22 novembro, 2010

A Insustentável Leveza da Bolha de Sabão


A Insustentável Leveza da Bolha de Sabão
Luigi Ricciardi

            Bolha separatista, isolamento programado. Útero, casa dos seus vinte de poucos anos. Bolha é de sabão, de fato, sopro da verdade machuca carne tenra e sedosa. Bolha simbólica chocar-se-á com o real. Quando criança, mamãe toda louvores, palminhas para as artimanhas. Monstro do id criado, vegetando cérebro em cabeça grande.
            Umbigo corredor de fórmula um, campeão mundial de Freud. Se na corrida outro motor é mais forte, senta a chorar ao lado do muro. Desculpa-se com o mundo por sua falta de tempo, mentiras contadas diante da tela hipnotizadora. Por ela acha que compra o mundo, por ela acha que ganha pessoas.
            Elitizado culturalmente, visão errônea dos que são menores ainda. De fato, cerebelo estrumizado, oportunidades na lixeira, o que vale é um par de óculos escuros e dizer que se alcooliza. Enfim, coca-colas alcoólicas do seu bel prazer são seus alucinógenos doentios. Compra tudo do que não precisa, dispõe de livros que não vai ler, filmes que não entende. Escreve meia dúzia de versos e ganha o Nobel.
        Vivendo a comprar sorrisos com palavras docemente juntadas, acredita alcançar verdadeiras expedições pelo mundo, ledo engano de quem não escuta os comentários por detrás da porta. Só convém se paga a conta, e mesmo assim, ao deixar em casa a companhia, sofre dela risinhos escondidos de escárnio.
            É rei da sua própria bolha, não teve o choque existencial do real. Mamãe estica a mão e dá-lhe de comer, veste-lhe e limpa a bunda cheia de seu cérebro. Constrói castelos de papel, não vê sua Atlântida afundar em mar calmo. Mordendo restos de carne de pescoço, macia como sua alma, ele se desespera ao ver que algo aparenta ser mais brilhoso que a si mesmo. E se o seu ego é ofuscado por um clarão vindo de longe, vende a mãe por um elogio.

03 novembro, 2010

ABORTO

Relutei muito antes de escrever este texto. Ele destoa bastante do estilo do blog onde postos meus poemas e meus contos, mas senti necessidade de escrevê-lo. Ele pode parecer meio agressivo, então desde já quero salientar que não tenho essa intenção embora alguns radicais possam procurar de todas as formas com o intuito de encontrar este tom no texto. Resolvi falar sobre como o aborto foi abordado nestas eleições. Quero frisar que não estou aqui para exaltar as campanhas dos candidatos, quero simplesmente levantar algumas questões a respeito de como a população brasileira encarou e discutiu esse tema durante a campanha presidencial.
            Pois bem, se até os três meses de gestação o bebê ainda não tem todo o sistema nervoso formado (informação carecida de fontes), porque então não se pode fazer o aborto? Afirmo aqui que não tenho religião, mas considero que a vida é a coisa de maior valor que se pode ter. Justamente por isso sou contra o aborto após a formação do feto.
            Contudo, eu acredito que EU não posso decidir se a “mariazinha” vai fazer o aborto ou não. Isso depende dela, as escolhas são dela, e ela sabe (ou pelo menos deveria saber) o que é mais importante e urgente pra sua própria vida. O que me irrita é essa hipocrisia da classe alta e das religiões em dizer vai virar uma “putaria” se o aborto for legalizado. O que ninguém vê é que as ricassas abortam 5 ou 6 vezes a cada dez anos em clínicas super especializadas e as pobres morrem de hemorragia no terreiro dos fundos após um aborto.
            Legal ou não, o aborto sempre foi, é, e será praticado no país. Chega dessa conversinha mole dos cristãos em dizer que Deus é dador da vida e Deus repudia o aborto. Tudo bem, essa é a sua crença, meus queridos amigos. A grande questão é: se o estado brasileiro é laico (para os radicais cristãos mal informados isto significa que o estado não tem religião) porque é que a opinião da igreja deve intervir em uma decisão que engloba pessoas com todos os tipos de crença?
            É claro que o Brasil é predominantemente cristão. E acredito que muito da simbologia e da crença cristã passou para a cultura ocidental em geral. Mas, repito, se o estado é laico porque faremos da crença de alguns a crença de uma totalidade? Um amigo de Orkut me posta um vídeo no dia da eleição “Aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo o papa se pronuncia e repudia Dilma Rousseff por causa do aborto”.
            Meu amigo, o que é que a gente tem a ver com o sumo pontífice, hein!? Respeito-o como respeito qualquer tipo de crença. Mas deixar que ele intervenha é uma anedota da idade média não é mesmo? Isso foi quase transformado em lei sendo que a gente esquece que aqui existem ateus, espíritas, budistas, religiões de origem africana, entre outras. Agora vocês querem impor o pensamento de vocês para o país todo? Interessante, pois o próprio Deus cristão pregou o livre arbítrio (um pouco pseudo-livre arbítrio, mas pregou) e agora vocês tem a mania de se acharem a religião mais correta do mundo. Já que acreditam na justiça divina, deixem que faça o aborto quem quiser, ele é que verá com Deus no dia do acerto de contas.
            Não estou dizendo que todos os cristãos são contra e o todos os que não são cristãos são a favor do aborto (embora majoritariamente seja assim mesmo). Eu que, repito não sou cristão, sou contra o aborto. Mas eu não posso impor minha opinião para todos. Esse estado pelo que vejo não é laico, ele se usa da religião para ganhar votos e dar feriados nacionais (4 feriados nacionais são católicos enquanto não temos feriado em dias que realmente deveriam ser comemorados como dia do índio, dia da consciência negra, etc.).
            Gente, essa “putaria” não vai acontecer se o aborto for legalizado. Como disse uma professora minha: “um dia se estivermos eu e uma amiga sem fazermos nada vamos lá dar uma ‘abortadinha’ e depois voltamos embora”. Não pode cair na banalidade. É claro que se isso fosse legalizado teria que haver um acompanhamento dos postos de saúde e hospitais, para ver as condições físicas, se o feto está já com muitas semanas de vida ou a gravidez está no início, se ela corre risco de morte se abortar, etc. E, se essa pessoa decidir abortar, tem que ser avaliada a razão pela qual ela fará isso: se por problemas psicológicos (um estupro, por exemplo, imagine-se você, cristã, tendo que carregar a marca com você para o resto da vida de um momento muito ruim?) ou de problemas financeiros.
            O que não pode haver, em minha opinião, é reincidência. Senão as pessoas vão engravidar e vão abortar a cada três meses usando dinheiro do estado. Isso realmente não é justo. E para terminar, se você cristão ainda acha que essa pessoa que carrega um trauma ou que não tem condições para sustentar uma criança vos digo duas coisas. No primeiro caso, você com certeza responderia que se ela acreditasse em Deus (leia-se SEU deus e não o deus dela) ela não teria problemas psicológicos e ficaria curada. Se ela tem outras crenças como pode ela ter que acreditar no SEU deus? No segundo caso, a frase que “Deus proverá” é de muita hipocrisia. Não duvido que possa prover, contudo, já que se dói tanto a respeito, por que não vai lá você, então, dar mesada pra criança todos os meses até ela completar dezoito anos? Você não é um instrumento de Deus? Então seja um.
            Bom, é isso. Foi meio que um desabafo. Não tenho nada contra a religião cristã como não tenho nada contra nenhuma outra. Minha formação foi cristã e lá eu aprendi a respeitar os outros como eles são. E é isso que falta para o radicalismo cristão brasileiro. Só para lembrar-vos, cristãos, antes de vocês existiram outras inúmeras religiões, das quais inclusive vocês se apropriaram de muitos elementos. Então, vocês não podem se considerar possuidores de uma verdade com v maiúsculo. O mundo é um mistério e o que vem após ele também, cada um reage segundo a sua própria fé, que pode não ser a mesma. Tolerar e respeitar não quer dizer perder a sua fé para uma outra religião. Fica o recado. Abraços!

