.

Diariamente, ao ouvir minha voz pela manhã, ou ao ouvir ao menos o trinco da porta a se abrir, corria jardas ao meu encontro para que eu lhe saudasse com meu bom dia. E punha suas patas em minhas pernas, para receber o afago amigo matinal. Não dormia enquanto não via minha chegada pelo portão, corria ao meu encontro com os olhinhos já pesados pela peleja do dia, afinal latir não é para todos.

Em se tratando exatamente disso, o latir, é que conflitávamos. Guinho passava o dia a latir para qualquer movimento suspeito, seja ele o voar de uma borboleta ou passar de um lixeiro. Irritava-me a dedicação com que ele se punha para tal. Só meus berros o faziam cessar, e amedrontado, corria para sua casa, ou estendia seu olhar de penitência pra mim. Conseguia cortar-me o peito, e então ao meu chamado, ele respondia prontamente correndo ao meu encontro com seus pelos balançando ao vento, a língua para fora, pronta para lamber, e com o corpo já ensaiando seu bailar circense. Mantínhamos, assim, uma relação amável de dois seres que, humano e cão respectivamente, se entendiam como poucos.

Contudo, a fatídica treva sempre nos espreita, e quis o destino que ela viesse como na maioria das vezes: sem espera. Adoeceu-se o animal e por mais que fizéssemos, não houve o que ser feito. Começou com um andar sôfrego e ferimentos pelo corpo. Enxergava apenas impressões da realidade, não comia, e só nos atendia abanando o rabicó reconhecendo nossas vozes. Certo dia, nos auges de suas dores, não mais andou. Deitou-se e permaneceu dias agonizando sua doçura. Esperando o esperado, resolvi despedir-me. Aproximei-me dele, fiz afago, todavia não me reconheceu. Porém, ao deitar ao seu lado, trazendo a cabeça perto da sua, e olhando no fundo dos seus olhos é que ele reagiu. Abanou a calda, balançou o corpo, executando para mim sua última dança, aquela que me fez rir por muitos anos. E deixou desprender uma lágrima, fitando-me, dizendo algo que nenhum ser jamais me disse, dando adeus e agradecendo-me a amizade.

Pouco mais de meia década após os choros noturnos de sua chegada, Guinho despedia-se brevemente com uma gota lacrimal ao fitar profundamente no mais recôndito âmago de seu dono. Cerrou seus olhos não como quem fecha uma porta, mas quem diz até breve, onde continuaremos nossa afeição, simpatia, benevolência, bem-fazer, dedicação e afeto construídos a base de uma sólida amizade.

Aqui sentado, hoje me fica a imagem dele correndo pelo jardim, dos pelos a balançar, do olhar acabrunhado, de sua irreverente dança, e do seu companheirismo eterno. O tapete está vazio, mas é como se ele estivesse ali, deitado, com as patas lançadas a frente, inundado em seus próprios pensamentos, absorto em sua existência.

22 maio, 2009

IRREVERSÍVEL


             O melhor filme francês que já vi, ao menos é o mais forte e intenso. Irreversível é uma história contada de trás para frente, com algumas cenas violentas e angustiantes, que nos coloca uma questão: o que na verdade é irreversível?

                Os créditos aparecem no início (apesar de não ser novidade por já ter sido utilizado dois anos antes em Amnésia), mostrando que o filme pode ter alguma coisa de diferente. E realmente, começa pelo fim. O seu início-fim é uma cena com dois senhores conversando sobre a vida. Um deles diz “O tempo destrói tudo”, e então começam a filosofar sobre o comportamento dos seres humanos. Logo ouvimos sirenes e gritos, vem de um reduto gay que fica próximo ao lugar onde os dois homens conversam.

                Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel) estão no tal reduto gay, procurando um homem conhecido como TNA. Agem com certa violência com os freqüentadores do local, parecem estar descontrolados e desesperados para encontrar o tal homem. As cenas nesse reduto são agressivas. Primeiro pelas cenas de sexo sadomasoquistas, que, se não são explícitas, são quase isso, com pessoas transando e se masturbando. Marcus e Pierre se desentendem com outros dois homens, causando uma das cenas mais violentas do filme: o espancamento até à morte de um dos homens por um outro que batia nele com um extintor de incêndio. Outra cena que surpreende pela sua crueza é o estupro e o espancamento de uma mulher em um túnel da cidade.

                A fotografia prima pelo escuro, com cenas à meia-luz, em sua maioria. Mas um dos pontos mais interessantes do filme é o movimento da câmera, que nunca é estanque. Vai e vem, balança o tempo todo, praticamente gira 180 graus, como se, ironicamente, quisesse reverter alguma coisa. Na cena da briga no reduto gay, ela chega a ser nauseante, ajudada pelo psicodelismo da trilha sonora, que dá uma sensação de um efeito provocado por uma droga ou álcool. Afinal, a vida em si não seria uma droga consumida diariamente e que nos leva ao fim, irremediavelmente, irreversivelmente? É o que chegamos a pensar quando vemos a sucessão de cenas e de acontecimentos. Há coisas que nos são irreversíveis, principalmente nossos atos.

