08 fevereiro, 2011

SEND ME AN ANGEL

Luigi Ricciardi

            A chuva fina cortava seus pensamentos como giletes cegas, torrencial chuva no deserto da estrada. Noite fria, abandono, nevoeiro a dificultar-lhe a direção, ambos os sentidos. Há dias dor de cabeça a lhe consumir a concentração. Sentia incômodos corpóreos sem saber exatamente de onde lhe vinham exatamente.
            Seguia, sem conhecer estrada, sem conhecer caminho, mapa desconhecido de uma mente em transe. Acelerava por curvas, desejando mudanças de trajetórias. Vivia? Vivera até ali? De fato, imagens construídas de algo distante do real, espaço simbolicamente cheio, realmente vazio. Apenas transposição de desejos, seu mundo foi criado pela insegurança.
            De repente, como se um novo dia recomeçasse, pequenos raios vindos do céu começaram a tocar o vidro do carro, esperança que sempre brota em noites de tempestade. E no clichezismo dessa frase, seu peito foi ficando vagaroso, menos pesado pelas fissuras vida, mornosamente esperançoso em algo novo a começar.
            Os raios ficando mais fortes, clarão outrora amigo agora afetando-lhe a visão. Força de um sol a parecer raivoso de sua existência. E em alguns segundos já não vê palmo frente ao rosto. Derrapagem solitária? Astro rei espectador do encontro de um carro às arvores.

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            Acordando de um pesadelo infindo, vê paredes brancas e um crucifixo, ambiente espectral de quase morte. Vasos de flores e uma cadeira vazia. Forçando a memória, o pesadelo lhe regressa à mente, o som da batida. Tenta se lembrar do antes; nada, como se jamais vivera. Aparelhos ao redor, monitorando batimentos, bips a encher a sala no seu deserto de madrugada adentro. Barulhos intensificados, as cores do aparelho mudando, verde a vermelho, funções vitais em perigo e ele sentado a observar seus últimos segundos. Quando a máquina identificou a falência, seu grito preenchia todos os espaços do hospital.

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            Transpirando medos às sete da manhã, atrasado uma vez mais. Correndo ao banho matinal, culpava o pesadelo que sempre lhe visitava à mesma hora há meses. Rotina estrutural há perseguir-lhe às pernas. Corria, mas pra onde corria? Sentia um desejo por algo que não conhecia, pela primeira vez desejava sem rumo. Desejo era conquista, sempre fora. Quis casar, casou, quis ter um filho, teve-o, comprou casa, automóvel, viajou. No momento do alcance o desprendimento acontecia, objeto já sem valor. As vezes lhe parecia que a corrida é que importava. Agora novamente o desejo sem saber para quem destinar. No almoço o estômago, à tarde o rim, à noite o coração, sentia-os trespassados, espada do tempo, assassina dos sonhos. Dormiu por remédios.

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            - Oi, sou eu. Você consegue me ouvir? Estou aqui sentada, venho novamente quando for preciso!

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            Sirenes a cortar-lhe os sentidos. Respire, respire. Não vá, mas ele queria ir. Desejava ir. Aquele brilho intenso a tocar o vidro, queria aquele brilho intenso.

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            Novo pesadelo? Satisfação em suspiro, não quis entender. Há tempos não se via livre daquele pesadelo, agora ao menos um diferente. Sentia que algo novo estava prestes a acontecer e saiu pro trabalho. Felicidade apaga a memória ou a ofusca? Saiu sem café nem banho, com meias trocadas. Sua mente agora a molestar via-láctea, mas o esquecimento veio fraco como o vento que antecede o tornado. Foi sacar dinheiro para comer e deixou na boca do caixa eletrônico, tirou a blusa quando entrou no café e deixou-a repousando sobre a mesa quando saiu. Deixou uma pasta na mesa do trabalho, quando voltou ela já não estava. No banho em casa começou a se enxugar e a toalha não estava em suas mãos. Inconsciente, universo sem fronteiras, mas que dialoga. Sonho ou neurose? Falta ou presença? Verdade ou criação? Tudo se perdia, Eolo de fugazes furtos a anunciar perdas inestimáveis.
            Saiu para comer. O motorista não parou o ônibus quando quis, nem reagiu aos seus gritos. Foi ao restaurante, o garçom não lhe atendeu. Perguntou as horas a um casal, que de apaixonado nem notou sua presença. Não entendia, ainda não entendia, mas era o momento da revelação. Sentiu um líquido quente na sua camisa, olhou para baixo, estava todo vermelho.

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            Respirando fundo, mesma sala branca de quase morte. Crucifixo brilhante quase a cegar-lhe. Silêncio que tão profundo lhe permitia ouvir o mexer de suas próprias entranhas. Náusea, náusea. Escutou passos no corredor. Os sons se aproximando, lentamente como numa marcha. Cada toque no chão doía-lhe o peito, calafrios a enrijecer-lhe a respiração. Contraditória humanidade: curioso, desejou saber quem era ou o que era.
            Aproximando, a sala foi tomada por um negrume fatal. As rosas murcharam ao lado da mesa, o aparelho ao qual estava ligado desligou-se, o crucifixo se apagou, o vento que entrava pela janela cessou. E o ranger da porta se abrindo trancou-lhe o respirar.
            E então, alva de seu mistério, ela entrou. Figura milenar, ultra-secular, na beleza de sua mocidade. Sentiu, apesar da aparência, o conhecimento de todos os séculos naqueles olhos cor de terra que lhe fitavam severa e amorosamente. Andava ou flutuava? Veio em sua direção como se marchasse ao som de uma corneta.
            Ao lado da cama, estendeu o braço e tocou-lhe o rosto, seda dos confins do universo de um passado mais velho que o próprio passado. Ela tocou-lhe de volta o rosto, mas seus dedos eram ásperos, como se não houvesse neles vida.
            - Quem é você?
            - Você sabe quem eu sou. Sou o clarão daquela estrada, sou a voz a sussurar-lhe, sou aquela que você sempre desejou, aquela que te completa, que leva embora as angústias, mas que termina com seus dias. Sou mais velha que o mundo, que a vida, sou mais velha que Deus.
            - Por que você é tão bela?
            - Sou tua criação, não tenho matéria, venho da forma que me você me imagina, da forma que você me deseja, da forma que você quer me ver. Então sou assim!
            Ele fez um movimento para fazer ainda uma pergunta, mas ela interrompeu-lhe colocando seus dedos em sua boca. Sabia o que ele perguntaria, e sabia dar-lhe a resposta: sim, já é tempo. E tocaram os lábios com um beijo. A luz renasceu no quarto, mas não nos objetos, e sim dentro dele, ficou cada vez mais forte até ofuscar toda a sala, e quando se apagou, ele estava de pé, olhando o seu corpo que jazia sobre a cama.
            Ela pegou-lhe pela mão e o conduziu à porta, ela se abriu, com uma escuridão do lado externo. Lá entraram, e então a porta se fechou.

4 comentários:

Fabio Fernandes disse...

O estilo do autor está consolidado.
Descrições rigorosas do que é abstrato.
Tarefa difícil, ainda mais quando o significante é algo tão intimista.

Muy bueno

Ana Paula disse...

Quase pode-se sentir o abstrato e o sentimento à margem...

Gostei muito Luis!^^
;*

Hygor Zorak disse...

Gostei do conto. Deixa claro as imagens na mente do leitor, apesar da temática e estrutura subjetiva.
Bacana.

murilo disse...

Muito bom. De profundidade invejável.
haha