30 maio, 2010

TRIBUTO PARA CARONTE




Tributo para Caronte
Fora entorpecente. Tarde chuvosamente fria. Procuraram-se mutuamente em domingo, dia de coisa alguma. Momento de fraterno descanso após espinhos semanais. Vive agora leniência leve após os febris momentos. Ele sente os seios dela pressionando seu tórax. Excita-se um pouco, mas se deixa contemplar, a divinizar aquela que já dorme sobre seu peito. Sua Afrodite eventual.
Não há muito, o frenesi preenchia todos os espaços do quarto. Pontas de dedos tocando aljôfares. Suspiros brandos. Sonata aumentando compasso. E o beijo na rosa. Picos de montanhas. Dentes e gemidos. Porta-aviões. Trançar de pernas, serpentes da floresta. Trêmulos espasmos. Felinos em jaulas campestres. Doce escorrer de mel e suor. Venceram-se carnes, espíritos brandos. Beberam dionisiacamente. O leve sono daqueles que conquistam o mundo nas paredes de um quarto.
Cronos caminhava rápido, pensou. Lá se vai a vida. O ritmo fora bom, mas não o mesmo de juventude plena. Memória voando folhas, mas verdes, num princípio outonal. Vê a pele diferente, ainda tem as marcas das travessuras infantis, mas já cronificadas. Tudo em si mudara, vagarosamente e ágil. Não se percebeu já circundado de papéis e afazeres. Passou a usar óculos. Seus vencimentos lhe deram um veículo e um teto. Seus pais já partiram. Envelhecia ou intrínseca falácia? Empreendia tal e como nos seus raciocínios, mas deixou a afasia mental vencer-lhe, fechando-lhe as pálpebras.
Despertou estranhamente, auferiram-lhe o sono. Sentia o corpo mais pesado sobre si, e quando olhou já estava sendo observado. Do seu sono ela havia levantado com olhar retumbante. Seus olhos eram de pedra, medusa invertida. Uma austera voz da de sua boca saiu a provocar-lhe calafrios infernais: “Como essa comida, essa vida de segundo em segundo. Essa vida, ferida que não fecha e que devora. Devoro comos, em comedidas encomendas. Em coma, e na cama. É assim a comédia de viver. Assim que sou, e assim sempre serei”.
Dizendo isso riu como só o maior dos demônios poderia rir. Abraçou-o e envolveu-o, numa posse que se logo concretizaria. A se debater, sentiu frios tentáculos, gosmentos e gelados como frio da não-vida. Julgou que seria devorado. Aqueles olhos abolidos de amor, a aspereza daquela língua a convidar-lhe ao beijo. Entretanto em segundos ele a viu esfacela-se em poeira e o eco sumindo pela janela.
Acordou gritando. Sendo visto por olhos que diziam “estou aqui”. Ela já não era a górgona de seu desespero. Era novamente sua Afrodite sazonal. Abraçou-a como um Hefesto menino. Acalentou-lhe o espírito, pensamentos secos viajaram-se pesadelos. Mas já se perderam. Agora a paz. Tendo sido beijado à face, moderou os medos, sentiu-se de novo vivo. Pediu um abraço e ganhando, quis um café. Ela foi lhe atender. Apenas um sonho, pensou, apenas. Levantou-se para se lavar, quando o medo voltou a lhe dominar. Relembrou a voz facúndia a desejar-lhe. Calafriou-se de horrores. Nu, correu e deixou o quarto. Viam-se, ao lado da cama, sobre um criado mudo, duas moedas de prata com um desenho de um barco em cada uma delas.