                O filme só não é perfeito porque à medida que vai se descobrindo sua trama, principalmente depois de sua metade, a narrativa passa a se tornar um tanto quanto previsível e entediante (principalmente no diálogo dentro do metrô). Apesar de violento e forte, Irreversível não é um filme exagerado. É um filme que mostra a crueza da violência nos grandes centros, a fúria que há dentro dos seres humanos e a irreversibilidade das coisas e da vida. E a última frase do filme no seu fim-início, é justamente a primeira do seu início-fim: “O tempo destrói tudo”.

19 maio, 2009

PULP FICTION


Já tinha ouvido falar dos filmes de Quentin Tarantino, mas confesso, apesar de amar cinema, não tinha visto nenhum filme do aclamado diretor da nova geração. Acabo de ver Pulp Fiction, e realmente o filme é muito bom. A trama de Tarantino nos traz uma representação da entrada da violência no cotidiano das pessoas. Antes víamos os gangsteres, bandidos e assassinos com um forte perfil enviesado à loucura, a demência e a total falta de caráter. Os assassinos de Pulp Fiction são comuns, falam de coisas cotidianas antes de entrarem nas casas e assassinarem seus devedores.

            A narrativa não linear, porém clara, nos mostra a naturalidade com que a morte e a violência são encaradas no muito moderno. Há muito humor negro no filme, críticas a todos os lados. Tarantino provavelmente construiu um dos melhores filmes da década de noventa, e só não levou o Oscar de Melhor Filme em 1994 porque concorria com o quase-perfeito Forrest Gump, mas Tarantino, com sua genialidade, levou o de melhor roteiro.

Quem for assistir ao filme não deve se deixar enganar pela aparentemente boba e frágil narrativa que pode nos levar a crer que é mais um filme de ação e violência gratuita. Mas vai além, só vendo o filme para ver. A trama é dividida em três partes: a primeira é quando Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) vão fazer um “servicinho” para recuperar uma mala para o patrão de seu clã, Marsellus Wallace (Ving Rhames) . A segunda é entre Mia Wallace (Uma Thurman) e Veja. Este último é encarregado pelo chefe de fazer companhia à sua esposa enquanto está ausente da cidade. A terceira trama é sobre Butch (Bruce Willis) que interpreta um boxeador em fim de carreira que aceita suborno de Marsellus para perder uma luta importante.

Três histórias que se entrelaçam facilmente dentro da trama não-linear, e que fez explodir um novo talento no já tão desgastado mercado hollywoodiano. 

17 maio, 2009

BAILE DE MÁSCARAS



Aproveitando o ensejo do tema do meu último poema postado aqui no blog, lanço quase que simultaneamente à sua escrita, ainda com cheiro de tinta fresca, esse belíssimo conto de meu amigo Fábio Fernandes, que retrata, assim como meu poema, as máscaras pegadas às caras do ser humano. Tive o prazer de acompanhar o processo de criação, e fico extremamente feliz de partilhar das idéias de Fernandes. Meus parabéns! E viva à nossa nova corrente literária!