15 maio, 2010

L'HOMME QUI N'AVAIT PAS DE MAISON







E já frequente, volta a pira a visitar. A falar do estranhamento, do oco de-dentro, de formas e túnicas, de objetos das fétidas coroas, de reis...

dos próprios umbigos...


L’HOMME QUI N’AVAIT PAS DE MAISON

Do alto de suas divinas trindades, na cátedra de seus interiores, almoçam à clássica, talheres a requinte, pratos a custar centenas, conversas a enriquecer bueiros. Bolsas de valores, carros importados, ternos, vinhos, assuntos ditos masculinos. Cortinas com pérolas, cristais da Boêmia, vestidos de mãos francesas. Alta costura de entremeios perdidos. Temas dedicados às mulheres desde Eva. Linhas de alto calão, anzóis estrelatos.

No fino restaurador de ânimas famintas, há sussurrantes tilintares de porcelanas chinesas, murmurar quase nulo, perturbação mínima. Restaurante bem pago, impostos desviados. Benfazeja varanda, toque de sol em negrume espírito. O espaço externo do estabelecimento apacenta vontades vãs. Mas espírito bom se incomoda. Não com o sol que é o mais verdadeiro ser presente no tenro fim de manhã, mas ela, ali quieta, resignada, chora motores quebrados, sujos de sarjeta em chuva.

Acompanha robótica o gracejar das distintas moçoilas, insossas existências, faculdade cerebral inata. Plantas daninhas mostram-se em pérolas e diamantes para os cavalheiros, jumentos de suas gravatas. Só enxerga atividades encéfalas na criança, que se diverte com bolas coloridas na sua cadeirinha. A náusea vai aumentando, atingindo galáxias, buracos negros de inconformismo. E só ouvia as prolixas paroles.

Então ele apareceu, torpe de defecações morais, oriundo do mais puro pavor dentre eles. Não se sabe como entrou, por quem passou, e porque viera; mas estava ali, à ponta da mesa a olhar o menino, que sorria em retribuição e pedia, enfim, verdadeiros cafunés. Sorriam, crianças enfim encontrando reciprocidade. Ele dormia nas esquinas, nos frios bancos de esmolas. Um pedinte. Servia-se de sacos plenos de dores para recostar a cabeça. Só possuía um chapéu, presente de antepassados, e vestimentas rasgadas de desprezo.

Ébrio de quimera felicidade, o mendigo que levava a vida a desenhar arco-íris mentais, esperança plena, arriscava jogar ósculos imaginários de retribuição ao menino. A mesa entrou em choque existencial ao notar a mendiga presença. O puro face ao nojo. Todos viam a cena, o pequeno caucasiano, a entregar seu maior riso a um velho africano. Eram felizes verdadeiramente naquele ato, um, abastado de glórias do passado sanguíneo, o outro, castigado pelas estações, com o coração engarrafado, de onde tirava suas afeições, preenchendo seus sonhos. Ali ficaram minutos, telepatizando-se de corações festivos.

Porém, com um sinal de ordem de estado, vieram afastá-lo, para a fria aversão o expulsaram. Em segundos. Lá fora ficou, a rememorar os aviltamentos colecionados. Ameaçados pela crueza vil, decidiram partir antes mesmo de terminarem a abastada refeição. Parada, como que suspensa pela surpresa da cena, ela que antes robotizava, agora se regozijava olhando para o menino, seu próprio espelho em miniatura.

Mas, improvável dos improváveis, histórias daquelas criadas, contadas e reinventadas, deu a última volta. Minutos após, a guerrear com suas juntas, o pequeno herdeiro das riquezas da mesa, pleno de alegria, celebrou seus primeiros passos, sem que ninguém o notasse. Cambaleando passos, firmes entre sorrisos, passou por entre as grandes pernas, torres de marfim, obstáculos aos pequenos. Enfim ganhou a rua, e lá em direção ao mendigo foi. Quando se notou, haviam se encontrado, peito com peito, colo, braços e pernas.

Erupções de satisfação escorriam dos olhos do mendigo, amado como nunca, na singeleza de um abraço. Sentiu o corpo que tocava quente, devaneando, sonhou ter nos braços o filho que não vira, natimorto de época. Rememorou o velho pai, naquela cadeira de sempre, quando corria a buscar afagos no fim de tarde. A fantasiar suas alegrias, esqueceu de onde estava. Quando deu por si, era carregado para o meio da rua, dor no estômago, sangue vindo da cabeça. Em colo distante já fora o pequeno, a chorar desencontro indesejável. A voltar para o trono de sua raça.

07 maio, 2010

HEARTACHE


Essas intermitências blogueiras me incomodam. Hiatos são bons, às vezes para crescimento. Mas realmente o mal desse mundo moderno é essa agitação frenética do vai e vem do cotidiano. E tornamos isso natural, o que na verdade é um construto. Contudo, essa falta de tempo que me impede de escrever e/ou postar frequentemente é algo de valia, frutos que colherei no futuro.
Depois de quase três meses, voilà le nouveau récit....
Au revoir et merci à tous!



HEARTACHE
(Ao som de Too Much Love Will Kill You do Queen)

Olhando por dentre o cristal, a falsa transparência da vida, sente o turbilhão de imagens e lembranças a contornar-lhe os sentidos. Sentada, alisando freneticamente a base da taça de onde sorve a bebida, procura apaziguar as guerrilhas eternas de seus espelhos interiores. Já à meia taça, um jovem casal passa à sua direita, esbanjando vivacidade nas arestas do tempo. O amor segue o rumo, contrariando por um breve momento a finitude das coisas. Ledo engano de todos que levam ainda a esperança do eterno. Constatação.
Após outro gole, foi ao tempo em que sentada à mesma mesa ainda segurava vários fios da vida presos entre seus dedos. Ele estava à sua frente, já com as rugas que tanto lhe desfiguravam a juventude interna, mas com o mesmo romantismo do primeiro olhar. Os cabelos já escassos e brancos, o olhar fatigado, os cortes vermelhos sobre o rosto. Tudo anunciava a finitude. Sabiam que era a última noite em que se veriam dessa forma, a morte já os esperava do lado de lá da porta. Ininganável.
Rápida e veloz esperou poucos dias para agir depois de instalada. O corpo dele já não respondia e as cirurgias cortavam suas esperanças. Juntos morreram rápido, ele fisicamente, ela em sua angústia. E a chuva, e a lama, e o fim. Mas o via nitidamente, à sua frente, suas piscadelas de cantadas, o emanar de sua eterna suavidade. Inclinou-se para beijá-lo, talvez o último toque, teria o mesmo sabor de outrora? E no momento do toque oscular, como a bruma, ele se desfez em fumaças de lembranças. Foi acordada pela triste canção que tocavam no bar. Timidamente deixou seu corpo voltar à cadeira, inércia da tristeza. O garçom já vinha enchendo outra taça de vinho, alucinógeno de quadros surreais. E as rodas, girando. Fantasia.
Algo lhe pedia que voltasse àquele lugar, tempos após. Só deixava a pequena proteção de seu lar pelas necessidades de sobrevivência. Quando podia, fechava-se em seu leito de saudades, segurando fortemente as imagens dele, para que não se apagassem, dividida entre o amante e o amor que ficou. Mas naquele dia cedeu aos impulsos e saiu. No caminho, andando com dificuldade para carregar todos os pedaços da mulher a qual já fora, via as paisagens todas transformadas, todas modificadas em relação à época que passava por aquelas veredas. Letreiros de fast-food, de automóveis e tantos outros. A morte nos cerca, pensou. Se não há guerras, há um carro que passa no momento que se pisa na rua. O industrializado facilitou a morte, a mais natural das coisas. Pensou no matadouro que vira quando criança, o boi com os olhos virados e a língua de fora. No fundo todos terminamos dessa forma, pagando sempre pelo que fazemos, e pelo que não fazemos. Clichezismo.
Quis comer, e deram o que pediu. E os talheres brilhantes, e os cristais de titânio. E o latejar do peito, e o latejar do peito. De que serve tudo? Para quê serve tudo? Se tudo se transforma em uma casa velha, cheia de folhas, varridas pelo vento do norte. Uma casa cheia de ecos e fantasmas que não reconhece a rua que passa defronte à velha porta. Deixou de lado, comer é morrer! Viver é morrer. Nunca ninguém diz essa verdade. Deixou o dinheiro e partiu, dando um toque de melancolia no garçom que a via sair pela porta afora. Abandono.
Dias depois, enquanto enchia as taças de um velho casal que se olhava como se se encontrasse pela primeira vez, o garçom se distraiu ao ouvir o pianista do local tocar uma sonata triste. Era Adágio, ele logo reconheceu, mas era a primeira vez que a via tocada dessa forma. Notas tristes, compasso alegre. A música cresceu e se transformou. E o garçom deixou-se levar por aquelas notas, dando-lhe sensações de verde e céu. Só voltou a si quando percebeu que derramara vinho na mesa, a taça transbordara, correndo como um rio para a borda, caindo ao chão feito cachoeira. Olhou para o casal que sorria, sem perceber o fato, que no momento levantava para dançar ao som do violino, que já acompanhava o piano. Rejuvenesceram irradiantes de canções belas, bailando a vida sobre pétalas de flores. Já eram totalmente jovens, despidos de dores. E dança seguiu, seguiu, anos a fio, a espalhar seus frutos aos passantes, trazendo luz do sol por entre a janela noturna. E ao som da arte, envelheceram novamente, divertindo-se crianças. A tudo o garçom olhava sem perder detalhes. Viu o casal se abraçando ao terminar da música, voltando para a mesa e desaparecendo sob fumaças de lembranças.