BAILE DE MÁSCARAS

Fábio Fernandes


Inicio meu relato, que nada tem de original, buscando nos arquivos de minha memória os fatos que ocorreram no dia do tradicional Baile de Máscaras da cidade de Novo Camaleão. Adianto ao leitor, que escrevo tais memórias já finado, porém que não se engane, minha situação não é mais nem menos confortável que a de qualquer outro que de fato vive, e vive não só biologicamente.
Desde muito cedo não me encontrei acolhido nos braços da sociedade, e nunca tive talento suficiente que pudesse me deixar a altura dos meus conterrâneos no que diz respeito às artes cênicas, de modo que sempre optei pelos modos reclusos e solitários. Entretanto nos dias anteriores ao Baile, cujo irão melhor conhecer posteriormente, tive uma súbita vontade de me juntar ao rebanho e conhecer o tradicional festejo, não soube antes e não sei agora o porque de tal vontade, o certo é que não posso mentir, e confesso que me rendeu prazeres, porém incompletos e momentâneos.
Pois bem, sobre a cidade de Novo Camaleão, se o leitor ainda não conhece é porque não olhou com muita atenção os mapas da própria vida, se o caso for, descrevo-a sucinto e direto. Era uma cidade pequena, com ares de vila, porém que acomodava considerável número de pessoas. Era pacata, porém dispunha de muitas pessoas que a faziam fervilhar se uma peça qualquer de seu tabuleiro movesse casa não comum. Em suma a cidade tinha não poucas alcoviteiras, maus caráter, gatunos, aproveitadores e toda mais gente de bem que se possa imaginar, e assim trilhava seu caminho rumo ao progresso.
O Baile não trazia clima diferente à cidade, mas os habitantes esperavam ansiosos. Era uma festa em que até o pior afortunado marcava presença, não faltava figura alguma, salvo uma meia dúzia que preferia o aconchego do próprio lar. Eu, no fundo, nunca entendi o porque de tamanha empolgação para um evento onde não se faziam coisas diferentes dos hábitos corriqueiros. O ritual de usar máscaras não era incomum, mas talvez a diversidade de modelos e tamanhos fosse o maior atrativo.
Já era chegada a data, e todos partiram para o salão da igreja, onde eram ocorridas as festas e eventos da cidade. Todos bem trajados, com suas máscaras finas e impecáveis iam lotando o salão que era pouquíssimo iluminado e estava já agitado ao som de músicas dançantes e milhares de vozes animadas. Não cheguei cedo ao evento, pois perdi algum tempo escolhendo minha fantasia, não julgo que fiz boa escolha, peguei a máscara que me pareceu mais conveniente, pois não me preocupei com tais detalhes e não preparei meu traje previamente.
Adentrei o salão com minha máscara de carrasco, fi-lo receoso, não porque a fantasia incomodava, mas porque não tinha lá muito contato com toda a gente. Senti-me estranho, minha timidez impedia com que eu fosse ter com os outros, então fiquei só a observar.
Corria tudo como planejado, a festa se desenrolava a plenos pulmões, quando um sujeito exaltado começou a tumultuar o centro do salão. Demoraram alguns minutos para que lhe dessem a devida atenção. Quando baixaram o volume da música e lhe deram a vez da palavra, o salão emudeceu, e todos permaneceram paralisados, perplexos, na tentativa de assimilar a notícia que acabaram de receber. O homem exaltado estava adoecido e decidira não ir ao Baile, ficara em casa e vira pela televisão que um asteróide estava a caminho do nosso planeta, e que o passeio do asteróide teria desfecho trágico, o apocalipse era iminente, e o tempo que tínhamos era menos de duas horas.
O que aconteceu nessas últimas duas horas de existência do mundo e da cidade de Novo Camaleão pode chocar algum leitor mais desinformado, mas aquele já acostumado com o baile de máscaras nada verá de surpreendente. Desesperados com o fim do mundo muitos foram ter com o padre, para obter a absolvição e gozar do reino dos céus, porém só depois de muita procura encontraram o santo homem, que estava no confessionário da igreja a deleitar-se com os últimos prazeres de sua vida, trocava ele carícias com um de seus coroinhas. Perplexa ao presenciar tal cena, uma beata, que dedicou a vida às rezas e a ação nenhuma, teve a alma arrancada do corpo e caiu aos pés de todos, que se desesperaram e foram chamar o médico para que fosse acudir a religiosa. Surpresa também tiveram todos, ao encontrar o médico, que cavava frenético a sua própria cova e a recheava com todas as suas riquezas, as quais queria ele levar para a eternidade. Quando questionado sobre o estado de saúde da já finada beata, ele só respondeu de forma seca que a partir daquele momento era cada um por si e deus por todos; logo, a beata que sempre tivera fortes laços com deus, estava bem arranjada. Todos, entendendo a situação, dispersaram, só restando um dos vereadores da cidade, que recebendo o parecer do médico irritou-se e levou o doutor até a mulher pela força bruta, e quando o óbito fora constatado pelo médico, desesperou-se e chorou sobre o corpo da mulher muito mais lágrimas que o próprio marido, este que já não passava mais ereto por portas baixas.
E assim sucederam várias dessas, e com todos ia acontecendo o mesmo, as máscaras já não se sustentavam nos rostos e era sofrível mostrar a verdadeira face. Chegada a hora prevista para a colisão já sobravam poucas máscaras, quase todas já estavam ao chão, assim como os rostos de seus donos. Porém algo aconteceu, e a cidade de Novo Camaleão teve a notícia que o asteróide mudara seu percurso; entretanto, engana-se aquele que pensa que o clima foi de total euforia. O asteróide não caiu, porém caíram as máscaras, e agora todos já sabiam a verdadeira identidade que tinham, o que no fundo não era de orgulho, nem mesmo para as pessoas teoricamente mais bem sucedidas na sociedade.
Depois do ocorrido, muitos aderiram aos meus hábitos, e poucos saíam às ruas. Eu que observei todo aquele pandemônio, continuei minha vida normalmente, sem modificar minhas ações, e assim foi até o fim dos meus dias, quando finalmente entendi que todos utilizavam máscaras, dentro ou fora dos Bailes. Entretanto não foi prazeroso me deparar com tal realidade, pois percebi então que o termo todos incluía a minha pessoa, e que a máscara que eu carregara no baile, me servia muito bem à face.