17 fevereiro, 2010

MAX



MAX

Luigi Ricciardi

Max gostava de bolas. Sua memória de velho cão lhe traía, não podia se lembrar de quando chegara à velha casa. Ainda com latido fino, pequena bola de veludo, sorriso de quem morde tapetes. Sua vaga lembrança era do quicar do brinquedo lançado pelo dono. E o correr, o correr livre. A manhã para descansar à espera da chegada de quem amava. Quando o garoto chegava da escola, interações mútuas de infâncias descortinando. Após os bailaricos de criança que o levavam ao esgotamento, cantavam para niná-lo. E crescia, em pêlos e músculos. Mas o instinto canino, quimera de mundo, mostrou-lhe um dia o vão do portão. O mundo por se descortinar. Partiu.

Antes felpudo, o pelo agora surrado. Pingos de grossa chuva encharcam-lhe os ossos. O duro chão sob as marquises são seus leitos urbanos. Os gemidos das buzinas, suas canções noturnas. Suas carícias são os pontapés de boas vindas. Com olhos de divina pena, vive seu pesar, de fome. Arrasta-se de sobejos, desjejum que já lhe vem semanal, esmola de quem possui menos que ele. Percorre sozinho avenidas sinuosas, plenas de aceleradores. Às vezes outros lhe fazem companhia, cães inseparáveis dos diários lixos. O pino sol recusa-lhe água, o frio não lhe estende sequer um papelão rasgado.

E, forte como um cão pode ser, sobrevive - mas alguns menores não resistem ao ampulhetar das horas. Decerto nas esquinas está, parado, reflexivo, tentando saber qual caminho é menos obnubilado de riscos. Passa por casas com janelas fechadas de afeto. Quase não se lembra de quando tinha uma casa. Mas se aqui um dia por ventura passar, ele me verá com a bola nas mãos, pronto para recomeçar nossas brincadeiras de infância.

15 fevereiro, 2010

Conto de Última Hora


Conto de Última Hora

- Nossa que água fria, esse negócio não esquenta não?

- O chuveiro não ta bom, tem que comprar outro. Só vai esquentar isso aí mesmo.

Uma droga, pensou ele, lá vai o resto do salário. Lembrou da Ritinha, não soube a razão. Mas lembrou dela. Com ela teria casado, até se arrependera um pouco de acabar com tudo. Foi necessário, mas com ela casaria.

- Porque diabos to lembrando de tanta coisa hoje?

- Falou com a gente filho?

- Não, mãe, to pensando alto.

Sentiu vontade de descer a ladeira nos carrinhos de rolemã. Era dedo furado ou unha quebrada a cada descida. O peito deu uma cutucada e ele sentiu uma tontura.

- Deve ser a cerveja.

- Oi, filho?

- Nada não, pai.

- Ficamos felizes que você tenha voltado, viu, ficamos mesmo.

Voltara por obrigação. Tinha de visitá-los às vezes. Amava-os, mas queria viver longe.

- Nossa... faz tempo que não vou pro cinema. Será que ta passando aquele filme de morte misteriosa? Tipo aquele que eu via escondido na casa do Celso. Ah, não. Aqueles eram pornôs.

- Você disse alguma coisa, Cainã?

- Que encheção.... afff

- Hã?

Ele detestava ir aos enterros. Lembrou do tio morto, fora no seu velório quando criança. Lá, beijou a prima atrás da capela. Primeira experiência.

Outra tontura, quase que perdeu os sentidos. Segurou na cortina e bateu a mão no chão. O peito doeu forte, suou de alívio por não ter caído.

- Você ouviu esse barulho, Joaquim?

- Ouvi. Filho, você ta bem?

- To, pai. Foi só um escorregão.

- Cainã, ta tudo bem?

- Ta surdo, pai? Abaixa essa televisão que você escuta bem.

Detesta conversar com os pais quando vêem vídeos engraçados na TV. Sentiu a água cada vez mais gelada, parecia entrar nas costelas.

- Mãe, o treco aqui ta cada vez pior. Pede pro Osvaldo pendurar a conta lá e pega um chuveiro novo.

- Filho, ta tudo bem?

- Ah, que se dane. Povo surdo do caramba!

E o telefone tocando...

- Alguém ai vai atender ou não?

- Cainã, você não vai sair?

- Já vou, atende esse telefone aí. A propósito, ta ventando aí? Ta muito frio aqui dentro. Pelo jeito vou ter que tomar o banho todo nessa merda aqui mesmo.

Voou o tijolo e a multidão desviou. Bem na sua testa. Pego desprevenido. E o sangue a escorrer. Pensou que seria aquele dia. Que fosse desfalecer. Que teria chegado o momento. Lembrou de quando tirou a virgindade da Amélia. Como ela chorou, e sangue.

- Como foi bom aquele dia.

- Cainã?

Olhou pela janela e viu o céu de um vermelho esmaecido.

- Mãe, o que tá acontecendo lá fora? É frio ou chuva?

- Filho?

O frio foi aumentando. A tontura também, continuou culpando a cerveja. Não queria mais voltar ao hospital. Lá era mais frio que a casa.

- Cainã, eu vou arrombar.

- Ta louco, pai, pra quê?

Ouviu-se um estrondo e seus pais entraram.

- Mas o que isso? Por qual razão vocês quebraram essa porta?

Mas seus pais não olhavam em direção ao chuveiro. Olhavam fixamente o chão no centro do banheiro, pasmos com o que viam. Correram e agacharam aos prantos. Cainã então olhou em volta e viu muito sangue, e viu seus pais debruçados sobre seu próprio corpo, que jazia no chão frio.

03 fevereiro, 2010

BRIGADEIRO - PANORAMA LITERÁRIO BRASILEIRO - 2009/2010



Hoje recebi um exemplar da CBJE (Câmara Brasileira de Jovens Escritores) do livro “Panorama Literário Brasileiro 2009/2010 – CONTOS”. Faço parte dessa coletânea, que é, segundo a própria editora, uma reunião dos melhores textos publicados por eles no ano de 2009.

Bem, faço parte desta coletânea com o conto “Brigadeiro”. Resolvi me aventurar e ler o texto diretamente no exemplar. É uma sensação estranha e satisfatória ao mesmo tempo. Parece que não sou eu o autor daquele texto. Já tive essa sensação outras vezes, mas sempre que acontece eu me pego surpreso novamente. Essa coisa de alinhavar frases e metaforizar acontecimentos me parece tão longe que às vezes a ficha demora a cair. Acredito que qualquer um com verdadeiro sentimento e preparação para tal pode fazer uma verdadeira arte.

Eu me senti feliz ao reler o meu próprio conto, o preferido de muitos dos meus amigos e um dos meus prediletos também. A eles, e àqueles que não leram ainda, volto a postar o conto. Leiam e comentem!


Brigadeiro

Era uma vez Brigadeiro, moreno de seus doze anos. Foi o doce mais amargo que a vida já confeitou. Vivia sem procurar sentidos, sentindo, na pele negra, brancos dissabores. Desde o terceiro par de anos que tinha a lua como companheira e vivia à mercê das gotas de chuva. Perdera a mãe que pouco vira, do pai nunca se soube. Teve irmãos, que devem estar perdidos pelos morros, que por estarem mais perto do céu brincam de deuses com suas armas de Olimpo. Jamais os viu, inclusive os deuses.

Zanzava o dia todo por entre as buzinas frenéticas no centro. Tentou muitas coisas na vida, chicletes, malabarismos, e balas. Nunca encontrou sorte por essas veredas, procurou outras, com insucesso maior. E caminhava sertões de fome e seca na grande cidade engolidora.

Doía-lhe a fome, apertavam-lhe as costelas. Jejuava religiosamente dias. E nas horas do desespero tinha a visão turva, tinha tremeliques e se socorria nos galões de lixo comendo qualquer rato que encontrasse. Nessas horas não sentia cheiro, nem gosto, sua fome necessitava de outros poréns.

Em seu mais recôndito canto, e não se sabia como, Brigadeiro cria não ser difícil existir, mas sim viver, com essa miséria nua e existência despercebida. Uma vez ficou horas do lado de dois senhores que conversam, a pedir gorjeta pela exibição de suas piruetas, enquanto os homens conversaram sem dar pela presença do menino. E com sua honra despida saiu a soluçar suas lágrimas de anjo escorraçado.

Porém Brigadeiro também tinha amigos. Fê-los nas andanças e desaventuranças de seu existir cataléptico. Brincavam de comer doces e de serem mágicos. Certa vez, nas brincadeiras inocentes, um dos amigos, com seu graveto-cetro de poder, tocou na cabeça de Brigadeiro, e o transformou em doce. Uma das meninas correu a lambê-lo, mas gritou com nojo ao tocar a pele suada do menino. Depois disse:

- Você não tem graça Brigadeiro, você não é doce, e não tem nada que te cubra.

E naquele dia, aprontando-se para dormir nas gélidas calçadas defronte aos belos apartamentos da cidade, Brigadeiro, que procurava algo com que se cobrir, pensava, pensava e ficava sem entender o que a amiga havia dito. Nunca conhecera o doce, ou melhor, pelo menos achava que nunca tinha visto, já o vira sim, mas não associou o nome à coisa.

Por vezes um passante caridoso dava-lhe moedas, ou mesmo algo para enganar sua peste. Sorria, o sol enfim das nuvens saía, e ele saía a correr. E então, no nirvana de sua tênue alegria procurava os amigos para dividir as migalhas que recebia, e todos alegres e contentes com seus estômagos quase inexistentes, mas cheios, partiram para as brincadeiras de fim de tarde.

Os dias se passavam e Brigadeiro não conseguia nada com que se forrar, nem seu verdadeiro choro nas esquinas das lavadeiras ajudava a alma faminta. Via muitos carros passando, alguns tinham as janelas abertas, e as pessoas que estavam dentro ofuscavam sua vista com alguma coisa que colocavam nos olhos que mais parecia o sol. E todos eles tinham os dentes brancos, a pele alva e os cabelos cheirosos e doces, porque Brigadeiro, mesmo com a distância, conseguia cheirá-los.

Sentiu vontade, então, de comer doce, daqueles que viu, certa vez, vários homens preparando pela vitrine da padaria. Era um doce preto, preto como ele, feito em bolinhas com alguma coisa da mesma cor a cobri-los. Mesmo com a loja fechada pôde sentir todo o frescor da paz que exalava do chocolate vindo da padaria. Quis saber que nome tinha o doce, e nunca veio a saber que o doce se chamava como ele mesmo. E ali ficou, por minutos, Brigadeiro olhando brigadeiro. Eram parecidos na cor, iguais no nome. Mas o doce era o sussurrado aljôfar das confeitarias, e ele o surrado, o sofrido, o amassado produto da sociedade moderna. Foi a única vez em que se viram.

Na noite fria e insensível, com a fome a arrancar-lhe gemidos, eis que passa um homem, de cabelos negros e pele com coloração parecida. Ao ver Brigadeiro sentiu pena, lembrou-se de quando era menino, e quanto a fome era um mistério para ele. Com o passar dos anos acostumara-se a comer menos e conseguia assim arrastar seu existir. Acabou por parar ao lado do garoto, e então lhe ofereceu metade de seu jantar, um bolo que achara nos fundos do supermercado. Brigadeiro nem conseguiu agradecer, seu instinto foi mais rápido, e sem sequer olhar o rosto do samaritano, devorou seus pedaços em pouco tempo, aliviando sua existência. O homem partiu, com o estômago cheio e a sorrir lembrando seus tempos de criança.

A noite esfriava cada vez mais, e Brigadeiro, de tão feliz que estava sequer se cobriu, nem procurou algo para dormir. O sono veio rápido, tão logo havia comido. E com um sorriso aberto nos lábios, Brigadeiro partiu, não se sabe em razão da grande quantidade de comida, ou pelo frio que à noite mandou. Acharam-no na manhã seguinte, ainda com o sorriso nos lábios e a pele levemente roxeada. Despediu-se desta confeitaria, onde foi, durante todo o tempo em que existiu, amassado, polvilhado, e porque não, muitas vezes assado, e no fim descartado.

Foi uma vez Brigadeiro, o doce-amargo do existir inconsciente e do ser-não-ser desta terra não gentil.

17 janeiro, 2010

Poema Sujo


Nos anos 70, Ferreira Gullar viveu exilado, fora perseguido, como a maioria dos grandes artístas pela ferrenha ditadura que imperava em nosso país. Em Buenos Aires, estava com o passaporte vencido e a Argentina mergulhava em uma ditadura tão perseguidora quanto a que ocorria em nosso território. Com medo de ser preso e morto, Ferreira Gullar quis expressar em um só poema todas as suas angústias, reflexões e memórias, fazendo assim sua maior aventura literária. E deu certo. O resultado foi um dos mais belos e profundos poemas da nossa literatura. O livro se chama Poema Sujo e foi lançado em 1976.

Na verdade se trata de vários poemas dentro de um só que permeia suas lembranças da época vivida na sua cidade natal, São Luis do Maranhão. E ele fala dos cheiros da cidade, dos movimentos, dos ritmos, da sujeira, dos sabores, das mortes e dos desejos. Hoje li essa obra aprazível. Dá pra se ler numa pegada. Ai vai uma dica. Há uma edição do livro que conta com um cd, no qual o próprio poeta declama seu poema na íntegra. Vou deixar aqui alguns trechos do livro para que fomente em quem aqui passar a vontade de ter contato com o escritor que é considerado hoje o maior poeta brasileiro vivo.



“Mudar de casa já era

um aprendizado da morte: aquele

meu quarto com sua úmida parede manchada

aquele quintal tomado de plantas verdes

sob a chuva

e a cozinha

e o fio da lâmpada coberto de moscas,

nossa casa

cheia de nossas vozes

tem agora outros moradores”



“Ah, minha cidade suja

de muita dor em voz baixa

de vergonhas que a família abafa

em suas gavetas mais fundas

de vestidos desbotados

de camisas mal cerzidas

de tanta gente humilhada

comendo pouco

mas ainda assim bordando flores

suas toalhas de mesa

suas toalhas de centro

de mesa com jarros

- na tarde

durante a tarde

durante a vida –

cheios de flores

de papel crepom

já empoeiradas

minha cidade doída”



“É impossível dizer

em quantas velocidades diferentes

se move uma cidade

a cada instante

(sem falar nos mortos

que voam para trás)

ou mesmo uma casa

onde a velocidade da cozinha

não é igual à da sala (aparentemente imóvel

nos seus jarros e bibelôs de porcelana)

nem à do quintal

escancarado às ventanias da época”



“da mão que busca entre os pentelhos

o sonho molhado dos muitos lábios

do corpo

que ao afago se abre em rosa, a mão

que ali se detém a sujar-se

de cheiros de mulher”



“cada coisa está em outra

de sua própria maneira

e de maneira distinta

de como está em si mesma”



“Não sei de que tecido é feita a minha carne e essa vertigem

que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás

e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,

ou dentro de um ônibus

ou no bojo de um Boeing 707 acima do atlântico

acima do arco-íris

perfeitamente fora

do rigor cronológico

sonhando”



“Do corpo. Mas que é o corpo?

Meu corpo feito de carne e de osso.

Esse osso que não vejo, maxilares, costelas,

flexível armação que me sustenta no espaço

que não me deixa desabar como um saco

vazio

que guarda as viceras todas

funcionando”



“por todas as partes se fabricava noite que nos envenenaria de jasmim”

CINEMA - Amores Brutos


Os filmes de Iñárritu vão além do drama. Ele é o maior representante do trágico moderno. Em “Amores Brutos”, o ser humano vive em um ambiente hostil. E, vil, o ser humano é refém desse mundo e é obrigado a dançar conforme a música. Ou segundo a maldade que existe dentro de si. A cidade é quase uma selva, sempre há perigos, e a cada esquina.
Embora não tão profundo no que tange a tenuidade da
vida quanto “21 Gramas”, ainda é interessante vê-lo. Podemos chamar os dois filmes, juntamente com Babel, de Trilogia da Tragédia. Contudo, essa tragédia pode ser entendida como resultado do monstro que mora dentro de cada ser humano.
A rinha de cães que permeia primeira parte do filme é tradução da mais profunda ira humana. E a cena final, naquele negrume em que Martin caminha, é a representação mais forte da trajetória humana: A solidão
!

16 janeiro, 2010

CAIM



Há 15 minutos terminei a leitura de "Caim" de José Saramago. Todos sabem minha admiração pelo escritor, ao qual dediquei dois trabalhos importantes em minha gradução e dedicarei meu mestrado. Todos sabem também de meus questionamentos a respeito da biblia e da igreja. O livro reflete o que eu sentia e posto agora um comentário que encontrei em um blog que manifesta exatamente o que penso.

O texto abaixo pertence ao blog: http://lagartinhadotcom.blogspot.com/. Visitem-no quando puderem. Abraços fraternos!




CAIM, SARAMAGO E DEUS

Muita tinta tem corrido sobre o último livro de Saramago, Caim. Como só gosto de falar depois de conhecer, depressa "cravei" a oferta do livro, que finalmente me chegou à mesinha de apoio da casa de banho, local onde habitualmente começo a leitura de qualquer obra.

Tenho por hábito consultar as fontes utilizadas nos livros que leio para ver até que ponto a ficção se mistura com a realidade, pelo que neste caso, juntamente com Caim, tenho a Bíblia marcada com post it's em sítios estratégicos...

Na minha ignorância que já vem de longe, uma vez que não tenho qualquer cultura religiosa, chego à conclusão que a visão que Saramago tem do início da Vida, é mais ou menos a mesma que a minha, ou a bem dizer será mais ao contrário, já que Saramago é prémio Nobel da literatura e eu não sou ninguém, mas quero com isto dizer, que não me choca rigorosamente nada do que li até agora, muito antes pelo contrário...Abraão teve o desplante de agarrar no filho e estava prestes a sacrificar o seu rebento em nome de uma obediência servil a um ser que nem sequer tinha visto...logo, Deus, supostamente o lado bom da coisa, leva um pai ao extremo independentemente de o travar a segundos de finalizar o acto aberrante de matar o próprio filho!

O ponto da questão, quanto a mim, na obra de Saramago, é o facto de um homem de uma certa idade ter adquirido o direito de questionar de uma maneira muito particular, quais as intenções do Sr. Deus quando leva os comuns mortais a ter determinadas atitudes que alguns justificam com o "foi a vontade de Deus".

Quando tenho conhecimento que uma boa mãe, com filhos pequenos, morre de cancro, ou uma criança morre por incúria do médico, um trabalhador da construção civil cai do telhado de uma moradia e morre, quantas vezes já não questionei os desígnios de Deus? Só não tenho a experiência literária de um Saramago, ou a sua independência ideológica, para poder fazer-me ouvir e principalmente ser respondida...

Quando li o Evangelho segundo Jesus Cristo, para mal dos meus pecados dei por mim a ler o Antigo e o Novo Testamento de fio a pavio. A bem da verdade, fiquei estupefacta com o que li...ou era de facto muito estúpida, ou Deus era mesmo bera...mas uma coisa ficou ciente na minha cabecinha: Jesus foi um reaccionário muito à frente do seu tempo e não houve até hoje ninguém que tenha conseguido manifs tão espontâneas como Jesus conseguiu no seu tempo...claro que tinham que lhe "limpar o sarampo"!

Não sei realmente se Deus existe, mas se existe, segundo a Bíblia, ou pelo menos pela minha interpretação é um cadinho vingativo e rancoroso, mas no que diz respeito a Jesus, ai sobre Jesus, a história é outra: muitos seguissem os seus ensinamentos e o mundo era muito melhor!

Não me levem a mal, pois como me considero um pouco estúpida, admito que a minha leitura das Escrituras esteja completamente errada e não tenha percebido nada da mensagem, mas se Saramago entende a Bíblia como um "livro de maus costumes", eu tenho sempre entendido Deus como o "bicho Papão" das criancinhas e não só...

Só não percebo é onde Saramago ofende seja quem for...
O que escreve não é lei, não representa nada a não ser as suas ideias e as de quem as partilha, só lê quem quer, e no meio disto tudo, provoca debates interessantes e talvez alguém me explique principalmente o que leva um pai a sacrificar um filho em nome ...do quê mesmo?